Resenha: La
Table de Vénus
Desde 2004 nós
procuramos noticiar o que o brasileiro José Roosevelt vem realizando como
quadrinhista (e também como pintor) no mundo das bandes
dessinées. Agora, com a chegada a nossas mãos de La Table de Vénus podemos
dizer - nesta que é a primeira resenha em língua portuguesa de uma obra sua -
que valeu muito a pena: os brasileiros podem se orgulhar de mais este
representante no âmbito de um dos mercados mais exigentes do mundo. Com
'La Table de Vénus', cuja última edição se deu em 2004, pela La Boîte à Bulles,
de Paris, Roosevelt nos oferece uma aula do quadrinho como forma-romance, com um
exemplar uso de várias possibilidades da Nona Arte, num álbum de mais de
170 páginas em preto e branco e grande formato. José Roosevelt poderia ter sido
um excelente cineasta, mas, para nossa sorte, ele desenha (e pinta) muito bem, o
que com o tempo e o exercício, resultou num sólido domínio dos enquadramentos,
do uso do branco (fundamental em uma HQ em P&B) e por meio da criação de
personagens que são rapida e duradouramente assimilados pelo leitor. Os
planos usados para mostrar a sociedade pós-moderna na qual ninguém trabalha
e - como está descrito em um quadro síntese - 'a sociedade sempre
soterra o indivíduo são de uma calma eloquência: apesar da riqueza de
detalhes, nada sobra neles. Do ponta de vista do roteiro, 'La Table de Vénus' é
uma maravilhosa composição de personagens e - principalmente - de situações.
Tendo como pano de fundo um mundo em que até o sexo real foi banido e até a
televisão depende da boa vontade e de algumas doses de golpes de poder para
voltar a estar na ordem do dia dos cidadãos, várias tramas se delineiam com
muita clareza (com a exceção de um personagem cuja ação se dá por meio de
um monólogo ao telefone, único senão do álbum ao nosso ver, por acrescentar
muito pouco), e o profundo conhecimento de Roosevelt de temas ligados
à religião, à mitologia e
a astrologia permite criar situações absolutamente verossímeis e que
criam empatia no leitor, especialmente pela forma como ele trata a recomposição
- através de fragmentos escritos - da mensagem e do exemplo de Jesus Cristo
por parte de Juanalberto (meio-homem, meio pato), e sua turma de amigos. Sem
resvalar para o simplismo, Roosevelt consegue criar personagens que
nos acompanharão por muito tempo, em suas situações de amor, sexo virtual, mera
bobeira pós-moderna, encantamento com a leitura (que tinha sido banida da vida
legal) e algumas traições. Especialmente por sua enorme capacidade de nos tirar
do eixo de nossas certezas, com inúmeros detalhes de escritura que - como nos
melhores romances - aparecem aos poucos depois de leituras sucessivas. E de
mais a mais, trata-se de uma excelente obra de quadrinhos, que foi pensada e bem
executada para explorar bem as possibilidades dos quadrinhos, em cada momento,
até a ótima sacada da carta em que o personagem central diz por que escolheu a
forma quadrinhos para 'contar suas estórias'. Não é toa que as
resenhas de lá sempre colocaram a obra do brasileiro como 'inclassificável'.

Mortadelo, o
livro
A Dolmen Editorial (responsável pela
melhor revista ibero-americana de super-heróis, a Dolmen), presenteou a memória
dos quadrinhos no dia 10 com o lançamento do livro 'El Mundo de
Mortadelo y Filemón' (O Mundo de Mortadelo e Salaminho). Em 318 páginas, o
livro de formato quadrado (21x21) custa 18 euros e é assinado pelo
pesquisador Miguel Fernandez Soto. A obra traz uma descrição cronológica
dos 48 anos das estórias mais populares dos quadrinhos espanhóis em todos os
tempos, notas sobre a apropriação das loucuras criadas por Francisco Ibáñez
para o cinema e outros suportes, curiosidades, anedotas e uma série de
ensaios de pesquisadores de outras áreas que não os
quadrinhos.
Alan Moore: a volta das Tomorrow
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