Amiens:
quadrinhos sacros do século XVI
Uma das mais
importantes construções góticas da França e de todo o mundo, a Catedral de
Amiens começou a ser erguida em 1220 e foi projetada por Robert de
Luzarches para guardar a cabeça de São João Batista e é ainda hoje, a
igreja mais alta do país, sendo indiscutivelmente, um dos maiores patrimônios
arquitetônicos de cunho histórico da Europa. Do alto dessa iniscutível tradição,
a própria direção da catedral fez um convite na semana passada - que deve
ser guardado em conta para que se entenda o que é arte sequencial (como
sintetizado por Will Eisner) - para que as pessoas conhecessem uma série
de 4.700 entalhes de madeira em sua capela-mor realizados no início do
século XVI (de 1508 a 1519), que mostram cenas sacras de inpiração histórica.
'Detalhe': o comunicado apresenta este trabalho
coletivo como sendo uma obra de história em quadrinhos. A comunicação sublinha que os artesãos - todos arregimentados na pópria
Picardia - deram livre vazão à sua imaginação, e se figuraram com seus
utensílios, ao lado do próprio Jesus Cristo. Trata-se de um mais que
oportuno convite para que se re-pense o que seja a forma-quadrinhos de
expor o mundo, com certeza. Uma bela página
eletrônica sobre a história e os neoramas da Catedral de Amiens, hospedada no domínio da Universidade de Columbia,
pode e merece ser conhecida aqui.
Um livro
antológico de quadrinhos
A editora Conrad parece
decidida a oferecer aos brasileiros algumas pérolas em quadrinhos.
Desta vez, com uma obra de um quadrinhista espanhol assumidamente
engajado. Esperamos, nesta resenha, conseguir esboçar por que 'Modotti', de Ángel de la Calle, é um dos melhores presentes que se possa dar a
um intelectual, a um leitor maduro, ou a um amante das artes neste final de
ano, no Brasil.
Não apenas pela
escolha da biografada. 'Boas escolhas' não bastam. 'Modotti' é - em quadrinhos
- tudo o que a minha geração esperava que 'Rosa Luxembourg' de
Margarethe von Trotta fosse no cinema e não foi. Ao tomar 'Modotti' nas mãos, o
desenho quase cartunesco do salmantino Ángel de la Calle causa uma primeira
impressão algo desconfortável. Que rapidamente é desfeita, quase que por
encanto. O prefaciador do livro (e um dos personagens centrais da
HQ-dentro-da-HQ com a qual de la Calle revela como fez a obra, que ele chama -
corretamente - de livro), o grande intelectual Paco Ignacio Taibo II, nos dá a
chave deste aparente repto: a honestidade do autor. Em uma obra de 272 páginas em preto e branco, temos um depoimento incrivelmente honesto sobre alguns dos temas mais
espinhosos do Século XX, a partir de inúmeras tramas abertas a partir da
biografia de Tina Modotti, atriz de Hollywood, uma das melhores fotógrafas de
seu tempo, e militante de inúmeras causas das artes de vanguarda e dos
movimentos comunistas internacionais. De la Calle desenvolve um maravilhoso uso
das possibilidades dos quadrinhos como forma de expressão para atingir um
verdadeiro prodígio: ele mesmo se coloca na trama, assume posições, mostra
(inclusive como personagem) o monumental trabalho de pesquisa que teve para
chegar à obra e consegue o prodígio que só a literatura e os quadrinhos
permitem, nesta proporção: não 'dirigir' o leitor. Para os leitores
mais jovens, o generoso retrato de De la Calle de muitos personagens como
Sandino, o general nicaraguense de homens livres, do muralista mexicano
Diego Rivera, do poeta chileno Pablo Neruda e de tantos outros tem o melhor
efeito que se possa querer: despertar, de uma forma consistente, o interesse
por homens desta envergadura.
O elenco de episódios
levantados por De la Calle, especialmente das muitas traições da turma
de Zhdanov (único personagem que 'faltou' ser abordado no livro), Stalin e
Beria aos sonhadores como Tina Modotti é uma aula à parte. Até onde sei, o
levante dos operários austríacos de 1934 é um fato praticamente desconhecido ou
abordado no Brasil.
Minha única dor é
perceber que apesar de tudo o que fizemos, é quase impossível sonhar que um dia
no Brasil saia uma biografia em quadrinhos desta envergadura de um
personagem que me acompanhou ao longo de toda a leitura deste maravilhoso
presente da Conrad: Mario Pedrosa, o maior intelectual que o Brasil já deu ao
mundo, e que andou pelas mesmas esquinas de Tina Modotti...
Sugerimos apenas que -
em uma reedição - a Conrad faça uma apresentação mais ampliada de Ángel de
la Calle e de Paco Ignacio Taibo II. E que nossos colegas de vários
veículos não deixem de resenhar a obra, com olhos diferentes dos
meus. Quanto mais luz tivermos sobre este luminoso
livro, mais possibilidades teremos de entender e explicar o
quanto os quadrinhos dão conta de ser únicos como arte.

Trino ilustra a
constituição mexicana
Por falar em Tina
Modotti, mais um fato exemplar ilustra o México, um dos principais cenários da
obra de Ángel de la Calle e seu respeito exemplar pela arte
do traço. Um dos mais ativos quadrinhistas mexicanos, José
Trinidad Camacho Orozco, que o país inteiro conhece pela alcunha de Trino, vai
realizar uma versão ilustrada da Carta Magna. Trino tem o bom senso de
avisar - desde já - que entende que em sendo uma obra de e para todos os
mexicanos, boa parte de sua rebeldia como chargista que ele mostrou em obras
como 'Fábulas de Policías y Ladrones' será deixada de lado, em nome de uma
postura de cronista visual, a partir da seleção de textos realizada por um
advogado. Esperamos que a iniciativa seja bem cumprida, e que mais esta lição
mexicana possa ser 'imitada' por governos de vários tamanhos e quadrantes,
inclusive, municípios.
O Gatão de Meia
Idade, no cinema
Texto de Eloyr
Pacheco, nosso editor (e)-chefe do Bigorna, que autorizou a sua reprodução no Quadrantes dos
Quadrinhos
O cartunista carioca
Miguel Paiva que, entre outras atividades, também é diretor de TV e
publicitário, publicou cinco livros do detetive Ed Mort em parceria com Luis
Fernando Veríssimo e criou a Radical Chic em 1982. Dez anos depois surgiu o
Gatão de Meia Idade, que começou sendo publicado no Jornal do Brasil, e depois,
ao lado da Radical, no jornal O Globo.
Gatão de Meia Idade, o
Filme, será dirigido por Antônio Carlos da Fontoura e estrelado por Alexandre
Borges e Julia Lemmertz, que será Beth, ex-mulher do Gatão. No elenco também
estão Cristiana Oliveira, Marisa Orth, Ângela Vieira - esposa de Miguel Paiva -
(como Marisa, amante do Gatão), e Ilka Soares (como dona Alda, mãe do personagem
principal). A distribuidora será a Lumiére Brasil e a produção está por conta da
Ipê Artes.
Gatão de Meia Idade,
que já ultrapassa a marca de 3.500 tiras publicadas, não é a primeira criação de
Miguel Paiva a ganhar um live action: Radical Chic teve um programa na Rede
Globo, em 1993, interpretada por Andréa Beltrão.
O filme Gatão de Meia
Idade está previsto para ser lançado em março de 2006.
HQ autoral e
cosplay no Romics 2005
A 5ª edição do
Romics (Festival Internazionale del Fumetto e dell'Animazione), festival que
aproxima os videojogos dos quadrinhos em Roma, que acontece de 8 a 11 de
dezembro, é uma aula de como colocar lado a lado estas expressões, aproveitando
o inverno que pede eventos fechados. O evento abre com a segunda edição da
chamada 'Università del Fumetto', encontro sobre quadrinhos que tem o
intuito de propor novas iniciativas (aliás, todas as que saíram da
primeira edição tiveram muito boa acolhida), com as presenças de 2 grandes
expoentes dos quadrinhos: Milo Manara e Tanino Liberatore, além de
Leo Ortolani, que terá direito a uma
apresentação da adaptação de seu personagem Rat-man para a
TV projeção de 'Appleseed', baseado na
HQ de Masamune Shirow e debate sobre o fenômeno editorial das W.I.T.C.H. No
final do evento, no domingo, acontece o Cosplay Romics Award, com o apoio do de
profissionais do World Cosplay Summit, o grande evento do setor, no
Japão.