Quadrantes dos Quadrinhos, 14/11/05
5 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
 
 
 
 
Resenha: La Table de Vénus
 
Desde 2004 nós procuramos noticiar o que o brasileiro José Roosevelt vem realizando como quadrinhista (e também como pintor) no mundo das bandes dessinées. Agora, com a chegada a nossas mãos de La Table de Vénus podemos dizer - nesta que é a primeira resenha em língua portuguesa de uma obra sua - que valeu muito a pena: os brasileiros podem se orgulhar de mais este representante no âmbito de um dos mercados mais exigentes do mundo.  Com 'La Table de Vénus', cuja última edição se deu em 2004, pela La Boîte à Bulles, de Paris, Roosevelt nos oferece uma aula do quadrinho como forma-romance, com um exemplar uso de várias possibilidades da Nona Arte, num álbum de mais de 170 páginas em preto e branco e grande formato. José Roosevelt poderia ter sido um excelente cineasta, mas, para nossa sorte, ele desenha (e pinta) muito bem, o que com o tempo e o exercício, resultou num sólido domínio dos enquadramentos, do uso do branco (fundamental em uma HQ em P&B) e por meio da criação de personagens que são rapida e duradouramente assimilados pelo leitor. Os planos usados para mostrar a sociedade pós-moderna na qual ninguém trabalha e - como está descrito em um quadro síntese - 'a sociedade sempre soterra o indivíduo são de uma calma eloquência: apesar da riqueza de detalhes, nada sobra neles. Do ponta de vista do roteiro, 'La Table de Vénus' é uma maravilhosa composição de personagens e - principalmente - de situações. Tendo como pano de fundo um mundo em que até o sexo real foi banido e até a televisão depende da boa vontade e de algumas doses de golpes de poder para voltar a estar na ordem do dia dos cidadãos, várias tramas se delineiam com muita clareza (com a exceção de um personagem cuja ação se dá por meio de um monólogo ao telefone, único senão do álbum ao nosso ver, por acrescentar muito pouco), e o profundo conhecimento de Roosevelt de temas ligados à religião, à mitologia e a astrologia permite criar situações absolutamente verossímeis e que criam empatia no leitor, especialmente pela forma como ele trata a recomposição - através de fragmentos escritos - da mensagem e do exemplo de Jesus Cristo por parte de Juanalberto (meio-homem, meio pato), e sua turma de amigos. Sem resvalar para o simplismo, Roosevelt consegue criar personagens que nos acompanharão por muito tempo, em suas situações de amor, sexo virtual, mera bobeira pós-moderna, encantamento com a leitura (que tinha sido banida da vida legal) e algumas traições. Especialmente por sua enorme capacidade de nos tirar do eixo de nossas certezas, com inúmeros detalhes de escritura que - como nos melhores romances - aparecem aos poucos depois de leituras sucessivas. E de mais a mais, trata-se de uma excelente obra de quadrinhos, que foi pensada e bem executada para explorar bem as possibilidades dos quadrinhos, em cada momento, até a ótima sacada da carta em que o personagem central diz por que escolheu a forma quadrinhos para 'contar suas estórias'. Não é toa que as resenhas de lá sempre colocaram a obra do brasileiro como 'inclassificável'.
 
 
Mortadelo, o livro
 
A Dolmen Editorial (responsável pela melhor revista ibero-americana de super-heróis, a Dolmen), presenteou a memória dos quadrinhos no dia 10 com o lançamento do livro  'El Mundo de Mortadelo y Filemón'  (O Mundo de Mortadelo e Salaminho). Em 318 páginas, o livro de formato quadrado (21x21) custa 18 euros e é assinado pelo pesquisador Miguel Fernandez Soto. A obra traz uma descrição cronológica dos 48 anos das estórias mais populares dos quadrinhos espanhóis em todos os tempos, notas sobre a apropriação das loucuras criadas por Francisco Ibáñez para o cinema e outros suportes, curiosidades, anedotas e uma série de ensaios de pesquisadores de outras áreas que não os quadrinhos.
 
 
Alan Moore: a volta das Tomorrow Stories
 
A America's Best Comics (selo fundado pelo próprio Alan Moore) está colocando nas gibiterias americanas, neste dia 16, o 1º gibi de uma nova série, chamada Tomorrow Stories Special, através da DC / WildStorm, que retoma um dos primeiros títulos da America's Best Comics, a revista Tomorrow Stories, cuja primeira série teve início em 1999. Em 64 páginas coloridas, a revista, que custa 7 dólares, tem roteiros de Alan Moore e Steve Moore e traz no número de estréia, como destaques, uma HQ do menino prodígio de Alan Moore, Jack B. Quick, uma HQ de Greyshirt, dedicada a Will Eisner - que inspirou a criação deste personagem realizado por Alan Moore e por Rick Veitch, uma HQ de Cobweb, a limitada heroína criada por Moore e pela quadrinhista independente Melinda Gebbie, e novas HQs de Splash Brannigan, uma homenagem de Alan Moore ao Plastic Man que também serve como deliciosa sátira aos próprios quadrinhos e uma HQ de Jonni Future, personagem criado por Moore e Art Adams e que originalmente apareceu em Tom Strong.  Na lista de autores do segundo gibi (programado para sir em 28/12), temos a presença do ótimo Eric Shanower e Gene Ha, que já realizou a capa. Vamos aguardar as resenhas para saber em que doses Moore combinou os seus muitos talentos com este time de artistas.
 
 
 
 
'Mangá espanhol': Carla Berrocal
 
Este texto foi escrito com 2 objetivos: para ilustrar a apresentação da peça de Carla Berrocal que estará na Mostra Trinacional de Quadrinhose para atender a uma solicitação de uma revista especializada do Brasil, que nos pediu um artigo sobre mangás (que esperamos ver publicado em breve).
 
A jovem madrilenha Carla Berrocal (nascida em 1983) é apontada como uma das melhores autoras que deram cores locais ao mangá na Espanha, apesar de sua obra ter sido publicada nos Estados Unidos, Holanda e Grã-Bretanha antes que na própria Espanha. O álbum 'Hire: el Terrible Vampiro Samurai', publicado em 2004, com a contribuição do roteirista  inglês Daniel Hartwell pela editora especialista Recerca é considerado o principal ponto dessa carreira, que acabou conferindo à quadrinhista uma notoriedade quase instantânea em seu país, o que acabou desatando alguma pontadas de inveja, para as quais ela deu, recentemente uma bela resposta ao escrever um artigo em defesa do associativismo dos artistas em torno da Asociación de Autores de Cómic de España. Voltando a 'Hire', que é constituído de capítulos que simulam hai-kais, a singular mistura de vampiros e samurais impressionou duplamente pelo fato de ser desenhado por uma mulher que, além de tudo, revelou uma incrível firmeza nos traços. Pela editora de quadrinhos adultos La Cúpula, Carla Berrocal também lançou a novela gráfica 'Miss 130: Cuidados Intensivos', em 2005.
  
 
As novidades de Angoulême
 
Faltando 2 meses para o maior festival de quadrinhos da Europa, os preparativos e as notícias sobre a 33ª edição do festival de Angoulême se multiplicam: as mais importantes desta semana são a publicação do mapa oficial com as mudanças que o festival terá na distribuição de seu espaço físico - especialmente no que diz respeito aos grandes editores de quadrinhos - a publicação do cartaz oficial, assinado pelo presidente desta edição, George Wolinski, que se mostra muitíssimo à vontade ao se autocaricaturar sendo desenhado por uma nada infantil gata na frente de seus colegas como Cabu, Pétillon, Cestac, Enki Bilal, Fred e Margerin, além de assinalar uma homenagem à Chralie Hebdo. Convenhamos, muito mais autoral que o espetaculoso cartaz da edição anterior. Por fim, Thierry Groensteen e a sua editora L'An 2 anunciaram o conteúdo do exemplar que marca a volta da revista 9e Art (o 12º), depois da interrupção por 1 ano. Em 280 páginas (com direito a 16 em cores) a revista vai trazer - pelo preço de 19,50 euros, um dossier sobre Wolinski, uma matéria especial pelos 30 anos da mítica revista de vanguarda Métal Hurlant e o selo que ela originou, a Humanoïdes Associés e entrevistas com escritores que se tornaram roteiristas de quadrinhos, e muito mais.  
ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos