Quadrantes dos
Quadrinhos, 12/12/05
7 notícias com texto final de Marko Ajdarić a
partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
Este foi o último Quadrantes dos Quadrinhos do ano de 2005. Esperamos voltar com muito mais vigor em 2006, ano para o qual pretendemos realizar várias exposições da Nona Arte.
Novas frentes de José Carlos Fernandes
O mais genial dos
quadrinhistas portugueses da atualidade volta à carga em várias frentes: depois
de seu aplaudido álbum ''A Última Obra-Prima de Aaron Slobdj', sobre um dos
maiores artistas plásticos sem reconhecimento do Século XX, lançado em maio. No
dia 10, José Carlos Fernandes lançou, em Lisboa, o 5º álbum da 'Pior
Banda do Mundo', cujo título é 'O Depósito de Refugos Postais', pela Devir
portuguesa. Com a 'Pior Banda do Mundo', sobre uma insólita banda que através da
música recria um tempo e alguns modos que não mais existem, Fernandes já
venceu 3 prêmios no maior evento de quadrinhos da língua portuguesa, o Festival
da Amadora (melhor álbum em 2003 e 2003, melhor argumento em 2004). Confira
aqui, 2 páginas deste novo trabalho: 1 / 2, para o qual ainda não
encontramos uma resenha. Na mesma oportunidade, ele anunciou detalhes do projeto
em que ele é o argumentista um projeto coletivo que envolve os
ilustradores Miguel Rocha, Luís
Rodrigues, Susa Monteiro e Roberto Gomes e um espanhol que, pela descrição que
tivemos, não é outro senão Ken Niimura (cobrem depois nossa
aposta),
trata-se de uma nova
etapa da série Blackbox Stories, que já saem pela revista gratuita do
Centro Comercial Colombo. Sobre 'A Agência de Viagens Lemming', que
foi publicada este ano em 62 pranchas, em meias páginas, através do
Diário de Notícias, às sextas-feiras, agora se sabe que teremos uma edição
compilada em álbum da primeira safra, e uma nova leva, em 2006, pelas
páginas do mesmo jornal. Pelo que pesquisamos, as suas 'Ostras', estórias
curtas cheias de oníricas observações, com direito a fundo musical, continuam
com força através das ondas da rádio Antena 2.
O carro dos
otakus
A Nissan acaba de
por no mercado um carro com características que ela associa ao universo dos
otakus (os apreciadores de mangás e animês): o Pivo, que tinha sido anunciado em
outubro. Aliás, um automóvel que é um brinde a inteligência, para além
do arrojo de suas linhas: o motorista fica no meio do pequeno carro (2,7
metros de comprimento), que comporta mais 2 passageiros (ao seu lado). A cabine
pode girar em 360 graus, o que faz com que as manobras de deslocamento e -
em especial - estacionamento e ré fiquem muito menos complicadas. Os otakus (e
aderentes à proposta do carro) ainda poderão entrar no fundo do mar com o
econômico protótipo que tem uma fonte de energia revolucionária quanto ao
consumo e quanto à emissão de gases poluentes. Para os menos arrojados, a espera
pode significar comprar automóveis no futuro breve com melhorias a partir da
experiência do Pivo. O design foi desenvolvido por Takashi Murakami, apresentado
às vezes como o 'Andy Warhol japonês', que também desenvolveu um animê para a
divulgação do automóvel ovóide.

O fim de ano é
do Gavião Negro
Depois do compilatório
de 192 páginas intitulado 'Hawkman: Wings of Fury', lançado em maio, com
HQs roteirizadas por Geoff Johns, e
do compilatório 'JSA 8: Black Reign', de junho em que ele divide as
112 páginas com a Sociedade da Justiça, Hawkman (Gavião Negro) tem direito a um
dos melhores lançamentos da DC Comics, neste final de 2005: 'Golden Age Hawkman
Archives Vol. 1', que chegou às gibiterias americanas no dia 7, com os 22
gibis da Flash Comics que primeiro trouxeram o personagem criado por Gardner Fox
nos anos 40, republicados em 224 páginas com capa-dura ao preço (anunciado) de
50 dólares. A Flash Comics foi exatamente a revista em que primeiro apareceu o
primeiro The Flash, e criado também por Fox, que logo depois bolaria mais um
personagem de sucesso até hoje: o Green Lantern (Lanterna Verde). Para prefaciar
esta bela obra, a DC traz um texto de Sheldon
Moldoff, um dos primeiros desenhistas da série.
No número de dezembro
da atual série (o 47º), Hawkman está sendo desenhado por Chris
Batista , que assinou contrato de
exclusividade com a DC Comics na semana passada, e portanto, tem motivação
nova para suceder Joe
Bennett e Dale
Eaglesham. Vamos ver se as resenhas em 2006 serão mais favoráveis do que em
2005, onde o Gavião Negro esteve longe das preferências dos críticos americanos
de super-heróis, apesar de vender dentro do esgotado e até esgotar uma
edição inteira (a 41).
Resenha: 'Um
Mundo dos Quadrinhos'

Os brasileiros que
acompanham a cena local da Nona Arte já conhecem o nome de Wellington Srbek como
realizador de quadrinhos que extende os limites do discurso da Nona Arte sobre o
Brasil, especialmente por Fantasmagoriana. Agora, através de mais uma das iniciativas que tornam a Marca de
Fantasia a melhor editora de
livros sobre quadrinhos no Brasil, temos a chegada de 'Um Mundo dos Quadrinhos', que é uma adaptação do primeiro
capítulo da dissertação de mestrado que ele apresentou sob o título de
'Quadrinho-Arte: uma Leitura da Revista Pererê de Ziraldo à Faculdade de
Educação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
Fazendo um
paralelo com alguns dos argumentos centrais do livro, Wellington Srbek
mostra que a escolha das referências é fundamental para que se tenha uma um foco
correto sobre os quadrinhos: a grande vantagem do quadrinhista e pesquisador é
exatamente esta, a nosso ver. Para quem conhece a atmosfera acadêmica
brasileira, em que muitas vezes a barafusta e a confusão conceituais são
a regra, as escolhas das fontes de Srbek - e principalmente as dosagens com
que as usa - são extremamente animadoras: podendo escolher entre centenas de
fontes e multiplicar referências muitas vezes movediças, Srbek se vale de
referências como Roland Barthes, Bakhtin, E. H. Gombrich, os integrantes da
escola de Frankfurt (goste-se ou não deles) com uma 'apropriação' mais que
satisfatória e sóbria. A partir de suas fontes bem escolhidas e bem
trabalhadas, Srbek desenvolve sínteses originais e fecundas, que
envolvem desde questões técnicas até temas como a alienação, a relação
entre criador e leitor, o mercado nacional de quadrinhos e muitos
outros. Para uma obra desse porte, não trazer nenhum 'ruído' em sua
parte dissertativa mostra que Srbek tem muito claro em sua mente de muitas
idéias os objetivos a que se propôs: demonstrar a falibilidade de 3 noções
correntes: 'de que as HQs surgiram nos Estados Unidos em 1896, de que são
simplesmente um tipo de literatura, e de que não passam de mero
entretenimento'. Vale ressaltar que o livro só traz leves escorregadelas na
apresentação (que merece ser acompanhada de um prefácio nas próximas edições),
que supomos sejam por sua adaptação ao modo acadêmico de apresentar trabalhos.
Uma vez ultrapassada esta fase, o livro traz não só uma defesa muito bem
argumentada dos pontos principais que Srbek defende e que não só convencem da
integridade do autor por trás das letras: 'Um Mundo dos Quadrinhos', em
64 páginas e algumas
ilustrações, com capa ilustrada com artes de Moebius, Flavio Colin, Osamu Tezuka
e Jack Kirby, se não é o mundo dos quadrinhos, é um belo guia para que se
entenda seus caminhos. E para mais, nos traz algumas 'perturbadoras' questões
sobre que novas construções Srbek é capaz de realizar ao pensar de forma tão
ampla e fundamentada o seu próprio fazer enquanto quadrinhista para lá de
cerebral.
Não esquecendo de dizer
que o livro custa apenas R$ 10,00.
Crist na mostra
de São Vicente

Silvio Cadelo
na Mostra Trinacional da Nona Arte de São Vicente
Silvio Cadelo
(nascido em 1948) estará presente em nossa Mostra Trinacional da Nona Arte
através da capa e uma prancha da edição em francês de seu álbum Vogliadicane,
por meio da edição da Casterman (1989) com o título de 'Envie de Chien', que
também foi publicado pela Schreiber & Leser, na Alemanha.
A edição da Casterman se dá a partir do publicado em 1987 nas paginas da mítica
revista À Suivre, que mudou como poucas o cenário do quadrinho autoral na
Europa, nos anos 80.
Esta obra de Cadelo já
é de uma fase em que o artista italiano já contava com dois álbuns ilustrados a
partir de roteiros do genial chileno Alejandro Jodorowsky, e tem desenhos que
funcionam tanto melhor por que os roteiros são do próprio desenhista (ou
será que são das cartas que ele diz receber?).
Para além das
tentativas de associar seu estilo ao barroco, ao simbolismo ao gótico ou ainda
ao maneirismo, Cadelo é um artista com uma incrível capacidade de variar o
próprio desenho: em Vogliadicane, para cada estória (ou será a mesma estória?) o
artista parece incorporar traços diferentes, como querendo assinalar as origens
diferentes de trechos que teriam dado origem às fantasmagóricas poéticas e
surrealistas passagens de seu personagem único e de sua lagarta Yug. No
álbum, Cadelo reafirma a tradição européia em Nona Arte em estilhaçar
limites. A partir de uma sóbria divisão dos quadrinhos, o álbum tem mais que um
componente de encantamento para cada tipo de leitor. Os mais jovens, decerto vão
se deslumbrar com a qualidade de seus traços e com tiradas geniais, os leitores
mais maduros são convidados a voltar à leitura do álbum mais de uma vez, tantas
são as pontas muito bem soltas a partir das quais Cadelo faz com que cada leitor
diferente crie a sua própria narrativa. Uma aula de quadrinhos que merece não só
ser conhecida e reproduzida além dos ótimos selos que já a publicaram, mas que
explica por que Cadelo é um dos europeus que primeiro aproveita a invasão
dos mangás para, em sua contra-maré, ser publicado pela gigante do setor, no
Japão, a Kodansha.
Daniel Torres
na Mostra Trinacional da Nona Arte de São Vicente

Para a inclusão
de Daniel Torres na nossa Mostra Trinacional da Nona Arte,
escolhemos uma prancha de uma HQ publicada pela revista portuguesa
Selecções BD de novembro de 2000. Assim, homenageamos também
uma das melhores tentativas de se reunir bons quadrinhos autorais em língua
portuguesa na última década (que deixou de circular em meados de 2001), não só
pela publicação em tamanho álbum de bons artistas - inclusive do Brasil
- mas também por excelentes artigos e entrevistas. A despeito de não
ser uma peça de suas séries mais famosas, a escolha também permite trazer para
nossa mostra um pouco de uma das melhores aproximações entre ficção
científica e quadrinhos: a própria prancha é quase um trailer fechado
de uma história em quadrinhos e provem da participação de Torres na
série 'The Ray Bradbury Chronicles', que além da arte de
Torres, contou com a presença de outros expoentes da Nona Arte, como Dave
Gibbons, Harvey Kurtzman, Mike Mignola, P Craig Russell e Matt Wagner, que
recriaram contos de um dos maiores nomes da ficção científica, através da
Byron Preiss, se saindo - bem - de um desafio que em outros meios
- como o cinema - foi um tormento para o receptor final e para os
produtores. Uma extensa ficha biográfica e uma bem dirigida
entrevista também vão estar à disposição de quem queira aproveitar a
oportunidade de conhecer um dos melhores quadrinhistas em atividade na
Espanha.
Nascido em 1958 em
Teresa de Cofrents, o valenciano Daniel Torres é um bom caso de
realizador que ilustra e roteiriza bem. A partir de 1985, seus desenhos aparecem associados, nos EUA, a
títulos com o merecido prestígio das editoras Penguin, Bantam e Dell,
e das revistas Playboy e Esquire; ainda nos EUA, Vargas já
teve a oportunidade de desenhar um absoluto referencial da Vertigo (o
selo adulto da DC Comics): Sandman. Em 1992, com prólogo de ninguém menos
que Will Eisner e textos - entre outros - de Antoni Guiral, a
Generalitat Valenciana (governo local) faz publicar o catálogo de luxo em
211 páginas da exposição 'Daniel Torres. Historietas:
Ilustraciones'. Em 1993, ele venceu o Saló del Cómic de Barcelona (melhor obra
espanhola) com os 2 volumes de 'El Octavo Día', Em 1995, saiu o
sketchbook de 80 páginas 'El Arte de Daniel Torres'.
Seu personagem mais
conhecido, o aventureiro espacial e galã Roco Vargas já tem versões em
alemão, francês e inglês. A sua série voltada para o público infantil Tom
(veiculada pelo caderno infantil de El País, um dos maiores e melhores jornais
de toda a Europa a partir de 1994) está em vias de ser adaptada para o
formato da animação, sob a direção do próprio quadrinhista. Como bom jovem
mestre, Torres ainda encontra tempo de dar dicas aos mais novos por meio de sua
coluna 'Jóvenes Dibujantes', na revista ¡Dibus!, que já foram coligidas em
livro.
ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos