Quadrantes dos Quadrinhos,
22 e 23/11/05
Notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material
publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
Um show de
Superman
Mais um presente
da editora TwoMorrows para quem gosta do registro bem-feito da arte e de seus
artistas acaba de ser anunciado. O número 56 da revista Alter Ego (a ser
veiculado em fevereiro de 2006) vai trazer, em 100 páginas ao preço de 9
dólares, alguns registros importantes sobre a trajetória do Homem de Aço. A
começar por uma entrevista com os criadores do personagem, Jerry Siegel e Joe
Shuster. A revista traz ainda uma dose dupla de Neal Adams: além da capa,
feita por ele, teremos um artigo dele, além de artes de Curt Swan, Wayne Boring,
Al Plastino e outros. Em tempo: registramos
no dia 18, a bela nova edição da Comic
Book Artist, dedicada a Will Eisner; nas listas americanas de discussão em
que participamos, apesar do bom recebimento da notícia, o comentário corrente é
que no tempo em que era editada pela TwoMorrows um fator importante era melhor
observado: a regularidade.
Ponteiros
suíços
O tempo, uma das
especialidades dos suíços, 'conspirou' para nos trazer 3 notícias relevantes de
suíços, nenhuma delas originária da Suíça, no início desta semana. Entre as 52
novas fichas biográficas publicadas pela Comiclopedia (confira nota sobre os
6 brasileiros que estão nela),
encontramos a de Jens Harder, artista de Basiléia, sobre o qual fomos pesquisar, e
encontramos uma interessantíssima obra de quadrinhos-reportagem, publicada em
outubro pela Avant Verlag, uma garantia de qualidade em se tratando de
quadrinhos autorais. Harder e o coletivo do qual ele participa, o
Monogatari, se associou a quadrinhistas de Israel para publicar 'Cargo', um
álbum em que 3 HQs sobre Israel são realizadas por artistas da Suíça e Alemanha
e 3 HQ sobre a Alemanha foram criadas por quadrinhistas israelenses.
A obra foi publicada em alemão e em
inglês, e prefaciada pelo intelectual polonês (nascido em Katowice) Henryk M.
Broder, colaborador regular de Spiegel e
do jornal Berliner Tagesspiegel, sendo uma absoluta referência em literatura de
expressão alemã. Já a Alliance Graphique Internationale nos trouxe a
notícia da constituição do Max
Museo, museu dedicado à obra do grande designer suíço Max Huber
(1919/1992), um dos principais nomes das artes gráficas de sua época, e que
aproximou substancialmente o concretismo da expressão visual fora da pintura,
especialmente, em cartazes. O museu que pretende ser mais que um depósito de referências, e sim, um local de
estudos, está sendo erigido na cidade de Chiasso, e as linhas retas e simples
procuram manter a marca do artista. Esperamos que o museu esteja pronto
para a próxima edição do maior evento ligado à imagem que a cidade
sedia: a Biennale dell'Immagine e Il Mondo in Camera, que acontece em novembro
de 2006. Por fim, na Itália, um dos selos mais autorais de quadrinhos, a
Edizioni BD está lançando um álbum ilustrado por Nedeljko Bajalica (pronuncia-se
Bajálitsa), que é assistente do mestre dos quadrinhos italianos Benito
Jacovitti. Trata-se de 'Ci Vediamo Domani', com roteiros de Paolo Crepet, que contem 3 estórias sobre
solidão e angustias do mundo moderno, com 4 personagens diferentes, em
preto e branco, em 160 páginas. O álbum - lançado no dia 15, marca a
estréia do psicólogo Crepet - autor de vários livros - em
quadrinhos. Nesta quarta-feira,
Nedeljko ou - simplesmente - Ned, Bajalica está em Lecce, na Lupiae
Comix, Scuola di Fumetto, autografando a obra. Bajalica não só tem
origem familiar na antiga Iugoslávia. Nscido em 1975, na Suíça, o
quadrinhista já foi um dos convidados que fizeram a ponte entre o festival
Grrr! em Pancevo, na Sérbia, e os fumetti, em sua 3ª edição, no ano
passado.

Os quadrinhos
segundo a Time
O jornalista
especializado em quadrinhos Andrew Arnold continua sendo uma mina de
inteligência e sensibilidade dentro da revista Time, provavelmente, a que
chega a mais pontos no mundo, em sua versão de papel. A última iniciativa de
Arnold foi organizar e disponibilizar online todos os artigos e capas da revista
consagrados à Nona Arte, inclusive a quase pioneira acapa com H.T. Webster,
sobre a qual escrevemos em
setembro. Mais uma bela idéia a ser 'copiada' por
publicações de todo o mundo.
A ciência dos
animês
Do alto de uma
carreira de alguns livros publicados (inclusive sobre a ciência e os supervilões
e a ciência e os super-heróis), a pesquisadora Lois H
Gresh vem de publicar 'Science of Anime', livro
de 258 páginas que estará à venda em dezembro, pela Thunder's Mouth, e que se
dedica a analisar a relação entre animês e a tecnologia de ponta, com destaque
para Ghost in the Shell. O diferencial de Lois, pelo qual acreditamos que o livro possa ser uma ferramenta válida para o
conhecimento dos filmes japoneses de animação é a amplitude de
seu horizonte de pesquisas dentro do campo das manifestações da
indústria cultural, que se associa a bons conhecimentos de computação. Assim,
esperamos que o livro sirva para que os jovens leitores tenham uma visão
séria de como os animês se encaixam com outros fatores da sociedade moderna.
Esperamos que Lois repita seus trabalhos anteriores, o que já vai garantir um
livro singular. O preço anunciado é 16 dólares.
Entrevista:
Sergio Morettini
Em mais uma permuta de
conteúdos, temos o prazer de publicar uma entrevista do
homem-dos-7-instrumentos da Nona Arte no Maranhão, Joacy Jamys, que além de
quadrinhista, organizador de eventos e divulgador dos fatos dos quadrinhos
nacionais, agora nos brinda com uma entrevista com o cartunista
argentino-brasileiro Morettini. Confira.
Sergio Raul Morettini
(ou simplesmente Morettini, e às vezes Mazzei)
Cartunista brasileiro
nascido em Buenos Aires, Argentina, em 1961. Tendo vindo para o Brasil em 1984,
começou a trabalhar em animação e quadrinhos (cuja experiência já vinha da
Argentina, onde participou de animações e de publicações de seus cartuns), e
prestou serviços para praticamente os maiores estúdios brasileiros.
Ilustrador, animador,
intercalador, cleaner, planejador de animação, roteirista, caricaturista e
chargista, Morettini tornou-se eclético, podendo desenhar em qualquer estilo
(prática adquirida em desenho animado). Fez quadrinhos para 'Chaves', 'Xuxa' e
'Turma do Arrepio' (Editora Globo), 'Zé Carioca' e 'Senninha' (Editora Abril),
produziu tiras para 'O Amigo da Onça' (de Péricles, com roteiro de Jal) para o
DCI e revista 'Bolas'. Trabalhou em animação nos estúdios Sketch, HGN Produções
e Ely Barbosa, entre outros.
Mas foi com o
brasileiríssimo 'Mico Legal', personagem central de uma revista em quadrinhos de
sua autoria, em quatro edições (havia mais por publicar!), editada pelo selo
Graphic Talents, da Editora Escala, que Morettini ganhou em 2001 o seu Troféu
HQMix de Melhor Lançamento de Revista Infantil. Além desses trabalhos, Morettini
ministra aulas na SBE sobre temas esotéricos, e é jurado há seis anos do Mapa
Cultural Paulista, pela Secretaria de Estado da Cultura. Atualmente, o
cartunista desenha e arte-finaliza 'Menino Maluquinho', de Ziraldo, para a
Editora Globo. No sábado, dia 12 de novembro, Morettini e o colorista Alexandre
Silva ministraram palestra no evento EBA!.
Agradecimentos
especiais a Ruy Jobim Neto. Visite seu
site!
Joacy Jamys – Conte um pouco de sua
trajetória para chegar ao Brasil.
Sempre desenhei, e a
influência da minha mãe, que era pintora, foi notoriamente o que me direcionou
para essa área. Depois de completar o ensino médio, comecei a publicar cartuns e
charges em revistas locais em Buenos Aires, e em outros estados da Argentina.
Posteriormente, realizei um curso de animação, e participei em vários filmes
como Escola Panamericana de Arte e Raid Inseticida. Querendo me estabilizar,
procurei ingressar na equipe que realizava filmes para Hanna-Barbera, mas a
quota de trabalho foi reduzida, o que motivou (fora as razões pessoais) a minha
vinda para o Brasil. E, com 23 juvenis anos, munido de 180 dólares e um livro
'Aprenda Português em 10 dias', os 180 foram embora e o Português continua com
sotaque. E, apesar de muitos xenófobos de plantão, me considero mais brasileiro
de que muitos que jogam pneus no bueiro, o que batem em outros nos jogos de
futebol,
Você sendo cartunista,
como analisa o mercado editorial para este gênero no Brasil?
Não existe mercado. É
você que faz seu mercado todos os dias, matando dragões, lutando contra
burocratas e amadores que se acham artistas porque manipulam com certa destreza
o (Adobe) Photoshop. E tudo indica que os autores não conseguem superar seus
egos e se unirem, a não ser quando conformam elites, com caros advogados que
cuidam dos seus interesses.
Parece que temos mais
eventos de humor (mais do que quadrinhos), alguns com bons prêmios, mas não há
publicações. Desde a revista 'Bundas' e jornal 'Pasquim20', foi
morrendo.
Sim, está certo. Não
tem espaço para os velhos desenhistas, imagine para os novos. A revista Bundas e
Pasquim (O Pasquim 21) sempre favoreceram os cartunistas cariocas. Da mesma
forma ocorre com o Plim-plim (da Rede Globo), que beneficia os mesmos e arcaicos
colegas, ou faz apologia da sua logomarca, como no último ano. Com respeito aos
salões, tem um monte, alguns com bons prêmios, outros com renome, mas
ultrapassados, onde sua luz desaparece, suas piras se acabam. É uma pena que
tantos bons artistas tenham que ficar na esperança de ganhar salões para poderem
pagar as suas contas. Outro recurso são as escolas de HQ , feitas para uma área
onde simplesmente não tem serviço.
O Ruy Jobim Neto, outro
ótimo artista, mostrou-me seu currículo bem rico, por sinal. Inclusive, falou
que você desenhou 32 páginas em quatro dias. Isto adoece (ha! Ha!)... mas, qual
trabalhou realmente deu bons resultados? Além do financeiro.
Os bons trabalhos são
aqueles vinculados à publicidade, etiquetas de produtos, embalagens revistas
promocionais. O importante é manter a ética, e fazer coisas que coincidam com
sua linha de raciocínio. Realmente os melhores trabalhos, fora a parte
financeira, são aqueles autorais (no meu caso específico, 'Mico Legal'). Com
respeito às 36 paginas e não 32, eu estava um pouco cansado por isso demorei
tanto, pois com 2 dias bastaria, mas ninguém paga pela velocidade e qualidade. O
que interessa para o cliente, a editora , é sobretudo o preço.
05 – Seu personagem
'Mico Legal', ganhou até o prêmio HQMix. A revista parou, certo? Nunca a li
(envie, se der), porém, vi pelo release que o personagem foi bem criado. Tem
como dar continuidade?
Sim, tenho como dar
continuidade ao título, se as editoras deixassem de publicar (ou diminuírem) a
publicação de mangás, personagens de Cartoon Network, ou péssimos desenhistas
com mais de 20 títulos nas bancas, monopolizando as mesmas. As editoras não se
reciclam e não oferecem opções para o público, que está totalmente massificado,
ou sequer abrem espaço para os autores nacionais e tampouco apostam no talento
dos próprios, esperando retorno a médio e longo prazo. Para mudar o círculo
vicioso, é imprescindível que a editora pague valores adequados para formar uma
equipe que possa manter o nível do material e dar continuidade ao título. Para
poder, assim, abrir caminho no segmento de merchandising, fazendo com que se
desperte interesse por licenciamento do produto, criando-se assim dividendos
para poder manter o projeto, inclusive noutras áreas.
06 – Você trabalhou com
inúmeros títulos, como Xuxa, Seninha, Trapalhões e tantos outros. Contudo,
vários títulos pararam de ser publicados. O que é de praxe no Brasil. Quais
fatores você acha que o mercado editorial no Brasil não vai pra
frente?
É uma somatória de
fatores: falta de visão dos editores, especulação dos mesmos em função de
retorno imediato, colonialismo, falta de recursos, leis de incentivo para a
área, monopólios editoriais, panelas, embora títulos que tenham a ver com a
mídia se perpetuam pela vantagem de ter o suporte como Xuxa, Trapalhões e
outros.
07 – Sidney Gusman, em
entrevista à revista 'Top! Top!' (Ed. Marca de Fantasia, 2005), falou que um dos
maiores problemas das editoras de quadrinhos, é que não investem na continuidade
de bons projetos, que não apostam tanto como deveriam. Pode comentar mais,
Morettini?
Em 2001, a editora
Escala lançou a série Graphic Talents, com 17 autores que tinham que atingir um
patamar mínimo de vendas da sua revista (30%), das quais a única a alcançar a
meta proposta foi 'Mico Legal', que continuou por mais três números, onde teria
que manter a vendagem para poder continuar por mais três números (no mínimo),
fato não acontecido pela falta de divulgação. Assim, no anseio de lucros
rápidos, as editoras não se interessam em manter o material nas bancas, pois só
almejam dinheiro, não se importando com o público, autores, e muito menos com a
Cultura.
08 – A internet! Como
tem sido sua relação com este meio de mídia? O que concorda e o que discorda
dela?
A idéia era que a
internet abaixasse os custos do material, evitando fotolitagem, distribuição,
papel , divulgação, mas vemos que por enquanto é uma especulação, o custo de um
PC é elevado, não sendo acessível a todos. Muito mais se sua conexão for de
banda larga e, como as pessoas são extremistas, não existiu um intervalo entre a
passagem do gráfico para o virtual, pois ambas as mídias poderiam coexistir
pacificamente e se complementarem. O mesmo vemos nos desenhos animados, o 2D
convencional, foi substituído pelo 3D ou pelo digital, acabando com a arte
original. Por outro lado, a rede é legal porque agiliza o processo de entrega.
Também é importante frisar que o computador não cria arte, e necessário um
artista com conteúdo por trás dele, o PC e só uma ferramenta para pena dos
tecnocratas de plantão.
09 – E sua experiência
com animação. Ainda faz?
É um mercado péssimo,
não existe espírito de equipe, os egos exacerbados, a megalomania imperante,e a
exploração dos donos de estúdio fazem esse trabalho uma tortura, na qual você
vara noites a fio para realizar o serviço, e tem nego que consegue lei de
incentivo e demora 20 anos para fazer um filme, amortecendo aos gastos com sua
própria infra-estrutura. Apesar de termos canais infantis nacionais na TV a cabo
( INPRODUTIVOS), os filmes feitos no exterior vêm por um preço muito baixo, o
que inviabiliza a produção local.
10 – O que você anda
produzindo agora, que seja autoral?
Cartuns para salões,
trabalhos para clientes, como palestras de data show, onde você pode desenhar no
seu estilo, coisa que não acontece com revistas em série como 'Menino
Maluquinho', 'Sítio do Pica-pau' e outros , onde você não tem liberdade para
criar nada que não se encontre, que não se encaixe dentro do estilo, quanto mais
mexer na filosofia ou querer passar alguma mensagem mas rica, para
aproveitamento do publico.
11 – Porra, você
desenhou 420 tiras d’ O Amigo da Onça roteirizadas pelo Jal? Já saiu alguma
coletânea? Meu pai adorava o Péricles e Ziraldo. Nunca foi de ler quadrinhos,
mas sempre falava deles na revista Cruzeiro, quando morava no Rio. Aí descobri
uma coleção delas e fui descobrindo estes monstros... como foi este
trabalho?
Produzia o material em
2 ou 3 dias, porque os 4 ou cinco jornais pagavam um salário c/u , que tinham
que ser divididos em três (eu , Jal e a viúva do Péricles), e muitas vezes nem
pagavam. O personagem ficou um pouco defasado, a sua sacanagem hoje virou
brincadeira de criança, não sendo atualizado, e assim o mesmo perdeu poder de
fogo, ainda assim fico grato de ter desenhado esse ícone tão brasileiro. Sobre
coletâneas, desconheço se tem alguma publicada com relação às 420 tiras. Os
jornais não enviavam para mim os exemplares. Assim, nem sei como é que elas eram
publicadas, grande falta de respeito para com o artista. Bom, isso comumente
acontece com 99% das editoras e jornais.
12 – Quais materiais
você utiliza para produzir cartuns, tiras e quadrinhos?
Folha A4, lapiseira
porta grafite, canetas ponta porosa, para logo escanear e colorizar no PC. Caso
necessário, colorizo com ecoline, guache, lápis colorido, aquarela, etc. Uso
também borracha, mesa de luz para 'clinar' (fazer o clean-up, limpar) o desenho
, etc ,etc.
13 – E suas influências
como artista gráfico?
Hanna-Barbera, os
franco-belgas, cartuns europeus, etc.
14 – Conhece os
cartunistas e quadrinhistas do Maranhão? Quais artistas chamam tua atenção aqui
no Nordeste?
Não conheço muito. Tem
o Lailson (do Recife), o Júnior Lopes (que agora mora em São Paulo). Gosto muito
deles, mas o trabalho por falta de veículos fica pouco divulgado, uma verdadeira
pena.
15 – Pô, Morettini.
Muito obrigado pela atenção. Parabéns pela sua obra!
Obrigado a você, Joacy.
Fico à disposição para qualquer dúvida. Grande abraço, e pax para todos.