Quadrantes dos Quadrinhos, 7/11/05
5 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
 
 
A volta de Gasparzinho
 
Gasparzinho, Lelo, Luísa... quem não conhece os gibis do fantasma camarada e de sua turma? Apesar da enorme popularidade dos personagens, o mercado editorial americano e mundial tem dado pouco espaço para as revistas de Gasparzinho. Assim, só uma iniciativa de um dos ex-editores de 'Casper' para fazer os quadrinhos voltarem às mãos de leitores mais jovens. Sid Jacobsen escolheu e publicou várias estórias para ser lançadas agora, coincidindo com o Halloween, nos Estados Unidos. O encadernado tem 176 páginas com HQs de todos os personagens, e ganhou o título de Casper Comics Collection (com um subtítulo com boas tintas marketeiras: The Ultimate) . Esperamos que - apesar da pouca importância que foi atribuída ao esforço de Jacobsen -  o volume que tem o preço de 15 dólares tenha bastante compradores. Quem sabe, novas revistas dos fantasminhas surjam....
 
 
A Tebeosfera, em livro
 
Por mais uma dica do blog de Alvaro Pons, La Carcel de Papel (que - sempre vale ressltar - é o ponto do qual surgiu a maior central de blogs de quadrinhos do mundo o Tebelogs), chegamos à informação de que a editora basca especialista Astiberri está colocando em papel um pouco do acervo da maior revista virtual sobre quadrinhos do mundo em língua espanhola, a Tebeosfera. (que - infelizmente - não tem uma nova edição desde fevereiro, mas continua divulgando muitos dos eventos e fatos relevantes da Nona Arte através do blog Tebeosblog). Fomos conferir a sinopse do livro (infelizmente, por demais sinóptica), que nos revela que 3 países tem direito a enfoques especiais e mesmo textos inéditos no livro de 304 páginas e preço anunciado de 15 euros: Espanha, Estados Unidos e Argentina. Com o cuidado da Tebeosfera e do editor Manuel Barrero, a bibliografia dos quadrinhos está ganhando mais uma fonte séria de reefrência, com artigos sobre Mafalda, a EC Comics, Héctor G. Oesterheld, os últimos 10 anos das HQs na Argentina, The Spirit, e uma entrevista com Carlos Trillo.
 
 
Jeffrey Brown se multiplica
 
Um dos autores da cena independente americana mais respeitados de sua geração, Jeffrey Brown tem direito a ser inspiração direta de um novo álbum lançado nos EUA: 'Will You Still Love Me ...' , da nova autora Liz Prince, publicado pela Top Shelf em setembro e que vem revelando mais uma seguidora de seu estilo de contar o mundo moderno, com muito êxito, pelo menos, de crítica. De sua própria carreira, Brown tem mais 3 novos álbuns, sendo que 2 deles, na França. Em parceria com outro expoente indie dos EUA, James Kochalka, acaba de sair (também pela Top Shelf) 'Conversation 2', em que ambos dividem ao meio um álbum de humor muito paricular, onde ambos acabam usando a metalinguagem ao extremo. Já as autoralíssimas 6 Pieds sous Terre e Ego Comme X, estão colocando no mercado mais exigente de quadrinhos do mundo, o francês, 2 obras suas. Pela ordem, Big Head - sua sátira aos superheróis, que saiu em setembro, e Clumsy, sua obra de entrada na história da HQ, que versa com originalidade sobre o amor a distânica, que sairá em janeiro.  
 
 
Tributo a Kimba
 
Kimba, o Leão Branco, a versão ocidental de Jungulu Taitei Leo, de Osamu Tezuka, terminou de ser produzido, em Nova York em 10 de novembro de 1965. Em meio a tantas datas históricas desperdiçadas, a ASIFA (importante entidade que reúne apreciadores de animação) dá um exemplo de carinho pela trajetória de Tezuka e realiza, em Hollywood , onde é sediada, um tributo aos 40 anos de Kimba, com a presença de vários profissionais que participaram da realização do filme, que estarão autografando alguns materiais relativos a Kimba. Os ingressos para a festa custam 8 dólares, e a renda será revertida em apoio a um dos mais belos projetos da ASIFA, o Animation Archive Project, que pretende colocar online um acervo gratuito da animação, incluindo videoclipes, arquivos sonoros e imagens. 
 
 
Zograf em português
 
Parece que o sérbio Aleksandar Zograf soubre reunir ao seu conteúdo mais que singular ao descrever as vicissitudes do povo sérbio e do mundo 'moderno' a doses de simpatia pessoal. Não por acso, ele está 'pongando' na logomarca do novo número do BD Jornal, e concedeu a sua primeira entrevista em português ao blog especialista em quadrinhos e desenho Beco das Imagens, durante o 16º Festival da Amadora. O Neorama dos Quadrinhos agradece a concessão dos responsáveis pela entrevista para que a republquemos para nossos leitores. Antes de passar à transcrição, indicamos algumas páginas em português de quadrinhos de Zograf, que localizamos no portal brasileiro Candyland.
 
FIBDA 05 - ENTREVISTA COM ALEKSANDAR ZOGRAF
 
No primeiro Sábado do FIBDA, o Beco das Imagens conversou com Aleksandar Zograf sobre bd e sonhos, mas principalmente sobre Regards From Serbia. As histórias foram sendo enviadas para amigos, quase todos autores de bd, e acabaram por percorrer enormes correntes via internet, chegando mesmo a ser publicadas em diferentes locais durante a guerra nos Balcãs. Enquanto isso, Zograf não tinha noção do alcance que as suas histórias estavam a ter e continuava a enviá-las, como cartas, para os amigos. No jornal Il Manifesto, por exemplo, as histórias sem imagem (uma espécie de diário que acompanhou a elaboração da banda desenhada) e as pranchas de Regards From Serbia já estavam a ser publicadas diariamente e Pancevo, localidade sem importância estratégica ou alvos militares, percorria jornais e revistas de todo o mundo enquanto era destruída pelas 'bombas inteligentes' da NATO. De entre as coisas partilháveis, sobraram as histórias e os sonhos a que Zograf dedica toda a atenção possível e uma parte importante do seu trabalho, integrado nos Dream Comics, um movimento sem muitas regras, mas com participantes de muitos sítios. 
 
Em Portugal conhecemos muito pouco do que se faz nos Balcãs em termos de banda desenhada. Podíamos começar por aí...
 
A produção de bd na ex-Jugoslávia começou no século XIX, com o que podemos chamar de proto-bd, e em meados da década de trinta do século XX houve uma grande 'explosão' quando o diário Politika começou a publicar banda desenhada. Primeiro publicou pranchas directamente importadas dos Estados Unidos da América e depois começou a incluir trabalhos de artistas jugoslavos, alargando o meio e permitindo que os artistas criassem espaços para publicarem as suas histórias em várias outras revistas e jornais. Quando o meio já estava estabelecido, com a banda desenhada a ser considerada um meio artístico relevante, a segunda guerra mundial veio devastar tudo. Muitos autores começaram a publicar no estrangeiro e outros dividiram-se entre ocupantes e resistentes, usando a banda desenhada ao serviço das suas ideias. Ou seja, toda a 'cena' que se desenvolve de modo grandioso na década de trinta, desapareceu na década de quarenta. Depois da guerra, as coisas começaram a voltar ao normal, ainda que lentamente e com o problema de as novas gerações não terem contacto com eventuais pontos de referência. Era como se houvesse um hiato entre a anterior geração e a nova. E depois havia todos os problemas inerentes à passagem de uma guerra...
Ainda assim, não deixa de ser maravilhoso descobrir que uma parte do mundo com tantos conflitos foi conseguindo sobreviver sem nunca deixar de criar e mantendo sempre a banda desenhada como uma linguagem artística activa e com vários autores.
 
E o Zograf, quando (e porquê) começou a fazer bd?
 
Desde que me lembro... Para mim sempre foi uma espécie de obsessão e de processo natural. Comecei a publicar em meados da década de oitenta, em várias revistas da então Jugoslávia, e quando a guerra começou, comecei a publicar no estrangeiro, primeiro nos EUA, depois também na Europa.
 
Nós descobrimos o seu trabalho há dois anos, no Salão Lisboa, com as pranchas de Regards From Serbia (feitas enquanto uma guerra acontecia para lá da janela da sua casa, em Pancevo). Como é que se consegue criar alguma coisa, neste caso histórias em banda desenhada, quando há uma guerra a acontecer mesmo ali?
 
Mesmo para mim, parece um sonho. É difícil explicar... De repente, encontras-te numa situação muito estranha, muito diferente da normalidade, em que não sabes dizer o que vai acontecer a seguir. Mas de repente tu próprio começas a reagir de forma normal, quotidiana, porque não sabes de que outro modo podes reagir.
Quando estava em casa podia ver os bombardeamentos em todas as direcções, porque Pancevo é num a zona plana, e a sensação que tinha era a de estar a assistir ao bombardeamento constante de um pais inteiro. E era tudo tão estranho que eu não sabia o que podia fazer, até começar a perceber que estava a comportar-me como se tudo aquilo fosse o cenário habitual da minha vida, como se tivesse nascido com as bombas a acontecerem todos os dias e todas as noites.
 
Como se a guerra fosse normal...
Sim, como se fizesse parte do dia a dia. Hoje, quando falo com algumas pessoas que passaram pela mesma situação, há quem me diga que não tem a certeza se tudo aquilo aconteceu mesmo, como um sonho... Primeiro, quando tudo começa, tu pensas que é o fim e não sabes o que hás-de fazer; mas depois, quando as coisas começam a acontecer todos os dias, começas a querer agir, a querer fazer alguma coisa que saibas e possas fazer num panorama em que não podes agir do modo habitual (as escolas fecham, as fábricas param...). E como a única coisa que eu sabia fazer era escrever e desenhar, foi o que fiz.
 
Como uma forma de não perder a esperança nem a comunicação com o resto do mundo?
Sim, isso mesmo. E foi também a maneira de encontrar um objectivo diário, um modo de sobreviver num contexto em que ninguém podia prever como acabariam os bombardeamentos, ou quando. Pancevo foi bombardeada todos os dias durante dois meses e meio, sem qualquer espécie de critério nos alvos, e isso criou uma instabilidade brutal... Não saber onde pode cair a próxima bomba é uma sensação que acaba por nos manter num estado difícil de descrever, uma espécie de estado mental alterado. E fazer alguma coisa criativa foi como uma espécie de cura, de objectivo de vida, mas também de intervenção no mundo.
 
Então podemos considerar Regards From Serbia como uma espécie de manifesto, um modo de assumir uma posição perante o conflito político e militar que se vivia?
Sim, sem dúvida. E foi um processo complexo também a esse nível. Eu fazia parte de um enorme grupo de pessoas que estavam contra Milosevic, mas também contra os bombardeamentos. E ninguém pode realmente concordar com o facto de se bombardearem pessoas! O problema é que quando dizíamos alguma coisa contra as bombas, algumas pessoas interpretavam-no como sendo a favor de Milosevic, e isso era mentira, e deixava-me muitas vezes sem saber o que dizer às pessoas, ou como dizê-lo de maneira a que percebessem a minha opinião. Por isso, Regards From Serbia foi também uma boa maneira de esclarecer a minha posição sobre a guerra e sobre Milosevic.
 
 
 
Falemos de sonhos. Como começou o projecto da Dream Comics?
Bom, começou um pouco como as bombas, sem aviso prévio (risos). Nos anos oitenta eu tive um sonho com uma banda desenhada que, quando acordei, conseguia visualizar e reproduzir tal como estava no sonho. E foi a partir dessa altura que comecei a reflectir sobre a melhor maneira de transformar 'material onírico' em banda desenhada. Depois, nos anos noventa, quando comecei a publicar no estrangeiro, fui ouvindo falar de alguns autores que faziam o mesmo nos seus próprios países, sem que o tivesse combinado previamente. Era como uma rede de pessoas que não sabiam que pertenciam a essa rede... E então começámos a trocar correspondência, ideias, métodos de trabalho. Mas tudo começou de modo acidental, sem organização prévia. E é preciso lembrar que a ideia não foi original; já Winsor McCay desenhava e escrevia a partir do mundo dos sonhos...
 
Quando se dedica aos Dream Comics, desenha e escreve exactamente aquilo que sonhou ou usa ideias e imagens do sonho como ponto de partida para outra coisa?
Normalmente, tento representar exactamente aquilo que vi e experienciei no sonho. E por isso as histórias são, quase sempre, autobiográficas. Para alem disso, tenho feito algumas experiências a partir do chamado estado de semi-sono, uma espécie de estado hipnagógico em que aquilo que vemos são essencialmente flashes com imagens diversas. O que eu tento fazer é acordar e transpor tudo para um bloco de notas que tenho junto à almofada, de maneira a não me esquecer de nada. Isto requer alguma prática, até começar a funcionar, mas depois é muito compensador.
 
Acha que o sonho pode ajudar a mudar o mundo, ou alguma coisa no mundo?
Sim, estou absolutamente convencido disso! Os sonhos fazem parte da natureza humana e quando as pessoas estão próximas dessa natureza, não precisam de destruir ou de fazer a guerra. Os sonhos são pedras basilares da nossa existência e do nosso sistema biológico. Um dos problemas da nossa civilização ocidental é o facto de se ter afastado disso, apelando para a razão acima de todas as coisas e usando-a como ponto de partida único para o desenvolvimento (tecnológico, principalmente). Isso faz com que certas áreas da natureza humana sejam frustradas e com que vários medos se espalhem. Se conhecermos os nossos sonhos, podemos conhecer melhor aquilo de que somos feitos e aprender a lidar com as coisas que desconhecemos e que tememos.
 
Sonhar mais e fazer menos guerras...
Isso!
 
(Entrevista partilhada com o Canal de Livros)
 
 
ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos