Quadrantes dos Quadrinhos, 29 e 30/11/05
5 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos

Resenha: 'Santô', de Spacca
 
Para marcar os 100 anos do 1º vôo do 14-Bis - marco maior da história da aviação -, o quadrinhista, cartunista e ilustrador Spacca lançou, no dia 21, pela Companhia das Letras (editora que também enriquece a cena da Nona Arte no Brasil com o selo Companhia das Letrinhas) 'Santô e os Pais da Aviação', uma história em quadrinhos sobre a vida de Alberto Santos-Dumont e de seus contemporâneos, em 168 páginas em preto e branco, no formato de álbum, ao preço de R$ 39,00.  Nosso colega Humberto Yashima - do Bigorna - esteve na concorrida sessão de autógrafos, no dia 26, e a registrou em fotos.
 
Parafraseando uma passagem do próprio 'Santô', o único 'pecado' de Spacca é fazer parecer fácil realizar uma quadrinhização deste tipo, uma vez que o conhecimento de Spacca de várias possibilidades dos quadrinhos aliado a uma dedicação de anos ao projeto, resultaram em uma quadrinhização que apresenta uma sólida fluidez, apesar de amarrar bem inúmeras tramas. Outro 'problema' de 'Santô' é que dificilmente se quer largá-lo antes da conclusão da leitura.
 
Spacca consegue, em rápidas e seguras pinceladas, gravar fundo na memória dos leitores várias passagens da história da aviação em geral e da vida de Santos Dumont, em particular. Antológica, desse ponto de vista, é a passagem em que o nosso autor descreve como Santos Dumont chegou ao formato de chapéu  que conhecemos (para citar apenas um detalhe mais conhecido). Como conjunto, Santô é um retrato melhor - e mais eficiente - do inventor do avião e de seu tempo do que qualquer um dos manuais positivistas da historiografia oficial, e deveria ser exemplo para que mais obras do tipo fossem realizadas, possibilitando aos jovens de todas as idades incorporar afetivamente em seus ideários personagens como Cândido Rondon, o Barão de Mauá, Bartolomeu de Gusmão (já biografado em quase-quadrinhos por Ruy Jobim Netto, que também tem publicado um livro ilustrado sobre Santos Dumont) e  -minha sugestão, por que não - o maior arquiteto negro da história, Teodoro Sampaio. Para 'sorte' da escolha de Spacca, digamos que Alberto Santos Dumont era dono de uma personalidade muito correta, o que facilitou ao 'escritor' Spacca  mostrar a vida do biografado e de seu tempo. Spacca esgrime muito bem os recursos dos quadrinhos, em especial o uso do branco e dos enquadramentos, para cumprir seu projeto. Assim, Spacca conduz muito bem o leitor ao ambiente e às estórias e história em que o inventor colheu suas vitórias, fama e derrotas, não faltando nada do essencial para se considerar, além de uma agradável leitura, uma boa introdução aos primórdios da aviação. A abertura é ótima por dois aspectos: para quem conhece a história de 'Santô' (como os franceses chamavam Santos Dumont) fica um clima de expectativa sobre o nexo das cenas com a biografia; para quem não conhece (crianças e eventuais leitores estrangeiros) apresenta uma aproximação paulatina que funciona muito bem. O desenvolvimento é um aula do uso do meio-quadrinhos para contar uma estória: com certeza, a maioria dos leitores será levada a lê-lo mais de uma vez, pois Spacca consegue um dos melhores êxitos de uma HQ: agrada e acrescenta ao leitor de 7 anos e vai ser reveladora de muitos detalhes ao mais culto dos leitores de 77. O fechamento, bem, não queremos contar, mas casa bem com o lirismo que nosso autor escolheu, e marca com eficácia a empatia entre pesquisador e objeto, chave do sucesso desta biografia em quadrinhos. O tratamento editorial é excelente, até no letreiramento, onde o erro em apenas 1 letrinha nos ajudou a perceber o quanto as letras foram bem escolhidas. Nosso único senão, mais como leitor que como resenhador, é que esperávamos um uso mais denso dos remorsos que Santos Dumont sentiu com o uso militar de sua invenção.  Para famílias de bom gosto, vale a lembrança para incluir esse ótimo presente em sua lista de Natal, pois será um presente para várias gerações. Não sei se é o intento do Spacca, mas uma versão mais barata para uso em escolas de crianças de famílias mais esmagadas pelos nossos desgovernos seria um presente para milhares de brasileirinhos...  
 
 
Novos prêmios espanhóis - Expocómic 2005 (II)
 
O maior evento de quadrinhos de Madri, o salão Expocómic, tem a sua edição 2005 (a 8ª) entre os dias 1º e 4 de dezembro, embora uma apresentação oficial esteja acontecendo nesta terça-feira. Os organizadores do evento já publicaram a lista dos vencedores dos Premios Expocómic 2005, escolhidos por votação popular: Manel Fontdevila (sobre o qual escrevemos no Quadrantes dos Quadrinhos 58), foi eleito o melhor roteirista espanhol, 'Carlitos Fax', de Albert Monteys, editada pela El Jueves, foi escolhido como melhor obra espanhola., Naoki Urasawa, por 20th Century Boys, venceu em duas categorias: melhor roteiro e melhor obra estrangeira; Gary Frank (Supreme Power), Robert Kirkman, por seu Invincible (publicado na Espanha pela Aleta), foi eleito autor revelação do ano. Daniel Acuña - que no dia 18 foi contratado como artista exclusivo da DC Comics - é o melhor desenhista nacional. O melhor fanzine este ano, na ausência de TOS e TMEO, foi Dos Veces Breve, o melhor site sobre quadrinhos só podia ser... La Cárcel de Papel, de Alvaro Pons. O programa Miradas 2, da RTVE, levou um prêmio especial pela divulgação dos tebeos
 
França: o 'melhor do ano'
 
Entre os 250 autores presentes ao 25º Festival Quai des Bulles, em agosto, nós desstacamos a presença de Lax (Christian Lacroix), por seu álbum 'L'Aigle sans Orteils', lançado em junho, pela Dupuis, através de sua coleção Aire Libre. Pois agora, pelos critérios do prêmio Grand Prix RTL, promovido pela rádio RTL (que mantem um ótimo programa semanal sobre a Nona Arte) e o Festival de Angoulême, que indicaram, durante 9 meses sucessivos, 9 álbuns para chegar a esta escolha. A escolha privilegia, mais uma vez, como em 2004, quando foi escolhido 'Où le Regard ne Porte pas', os quadrinhos que  abordam de forma poética a vida real, na figura de Amédé, que sonha em vencer a mais importante prova do ciclismo mundial, o Tour de France, nos idos de 1907. A sinopse oficial traz, além da capa, 2 pranchas para que se tenha uma pequena aproximação do valor da obra. Em tempo: aproveite; a votação online da RTL para a escolha da personalidade feminina do ano na França está aberta.
     
 
Detetives na Marvel
 
Mais uma vez, agradecemos aos amigos do HQ Maniacs pela cessão de um texto para os leitores do Quadrantes dos Quadrinhos. Desta vez, por meio de uma nota pesquisada e escrita por Vinícius Schiavini.
 
Brendan Cahill decidiu apostar em um lado não muito explorado da Marvel: as histórias de detetives, com muito suspense. Pelo menos é o que ele promete, com desenhos de John Burns, na mini-série Sable & Fortune, que enfocará dois personagens obscuros da Marvel: Silver Sable, líder de um grupo de mercenários, e Dominic Fortune, que já trabalhou com a alta elite da S.H.I.E.L.D.. 'Sable é uma rainha dos mercenários, competente e fria. Já Fortune envelheceu, e mudou muito. Continua um investigador, mas mais sombrio e com seus próprios métodos', disse o roteirista. Em seis edições, que terão uma história em três partes, uma isolada e mais uma em duas partes, a única coisa que Cahill promete é que não veremos super-heróis nas páginas. 'Não é uma história com heróis, é uma história sombria.' A primeira edição de Sable & Fortune sai em janeiro.
 
 
4 anos de Yeni Akrep
 
A revista virtual Yeni Akrep (com conteúdo em inglês) é mais uma das extensões pelas quais os cartunistas turcos mostram a sua qualidade e a sua capacidade de articular artistas do humor de traço de todo o mundo. Para marcar 4 anos de lançada, foi posto no ar o seu 40º número, com destaque para um cartum do brasileiro Marcos Coelho Benjamin, e - ainda com relação ao Brasil - a divulgação do 3º festival Humor at the Falls (Festival Internacional de Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu, em Foz do Iguaçu, no Paraná), uma matéria sobre a 51ª exposição que foi realizada na Galerija Karikatura Osijek, nesta cidade croata (pronuncia-se Óssiiék), que abrigou uma mostra pelos de seu grande bastião, Tomislav Dušanić, o Tod, um dos artista do traço mais ativos da Croácia e que projetou internacionalmente a cidade neste âmbito. A convocação ao 5º HumoDAEVA, considerado o maior concurso regular de cartuns da Romênia, também está presente, e os turcos nos deram a alegria de publicar os vencedores da Bienal de Caricaturas de Plovdiv, na Bulgária, que teve por tema o Carnaval popular, onde temos em destaque mais um brasileiro que milita bem na área internacional Erico de Oliveira Ayres, mas que deixaremos para escrever em outra oportunidade, pois vamos receber o catálogo do certame para analisar. Uma outra dica desta edição é a convocatória de El Toboso, cidade toledana que Cervantes imortalizou para uma Bienal de Humor em homenagem à única amada que rivaliza em fama com Julieta na lista dos amores impossíveis: Dulcinéia; a partir da indicação do Yeni Akrep, chegamos à convocatória da I Bienal Humor Gráfico Dulcinea,  mais uma das merecidas homenagens da arte do traço aos 400 anos de um dos maiores mestres da narrativa ficcional de todos os tempos.
 
Por falar em turcos, também foram divulgados os vencedores do prêmio Nasreddin Hodja, um dos maiores eventos do calendário da Nona Arte naquele país. O grande vencedor  foi o polonês Grzegorz Szumowski, e entre os artistas de países em que temos leitores, 3 prêmios especiais foram conferidos, ao gaúcho Ronaldo Cunha Dias (mais um!) ao macedônio Jordan Pop-Iliev e ao croata Mojmir Mihatov. No total, nesta edição, o júri examinou 1.220 trabalhos de 980 artistas de 65 países.  

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