Resenha de John
Constantine: Hellblazer nas Ruas de Londres'
Entre os lançamentos em
formato Prestige com distribuição em livrarias que a Devir do Brasil (da qual se
originaram a Devir da Espanha e a Devir de Portugal ) lançou neste mês, temos
mais uma bela contribuição para que os quadrinhos adultos ganhem novos
e consistentes leitores. Trata-se
de 'John
Constantine: Hellblazer nas Ruas de Londres' que tem 144 páginas e
preço anunciado de R$ 37,50, e que foi impresso na Espanha. Para quem conhece os
autores de quadrinhos, a lista de autores presentes já é mostra o
cuidado da pesquisa para se chegar a este volume entre as muitas estórias
publicadas originalmente pela Vertigo, o selo adulto da DC Comics: Neil
Gaiman, Dave McKean, Jamie Delano, John Ridgway, Garth Ennis, David Lloyd, Peter
Snejbjerg, Warren Ellis, Frank Teran, Brian Azzarello e Dave Taylor
(aliás, o volume conta com
fichas biográficas de todos os autores, um detalhe muitas vezes esquecido
até em obras de um só autor, no Brasil). A escolha de estórias de John
Constantine que se passam em Londres facilita ao novo leitor perceber de forma
cabal as muitas possibilidades de se fazer, a partir de um pano de fundo de um
personagem que aparentemente é ligado ao mundo do terror ou dos infernos,
quadrinhos autorais, bem resolvidos artísticos e que ainda por cima, mexem com
muitas de nossas certezas. Destaques para 'Indo com Tudo', uma mordaz e muito
bem amarrada crônica da reeleição de Margareth Thatcher escrita por
Jamie Delano, em que a ligação com o submundo
(literalmente) diabólico em que John Constantine trafega tão bem permite um
discurso aberto sobre as formas pelos quais o poder oculto se exerce na
sociedade atual e 'Me Abrace', onde mais uma vez a dobradinha Gaiman / Mc
Kean chega a soluções absolutamente líricas para uma trama que poderia
facilmente resvalar para o banal sobre a solidão e o inverno que atormenta os
miseráveis da capital inglesa. Mas todas as HQs publicadas primam por mostrar
que os quadrinhos podem ser uma expressão única e que 'incomoda' ao cérebro,
ficando por longas horas na mente do leitor. Boas doses de fábula, humor
ácido, romance psicológico, thriller policial e claro,
romance noir estão neste volume. Para mais, a variedade de ilustradores
reunidos num só permite que o volume permita - especialmente aos novos
leitores - uma experiência próxima da literatura: o John Constantine que
fica na mente é um contorno afetivo e não uma única imagem,
monolítica. Desta soma, chegamos à afirmação que John Constantine,
especialmente apresentado desta forma, se soma à galeria de ótimos
'não-personagens': aqueles que servem de fio condutor entre várias estórias, mas
como todo expoente desse tipo de quadrinhos, inesquecível como experiência
estética e como personagem. A
tradução não claudica em nenhum momento, e todas as capas dos gibis
originais foram republicadas nesta coletânea, o que brinda os leitores com artes
de Will Simpson, Glen Fabry, Phil Hale, Tim Bradstreet (uma das mais icônicas da
trajetória do personagem) e John Totleben. Para quem viu o filme
antes de conhecer os quadrinhos, o novo volume de Hellblazer (que teve
também 11 títulos publicados no Brasil pela Brainstore) torna ainda mais
fácil entender o desapontamento de muitos leitores com a película.
Outros 2 títulos
lançados no mesmo formato e com a mesma distribuição este mês são a edição
condensada de 'Aria'
de Brian Holguin e Lan Medina, e Sin City: 'A
Noite da Vingança' de Frank Miller.
A coletânea de inverno da
Image
Com a marca do 'experimentalismo',
segundo um das sinopses, a Image Comics está fazendo chegar às gibiterias
americanas neste mês a sua coletânea de inverno, chamada 'Image Comics Holiday
Special 2005', (que anunciamos em outubro mas que
agora tem mais dados divulgados) e que tem 100 páginas e custa 10 dólares, com
um belo time de quadrinhistas, a começar por Frank Cho, que realizou a
capa, passando por Robert Kirkman, Scott Kurtz, Erik Larsen, B. Clay Moore, Tom
Scioli e Jim Valentino. Esperemos que a coletânea ajude a juntar as novas levas
de leitores que a Image - editora que nasceu para romper com o primado dos
super-heróis no mercado americano - teve num ano excepcionalmente bom, em que
vários autores da Image conseguiram ser sucesso de público e / ou de
crítica. Não por acaso, a divulgação se baseia em títulos como The
Amazing Joy Buzzards, Gødland, PvP e The Walking Dead, mas as HQs desta
antologia são originais e desvinculadas destas séries. Apesar da excelência do
lançamento, apenas o quadrinhista Mark Millar e o excelente portal The 4th Rail
já fizeram curtos porém mais que elogiosos comentários sobre a obra. Vale
lembrar que em agosto a Image lançou uma coletânea semelhante de verão, a
Negative Burn Summer Special 2005.

O mangá segundo
Bonelli
O nosso amigo José Ricardo do Socorro
Lima, que coordena, desde o Rio de Janeiro o grupo virtual de
discussão BonelliHQ, fez
a tradução de uma declaração dada por Sergio Bonelli, esta semana, e
nos concedeu a oportunidade de divulgar com nossos leitores. Seguem-se a
transcrição (sem retoques) e nosso comentários.
Nunca li um mangá e nunca o
farei. Cada gibi é filho de sua terra. Não compreendo como o longínquo Japão
possa influenciar os leitores italianos, tão distantes culturalmente... conheço
o quadrinho italiano desde os anos 30, conheço muito bem o quadrinho francês, um
pouco o belga, suficientemente o americano, mas não muito, porque estou
distante... o quadrinho japonês, na minha idade, não quero conhecer, tão
distante culturalmente... Dylan Dog teve um sucesso incrível entre os leitores
italianos (não entendi o sentido do que está entre parênteses), no exterior
era... é, em proporção, quase desconhecido... as revistas bonellianas são
caracterizadas pelo desenho realístico, bem curado. Agora chegam esses mangás
com traço simples, grandes olhos, estilo grotesco. Jesus, por sorte eu já estou
prestes a me aposentar...'
Bem, a primeira constatação que cabe
e merece ser feita é que o maior editor de quadrinhos da Itália (e melhor
desenhista de quadrinhos este ano, segundo o
festival de Lucca) não teve ainda entre as mãos mangás autorais. Não
pretendemos com a publicação desta nota acirrar nenhum debate. Mas vale
registrar que um dos homens que mais conhece, publica e divulga quadrinhos em
todo o mundo - e que sim, como disse em outra entrevista deste ano, procura dar
algo a mais aos leitores do que simples 'diversão' , vê os mangás como
a grande maioria dos leitores. Na nossa opinião, é um sinal de que a
aposta japonesa (que importa em vários bilhões de dólares ao longo de décadas)
em atingir o Ocidente com um chamado à sub-cultura (cada vez mais festivais
otakus se apresentam 'orgulhosamente' como tal) está estiolando seu alcance. Que
tenha levado centenas de milhares de jovens no Ocidente a agradáveis e
interessantes carnavais sem baixaria (como os vejo, pessoalmente) em
contraposição à vida anti-social em frente aos videogames e à televisão já
é um enriquecimento que não se pode esquecer. Mas, quem sabe, já tenha
passado a hora dos mangás (vistos como conjunto) trazerem algum valor
agregado, e correm o risco de ficar cristalizados no imaginário popular como
nada mais do que isso: uma subcultura que diverte por alguns minutos. E o pior é
que a cultura japonesa tem e teria muito a nos acrescentar, e isto o mangá
não mostrou, para romper a barreira deste pequeno círculo de leitores
que são os otakus.

Hora do festival
da Croácia
Por falar em
Bonelli, assim como em 2004, o personagem Zagor e seus artistas são, novamente, as estrelas do
Crtani Romani Šou, festival internacional de quadrinho que é o maior
evento da Nona Arte sediado em Zagreb, a capital croata, e que acontece de 9 a
11 de dezembro: Moreno Burattini e Gallieno Ferri já estão
sendo entrevistados pela imprensa do país e devem colher um
pouco da imensa popularidade de seus personagens (e da linha Bonelli em
geral) entre croatas de várias gerações. Esad T.
Ribić, o artista croata que realiza as artes de vários gibis para a
Marvel, como Thor e que tem se destacado na série House of M e suas revistas
derivadas, tem direito a uma retrospectiva de sua carreira, Os filmes a ser
exibidos no festival são 'Punisher', 'Rocketeer', Garfield, 'Spider-Man
2', 'X-Men 2' e 'Komandant Mark', baseado em mais um popularíssimo
gibi bonelliano por lá: Il Comandante Mark. Komandant Mark chegou, em
setembro, à sua 250ª edição na Croácia (sendo publicado na Eslovênia, também). A
despeito de alguns valores locais e regionais estarem conseguindo uma
visibilidade crescente e outros quadrantes do mundo, quem tem a oportunidade de
expor a sua produção este ano é o jovem coletivo chamado Septica. Um registro adicional que fazemos é que,
este ano, tivemos em mãos pelo menos um dos catálogos do salão, o da sua primeira edição, a
de 1998, e que realmente pode se considerar muito mais do que um catálogo e/ou
uma apresentação da atual geração de artistas croatas. Entre outros artigos, um
ensaio de Darko Macan que nos deu a oportunidade de conhecer a fundo uma das
mais cerebrais gerações de quadrinhistas da Europa, a Novi
Kvadrat, que se gestou lá mesmo em Zagreb, nos anos 70. Para quem gosta
de quadrinhos-cabeça, recomendamos que não deixem de pesquisar e
devorar: a Novi Kvadrat é uma síntese muito (repito, muito)
feliz do que o pesquisador brasileiro Moacy Cirne sempre
tentou aliar: poesia moderna e quadrinhos. Um novo fanzine chamado Novi Kvadrat
está chegando ao seu 3º número, que será lançado no
evento.

A cena
norueguesa, vista de perto
Depois de
escrevermos nossa nota sobre a Nona Arte no PALOP e no Timor, nós
procuramos manter contato - por e-mail - com o quadrinhista moçambicano
Rui Tenreiro, para que nos ajudasse a compreender um pouco mais
sobre o que se produz e realiza por lá.
Segue, com uma pequena
adaptação, o que nos transmitiu Rui Tenreiro
Marko
Ajdarić.
Gostaria de lhe pedir que nos ajudasse a manter atualizados nossos sobre o que
se faz em BD na Noruega, para além do sucesso de Jason, do festival Raptus, do
Kollektivet e do que publicam JIPPI e Egmont, que são os fatos que temos podido
noticiar no Neorama dos Quadrinhos.
Rui
Tenreiro: A Noruega não é um sítio onde se passe muito em termos de BD.
Não há apoio quase nenhum da parte do governo, apesar das editoras terem
provavelmente os direitos de autor mais altos que ouvi! São 20%. A BD na Noruega
está, portanto, pouco desenvolvida.
Marko
Ajdarić:
Há
3 editoras de BD principais: Jippi!, NoComprendo Press, Dongeri. Jippi
é somente e puramente comics, já a No Comprendo começa a fazer a transição para
o campo de livros ilustrados publicando menos edições por ano mas investindo em
publicações com qualidade superior sempre que possível. Os Dongeri são uma
editora mais nova, sem meios mas que se esforça por sair e ser notada. Acho que,
se tivessem suficientes meios monetários para produzir coisas com qualidade,
iriam produzir as BDs mais 'jovens' e interessantes da
Noruega.
Marko
Ajdarić:
lhe
desejo êxito no lançamento da Forresten número 20.
Rui
Tenreiro: Obrigado. Acabei também de lançar o meu primeiro livro na
Noruega e que vai sair no Canadá em fevereiro. Desisti de publicar a obra em
português, em Portugal, porque as condições de publicação não eram muito
boas.
Nota:
assim que tenhamos informação sobre o livro de Tenreiro, estaremos publicando
através do Neorama dos Quadrinhos.
ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos