Quadrantes dos Quadrinhos, 08/12/05
5 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
 
 
O ano de Geoff Johns
 
Na sua edição que traz um balanço do ano de 2005, a revista Wizard, um marco absoluto dos quadrinhos mainstream nos EUA escolheu Geoff Johns como 'Homem do Ano' e Roteirista do Ano'! A escolha se baseia no desempenho de Johns em séries como Liga da Justiça e JSA, Infinite Crisis, Teen Titans, Lanterna Verde e The Flash. A Wizard também assinala que - pelo impulso dado por Johns a estes títulos - A DC Comics foi escolhida a 'Editora do Ano'. Ethan van Sciver, colega de John em Lanterna Verde (na retomada do personagem através de Green Lantern: Rebirth), foi indicado desenhista do ano. All Star Superman 1, roteirizado por Grant Morrison e ilustrado por Frank Quitely, foi indicado melhor gibi individual, com direito a doses de rasgados elogios.
 
 
Portugal: hora de mulheres
 
A Plátano Editora, responsável pela chegada ao idioma português nos anos 70 de alguns dos melhores títulos de bandes dessinées, está colhendo os frutos de uma interessante proposta: 'Os Portugas no Dakar', que vem a ser a quadrinhização da participação de portugueses no maior rali do mundo, o Paris-Dakar. Depois de um grande sucesso de vendas do primeiro volume, lançado em 2003, temos uma rara combinação no novo álbum anunciado: ele vai abordar as 4 participações da motociclista Elisabete Jacinto, que é, ela própria, a autora dos roteiros, que são ilustrados por Luís Pinto Coelho (confira um desenho). O álbum deve estar à venda em meados de 2006, e mostra também um feito adicional de Elisabete: sua atuação pilotando um caminhão na edição de 2004 do rali. Num sentido bem diverso, mas que caracteriza outra afeição dos portugueses pela Nona Arte, fundadora da primeira publicação portuguesa de quadrinhos destinada ao público feminino, Mariana Lopes Viegas foi homenageada ontem pela Escola Superior de Educação de Santarém. Mariana Lopes Viegas nasceu em 1918 em Amadora (sede do maior festival da Nona Arte em língua portuguesa), e criou o suplemento 'A Formiga', que era um encarte do jornal 'O Mosquito', que tem várias outras contribuições importantes nesta área.
 
 
O Voltaire de Chris Ware
 
Um dos mais antigos selos a ter expressão mundial em livros, especialmente de bolso, a Penguin Books, convidou alguns grandes nomes dos quadrinhos para realizar capas de sua  coleção Penguin Classics, que publica alguns dos maiores clássicos da literatura. O primeiro tomo desta nova iniciativa é um primor de boa escolha: O 'Cândido', a melhor sátira literária à visão otimista do mundo, escrita por Voltaire, traz a capa idealizada por Chris Ware, um dos expoentes dos quadrinhos independentes autorais não só nos EUA, mas em todo o mundo. Vamos ver que outras surpresas a Penguin vai nos reservar.
 
 
A migração, em livro de Rui Tenreiro
 
Em novembro, tivemos a oportunidade de divulgar a publicação do 20º número da revista autoral norueguesa de quadrinhos Forresten, e de comentar a inclusão, com destaque, do moçambicano Rui Tenreiro neste número. Agora, o próprio artista nos enviou dados para que apresentássemos o seu livro: 'Trost' (O Melro) é um livro de 48 páginas sobre as impressões de um imigrante em um país novo. O livro é uma combinação de banda desenhada e também de ilustrações que compõem o 'sketchbook' do personagem principal. Com poucos textos, o livro apresenta um tom algo melancólico que marca a narrativa especialmente depois de uma entrevista do artista para mostrar seu portfolio.

O livro está sendo impresso na Noruega (pela própria Jippi) e no Canadá, simultaneamente, com cores diferentes em cada edição, sendo a estréia de Tenreiro em BD.

Sobre Rui Tenreiro:

Nascido em Moçambique em 1979, emigrou quando tinha 14 anos e já viveu em 5 países diferentes, em 12 anos. Migrações são, portanto, o tema constante de sua vida. Ao migrar para a Noruega, o artista encarou a situação 'mais difícil que um estrangeiro pode encarar: a dependência dos outros pela sobrevivência'. Rui Tenreiro dedica a obra a seus pais, que o apoiaram nesta caminhada.

Pelo relatado, temos ainda mais clara a opção da Jippi Comics em se render ao talento e abrir espaço para um quadrinhista, marcando mais uma vez a trajetória de difusão da produção independente.

 

 
Andrea Pazienza na Mostra Trinacional da Nona Arte de São Vicente

Através da capa e de uma prancha que selecionamos da primeira edição (de 1988) de 'Zanardi e altre Storie', publicado pela Comic Art, estaremos inserindo a trajetória de Andrea Pazienza na  Mostra Trinacional da Nona Arte de São Vicente. Consideramos que a coletânea mostra bem o perfil de um quadrinhista que registrou como ninguém as incertezas da juventude italiana dos anos 70. Na série Zanardi, Pazienza criou estórias de um grupo de três amigos e suas confusões recheadas de sexo e bom humor, que revelavam o início da decadência da juventude italiana e do vazio de valores que se seguiu à derrota dos jovens italianos dos anos 70. Para além de sua trágica e singularmente reveladora morte (por overdose), em 1988, Pazienza é um dos autores recentes que mais é cultuado pelos jovens realizadores italianos: não só sua obra deu origem ao Centro Fumetto Andrea Pazienza (CFAPAZ), criado ainda em 1988, e que entre muitos marcos de sua trajetória, deu origem ao festival de quadrinhos de Cremona (o Piccolo Festival intorno al Fumetto), em outubro de 2005, e anunciou, em novembro do mesmo ano ser o primeiro grande centro de estudos sobre a Nona Arte no mundo a ter seu  acervo (de 8.000 peças) digitalizado de acordo com as convenções internacionais, como também ao projeto de um museu em sua memória, na cidade de cidade de San Severo, próxima de Foggia, no noroeste da Itália, onde Pazienza passou parte de sua infância. Ainda em 2005, Pazienza foi contemplado com a programação de um volume de seus trabalhos na mais importante contribuição de um jornal italiano aos quadrinhos, a 'Grandi Classici', do jornal La Repubblica, que trouxe um pouco de 'Zanardi e altre Storie' para as mãos de centenas de milhares de italianos. Sua primeira HQ publicada - em 1982-  foi 'Le Straordinarie Avventure di Penthotal', que saiu na Alterlinus (suplemento da mítica revista Linus, que completou 40 anos de circulação em 2005) por indicação expressa de Umberto Eco. Nota: os brasileiros conheceram Pazienza através da revista Animal.
 

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