Quadrantes dos Quadrinhos,
1º e 2/11/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material
publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
As pérolas
eslavas de Brno
No Quadrantes dos Quadrinhos de 15/09,
nós falávamos com alegria da produção de Aargh! a revista editada por Tomáš
Prokůpek em Brno, na República Tcheca. Pois bem. Um exemplar da Aargh! número 5
nos chegou às mãos. De tudo o que
tivemos oportunidade de ver, em termos proporcionais ao que se
poderia esperar, trata-se da maior e melhor surpresa de 2005. Nas suas
112 páginas e grande formato, em papel couché, a Aargh é um verdadeiro
desfile de excelentes desenhos, com um tratamento gráfico impecável. Para
nossa sorte - e dos leitores - temos um pequeno guia online
para que todos tenham uma pquena amostra da
Aargh! 5. Poder ter tido chance de falar sobre esta bela revista
de quadrinhos autorais para adultos (embora não haja nada nela que não se possa
indicar para um adolescente), que maravilha mesmo quem não tenha nenhum ou
pouco contato com o idioma foi, sem dúvida, uma das melhores alegrias que
tivemos ao extender nossa pesquisa além dos limites das pautas normalmente
abordadas por veículos de quadrinhos. À originalidade e variedade dos traços -
em especial - do ucraniano Igor Baranko, do sérbio Aleksa Gajić e do esloveno
Tomaž Lavrić (que ilustra esta nota), somam-se as surpresas
tchecas: o próprio Tomáš Prokůpek como roteirista de HQ curta e o
lirismo de Pavel Čech como roteirista/desenhador. Aargh ! é de animar
qualquer um que goste de ver as inúmeras possibilidades dos quadrinhos não só
como veículo de criação, mas como expressão artística.
Quem não conhece as HQs que os eslavos fazem não
tem a mínima idéia do que está perdendo.

Joe Quesada no
The Palm
O quadrinhista e
principal executivo da Marvel, Joe Quesada, está realizando, neste dia 1º
de novembro, um painel pintado com desenhos de Homem-Aranha, Wolverine,
Hulk, Capitão América e Quarteto Fantástico, em um dos mais tradicionais restaurantes de Nova York, o
The Palm, que ao longo de seus 80 anos, já recebeu em suas paredes as artes de
inúmeros mestres da arte do desenho. Aliás, o restaurante iniciou uma tradição
muito interessante, logo no início, quando foi fundado por 2 imigrantes
italianos: como eles não tinham dinheiro para pagar a decoração do
restaurante, aceitavam caricaturas de artistas que também andavam duros. A
tradição acabou se mantendo, e antes de Quesada, as paredes do The Palm foram
desenhadas por artistas como Mort Walker, Matt
Groening, Dr. Seuss, Carmine Infantino, Chris Brown e Milton
Caniff. As caricaturas acabaram se tornando uma referência do restaurante, uma
verdadeira forma de promoção, idéia que depois foi copiada por inúmeros Muitos
dos desenhos originais já nem estão no The Palm, e sim, em uma filial desta
tradição nova-iorquina.

A quase volta
do Salão do Porto
O Salão
Internacional de Banda Desenhada do Porto (SIBDP) deixou de acontecer a 4 anos.
Uma 12ª edição, virtual, é anunciada para comemorar os 20 anos de sua 1º edição,
o que se completa com a publicação de um livro sobre a
história do salão e sobre os últimos 20 anos da Nona Arte em Portugal. De 5 a 26
de Novembro, a edição virtual do salão, no endereço eletrônico www.sibdp.com terá artes, entre outros, de José
Carlos Fernandes, Miguelanxo Prado, Schuiten e Peeters, Don Rosa, Baru,
Berberian, Étienne Davodeau, Lewis Trondhein, James Kochalka, que se fizeram
presentes nas edições presenciais do certame. O cartaz da edição virtual,
cuja arte ilustra esta nota, é de autoria de Rui
Duarte.
A volta de
Kirikou
No dia 7 de dezembro,
deve estrear - na França - o novo filme de Michel Ocelot, o realizadoror
de Kirikou (Kiriku
e a Feiticeira) e de Príncipes e
Princesas, entre outros. Em Kirikou (de 1998), Ocelot já subverteu, com
ampla aceitação de crianças, pais e educadores, a forma do cinema de animação
mostra a África, sem perder a poesia, mas na dimensão das miserabilidades às
quais o continente foi empurrado, e sem 'retoques' para fazer a África mais
parecida com a visão eurocentrista de mundo. Entre seus colegas, Ocelot foi
eleito duas vezes para presidir a associação internacional dos produtores
do setor, a ASIFA. O novo filme se chama 'Kirikou et les Bêtes Sauvages' (Kiriku
e as Feras Selvagens). Uma primeira apresentação de um dos episódios
durante o Festival de Cannes deste nao já foi aplaudida por quem mais interessa:
as crianças. O site oficial do
filme já mostra a sinopse animada, a música, alguns ambientes, traz papéis de
parede e uma confirmação das mais animadoras (com o perdão do trocadilho):
quem assina a direção do filme, ao lado de Ocelot, é Bénédicte Galup, uma
das responsáveis maiores, como diretora de edição, de outra das pérolas da
moderna animação francesa: 'Les Triplettes de Belleville'. TCom certeza,
deve ser uma dos melhores filmes de animação a correr o planeta com bela arte e
bons toques, em 2006. Todos os
ganhos dos produtos derivados do filme serão divididos com o UNICEF.

O Havaí da
Fantagraphics
Nota adaptada de nosso colega Artur Billy Batson, do HQ Maniacs
O mercado de
quadrinhos sempre reserva boas surpresas. Uma delas é ver que selos tão pequenos
como a Fantagraphics, esgotam revistas, lançadas com altíssima qualidade. Night
Fisher é o caso mais recente. Nem lançada, a revista foi tão bem-resenhada pelos
críticos que teve que voltar à sala de impressão para aumentar a tiragem, pois
já se previa o fim dos estoques da editora. R. Kikuo Johnson, criador da
graphic novel, não poderia estar mais feliz. Ele anuncia que viajará ao
Havaí, onde nasceu, para realizar dois eventos, seguidos de mais dois em Nova
York.
Complementando as
informações de Artur, Night Fisher, que está chegando às lojas americanas
hoje, se passa no Havaí, e marca a estréia de Johnson, que está sendo
elogiado, especialmente, pelo modo como consegue mostrar as relações entre um
filho e um pai que deixam de morar em Boston e se instalam na ilha
de Maui. O filho, Loren Foster, é o principal personagem da trama, que
revela, com originalidade, os torvelinhos do antigo paraíso em sua
'modernidade' . Confira a arte de R. Kikuo Johnson em sua página eletrônica oficial. O
álbum tem 144 páginas e preço médio de 13 dólares.
Muito mais notícias no
Neorama
A implantação do
nosso
blog para releases tem permitido atualizações mais constantes de notícias, além das 4 edições
semanais do Neorama dos Quadrinhos e do Neorama da Cultura, principalmente de
concursos e exposições. O blog tem dado chance para divulgarmos
notícias de produtores que não tem sites e de destacar notas que às vezes estão
'escondidas' em portais oficiais e que nos chegam por e-mail. O novo
arquivo tem permitido aproximar as iniciativas de alguns governos e
universidades, e tornar mais próxima a relação com o Neorama da
Cultura. Sozinho, o nosso blog tem dado saída a um volume de notícias mais
do que respeitável, se considerarmos o horizonte atual dos noticiários
produzidos online. Claro, entre release e notícia, há uma diferença técnica
e de fundo, mas temos, inclusive, em alguns casos, melhorado muitos dos que nos
chegam. Entre alguns destaques que já publicamos,
somente em português, sublinhamos: EBA! 2º Festival de Artes e Quadrinhos, em
São Paulo, Mostra Henfil do Brasil , em São Paulo, Ziraldo lança o concurso de
desenhos 'O Menino Astronauta', uma notícia que muito no alegrou: Salvador,
amiga (também oficial) do grafiti, álbum de figurinhas de W.I.T.C.H., o
argentino Carlos Nine em Porto Alegre, Wallace & Gromit: o livro, pela Asa;
o Natal de lançamentos da VitaminaBD (de Portugal), novo livro sobre HQs e
outras imagens, da UFPE, mostra de Bordallo Pinheiro no Festival de Teatro da
Maia (em Portugal) e a Bat-loja da Batbase. Uma
outra ferramenta, que nos foi indicada pelo Andrews o batalhador que
dirige o
Tiras Nacionais (que
está aceitando, agora, também, cartuns e charges) - está nos permitindo,
também, gerar mais imagens para ilustrar o nosso trabalho.
Mangás na
Itália: hora de Flash Book
O mercado
italiano de mangás inicia o mês com uma mudança no panorama: a Flash
Book tem uma notícia de muito peso a contar: um acordo comercial com a gigante
americana Tokyopop. Através dele, a versão mangá de Courtney Love (de
poucas qualidades artísticas e muitas vendas, mas que nós noticiamos em primeira
mão), Princess Ai, passa a ser publicada na
Itália, este mês. Warcraft, série que tem dado mais dinheiro
como game do que como HQ, também passa a ser distribuída em
italiano. O mangá mais interessante desta primeira safra é o shoujo Rozen
Maiden, de autoria de de Peach-Pit (que acaba de chegar ao animê, no Japão). A
HQ tem como protagonistas Sakurada Jun e a boneca Shinku, numa trama nem tão
infantil, que inclui algumas doses de ocultismo, autoexclusão social e crises de
personalidade. A publicação do volume de estórias curtas 'Orange Kiss',
shoujo de Usami Maki, também foi anunciada pela editora, ainda em
outubro. Usami Maki, apesar de ainda não ter títulos em português, já teve
HQs exportadas para Indonésia e Tailândia. Vale sublinhar que a editora também
já publica 2 dos manhwas mais emblemáticos de circulação internacional: Chonchu
- um campeão de vendas - e o autoralíssimo Tarot Cafe.

Ilustração de Rodolphe
Töppfer
História da HQ
suíça
O cartunista
português Sergei tem sido uma das melhores pontes de divulgação do que temos
produzido, e também de artistas do traço brasileiros no mundo virtual da Nona
Arte portuguesa. Esta semana, por sinal, Celestinho & Pestinha, do nosso
amigo e colaborador Fadão, estão de
visita ao site de Sergei. Entre as novas atualizações de seu portal,
Sergei trouxe uma texto de Urs Hangartner, da fundação suíça para a cultura Pro
Helvetia, que foi publicado aqui, que reproduzimos aqui, acrescidos de alguns
comentários nossos e com um anúncio brasileiro para o próximo Quadrantes dos
Quadrinhos.
Pequena história da banda
desenhada suíça
O genebrino Rodolphe Töppfer
(1799-1846) foi o inventor prático e teórico da banda desenhada. Ele era
professor e director de um internato em Genebra, e escrevia e desenhava nos seus
tempos livres. Sob a influência de caricaturistas políticos franceses e
ingleses, Töpffer desenhou em 1827 a sua primeira história intitulada 'Histoire
de Monsieur Vieux Bois'. Em 1833 apareceu 'Monsieur Jabot', o primeiro de um
total de sete álbuns impressos. Töpffer foi o primeiro a apresentar nas suas
'histórias em imagens' ('histoires en estampes') humorísticas e fantásticas
aquilo que viria mais tarde a caracterizar a banda desenhada: a ligação entre
imagem e texto de forma a constituírem um todo narrativo. Töpffer pode ser
considerado como o 'fundador' da banda desenhada. Em 1845 ele formulou no seu
'Essai de Physiognomie' ('Ensaio de Fisionomia') as linhas gerais da narração em
imagens e textos, lançando assim as bases teóricas do novo meio expressivo.
Töppfer escreve no seu 'Essai': 'Pode-se escrever histórias com capítulos,
linhas, palavras: isso é literatura propriamente dita. Pode-se escrever
histórias com sequências de cenas representadas graficamente: isso é literatura
em imagens.'
Figuras publicitárias
como sucessos de banda desenhada
Só quase um século mais
tarde aparece, com Globi, uma primeira contribuição original suíça na área da
banda desenhada. Globi foi criado em 1932 como figura publicitária pelo 25º
aniversário dos armazéns Globus. Um ano mais tarde surge a sua primeira história
em imagens. Ele torna-se rapidamente num fenómeno de sucesso com imensa
popularidade, sobretudo entre as crianças. 'Globi' foi concebido pelo
publicitário-chefe de Globus, J. K. Schiele (1902-1988). Robert Lips (1912-1975)
desenhou o homem-pássaro até 1966. Desde 1935 que todos os anos sai um novo
livro do 'Globi'. A partir de 1938, as suas histórias sem palavras passam a ser
acompanhadas de versos rimados. Em 1948 atinge o primeiro milhão de livros
vendidos. Globi foi-se transformado continuamente ao longo de todos estes anos.
Pode-se, no fundo, fazer uma leitura da história de mentalidades da Suíça
através da sua banda desenhada com maior longevidade.
Em 1948 a casa
editora Ringier cria 'Ringgi und Zofi'. As suas primeiras aventuras foram
desenhadas por Hugo Laubi (1888-1959) para os textos em verso de Fridolin
Tschudi (1912-1966). Também esta banda desenhada infantil parte, como uma série
de outras, de uma ideia publicitária, mas nenhuma chegou a ser tão duradoura
como Globi. A partir de uma ideia da Fundação para a Juventude (Pro Junventute)
aparece em 1955 'Papa Moll'. Esta banda desenhada sem balões deveria ter um
'valor pedagógico', exaltar valores de família e transmitir 'uma perspectiva
positiva da vida'. Edith Oppenheim-Jonas (1907-2001) desenha as vivências
tragicómicas e as situações slapstick de Papa Moll e da sua família suíça
típica. Depois da sua morte, uma nova geração de autores de banda desenhada
continua as histórias de 'Papa Moll'.
Cenários
realistas
Depois dos anos 1930
(com o aparecimento de Globi) e durante mais de duas décadas, a Suíça
praticamente não conhece uma produção de banda desenhada própria. Só nos anos
1960 surgem, na área de influência do mercado franco-belga, criadores de banda
desenhada da Suíça (francesa). Destes, o suíço francês Derib (Claude de
Ribaupierre, *1944) foi o primeiro a alcançar sucesso internacional. Formado nos
estúdios belgas de Peyo ('Os Estrunfes'), Derib veio a descobrir um traço
próprio, realista e preciso. A sua obra coloca o 'far West' no seu centro e anda
à volta dos temas 'natureza – paisagens – pessoas'. Para os leitores jovens, ele
cria no início dos anos 1970, juntamente com o argumentista Job (André Jobin,
*1927), a série centrada no pequeno índio Yakari. Ele desenha ainda de forma
bastante realista o mundo do armador Buddy Longway, que toma na série homónima a
forma de uma saga de família. O sinal de marca de Derib são as páginas
extremamente dinâmicas, nas quais ele engenhosamente faz, através de uma técnica
de montagem 'cinematográfica', a ligação entre as cenas desenhadas.
O aluno de Derib, Cosey
(Bernard Cosendai, *1950) segue o seu mestre estilisticamente no tratamento da
página como um todo, mas encontra um meio de expressão pessoal. Na sua série
'Jonathan' (a partir de 1975), a viagem, certamente autobiográfica, leva a
longínquos países asiáticos. Também Stéphane, personagem suíça de uma série de
Daniel Ceppi (*1951), viaja em direcção a leste. Ceppi investigou pessoalmente,
tal como já fizera Cosey, os cenários das suas histórias de banda desenhada, e
também ele se baseia bastante em documentação. Os diferentes locais de acção de
'Stéphane' (a partir de 1978) dão ao autor e desenhador a oportunidade de,
ligando banda desenhada e jornalismo, fazer referências sociais e políticas
actuais. Motivos mágicos e cenários exóticos são as marcas características da
primeira fase da banda desenhada de Ab'Aigre (Pascal Habegger, *1949). O traço
de pincel das suas histórias é ligeiro, 'rápido', espontâneo, vigoroso. O seu
estilo é não-naturalista, abstractizante, de grande expressividade e
originalidade. Ab'Aigre coloca-se assim na tradição dos mestres da banda
desenhada expressiva a preto e branco. Véronik (Véronique Frossard, *1957) é uma
das primeiras e poucas mulheres suíças a trabalhar profissionalmente em banda
desenhada. Em 1988 ela realiza com 'Lou Strass. Only You' uma das primeiras
bandas desenhadas sobre o tema da sida.
Gérald Poussin (*1946)
sente-se à vontade em diversas áreas artísticas (design gráfico, design, cinema
de animação, teatro, pintura). O universo visual de Poussin é anárquico,
fantástico, selvagem e multicolor. As suas bandas desenhadas com as figuras de
Buddy und Flappo são expressão inconfundível de um desenho desenfreado e cómico,
que se inspira na estética de uma artística ingenuidade infantil. Tal como
Poussin, com quem tem afinidades, também Aloys (Yves-Aloys Robellaz, *1953),
experimenta nos anos de 1970, anos de abertura político-cultural, novas formas
de expressão, confirmando-se em vários meios expressivos.
Banda desenhada em
jornais e revistas
René (René Lehner,
*1955), oriundo de Zurique, foi o primeiro autor profissional de banda desenhada
da Suíça alemã. As suas primeiras bandas desenhadas humorísticas foram
publicadas no final dos anos 1970. Com Bill Body, René criou em 1987 uma figura
cómica do mundo do desporto. Esta tira é distribuída internacionalmente,
alcançando assim um milhão de leitores. Em 1997 surgiu o universo em banda
desenhada de 'Zürich by Mike'. As páginas avulsas desenhadas por Mike van
Audenhove (*1957, E.U.A.) são impressas todas as semanas no 'Züritipp', tomando
depois regularmente a forma de álbuns que em pouco tempo se transformam em
bestsellers na Suíça alemã. As situações quotidianas que os seus 'heróis' vivem
vão de turbulentas a contemplativas, mas são sempre cómicas e de muita acuidade.
Alex Macartney (*1963, GB) trabalha como autor de banda desenhada para jornais e
revistas e publica os seus trabalhos sob a forma de antologias. Desde 1995 que
ele desenha 'Herr Hummel', tiras com um autêntico anti-herói.
Felix Schad (*1961,
desenhos) e Claude Jaermann (*1958, textos) são os criadores das maldosas
sátiras do quotidiano à volta do senhor Zwicky, um pequeno burguês bastante
conservador e 'tipicamente' suíço. Grande sucesso tem 'EVA', a obra-prima dos
dois. Esta sai desde 2001 todos os dias no 'Tages-Anzeiger' e dá conta do mundo
laboral da 'working poor' Eva Grdjic, que trabalha na caixa de um supermercado.
Esta tira consegue mostrar o cómico das questões sociais actuais e políticas e
da loucura do quotidiano.
Um pioneiro técnico da
Suíça francesa é Christophe Bertschy (*1970): a partir de 2000 passou a criar as
suas bandas desenhadas de forma completamente digital e encontrou, com os seus
trabalhos de computador, um estilo individual. Na série de tiras 'Nelson', o
diabito homónimo cor-de-laranja todos os dias faz as suas diabruras no jornal
'Le Matin'. O genebrino Buche (Eric Buchschacher, *1965) desenha de forma
bastante realista a série de aventuras 'Vincent Muraz' (argumento: Georges Pop).
Buche também se dedica com igual sucesso ao estilo humorístico: na revista de
banda desenhada 'Tchô!' aparecem piadas loucas com Franky Snow.
No mercado
internacional
Enrico Marini (*1969) é
um dos poucos suíços alemães a ter conseguido trabalhar para o estrangeiro.
Marini desenha várias séries com argumentos de diferentes autores e mergulha em
diversos géneros (aventuras, ficção científica, western, fantasia). Ele é um
mestre do traço elegante. Usando um olhar cinematográfico, ele compõe as suas
páginas como rápidas montagens visuais. Desde 1998 que Franz Zumstein (*1959)
desenha e escreve os argumentos da série 'Die Himmelsstürmer'. Esta aparece
regularmente no semanário 'Coopzeitung'. Por isso Zumstein pode considerar-se o
autor de banda desenhada suíço alemão com maior tiragem (mais de 1,6 milhões de
exemplares). É dele também a banda desenhada que constitui a publicidade oficial
para a Suíça: 'Im Land, das die Zukunft erfand' ('No país que inventou o
futuro') (2002). O álbum apareceu mundialmente em 13 línguas. O genebrino Daniel
Koller (*1963) desenha, para o argumento do belga Stephen Desberg, a série
'Mayam' (2003). Trata-se de uma história de ficção científica, posta em cena com
muita velocidade e com paisagens fantásticas, perspectivas vertiginosas e
arquitecturas invulgares.
Materiais
locais
Depois de a Le
Corbusier e ao graffiter de Zurique, Sambal Oelek (Andreas Müller, *1945),
arquitecto de profissão, dedicou-se, em 1998, à vida e obra de Henri Dufour
(1787-1875), general, cartógrafo e co-fundador da Cruz Vermelha. Para isso,
Oelek trabalha sempre com páginas duplas engenhosamente construídas, nas quais
os motivos visuais se entrelaçam entre si através de espantosas
metamorfoses.
Reto Gloor (*1962) e o
seu argumentista Markus Kirchhofer (*1963) apresentaram a biografia do rei das
evasões prisionais, Bernhart Matter (1821-1854), em dois álbuns (1992 e 1993).
Estes não só tematizam a vida do 'Robin dos Bosques helvético', como também
retratam um bom pedaço da história social da Suíça. Melk Thalmann (*1967,
Lucerna) publicou desde 1989: histórias policiais humorísticas, uma antiga lenda
do campo, reinterpretada, um episódio da guerra suíça de camponeses de 1653. O
álbum 'Zwischenfall' ('Incidente') desenrola-se sobre o pano de fundo da
história suíça mais recente, no tempo da guerra fria quando a Suíça acreditava
estar ameaçada por uma guerra atómica.
Matthias Gnehm (*1970),
de Zurique, trabalha como arquitecto e autor de banda desenhada. Desde os anos
1990 que a sua formação em arquitectura fecunda de forma criativa os seus
trabalhos de banda desenhada, que ele realiza em conjunto com o argumentista
Francis Rivolta ou sozinho.
Zurique:
'Strapazin'
1984 é o ano de
nascimento do periódico 'Strapazin' (Zurique), que aparece quatro vezes ao ano,
e proporciona uma plataforma aos autores de banda desenhada nacionais.
'Strapazin' apresenta modelos e inspiradores através da impressão de trabalhos
de representantes internacionais da banda desenhada de tendência artística. Aqui
ousam-se experiências no desenho ou ensaiam-se novas formas narrativas. A
'Strapazin' estão ligados nomes como Peter Bäder, Christophe Badoux, Hannes
Binder, Frida Bünzli, Andrea Caprez, Chrigel Farner, Ursula Fürst, Thomas Ott,
Andreas Gefe, Claudius Gentinetta, M.S. Bastian, Noyau, Anna Sommer, Pierre
Thomé e Mike van Audenhove.
Genebra: novas bandas
desenhadas independentes
O centro da nova banda
desenhada da Suíça francesa é Genebra (com ramificações em Lausanne), onde há
uma série de autores independentes e de pequenas ou muito pequenas editoras.
Fazem parte desta nova onda de banda desenhada Alex Baladi, Ben (Benoît
Marchesini), Christophe Bertschy, Albin Christen, Exem, Ibn Al Rabin (Mathieu
Baillif), Joëlle Isoz, Jean-Philippe Kalonji, Andreas Kündig, Patrick Mallet,
Mix & Remix (Philippe Becquelin), Frederik Peeters, Isabelle Pralong, Nadia
Raviscioni, Helge Reumann, Nicolas Robel, Xavier Robel, José Roosevelt, Lawrence
(Laurence Suhner), Tom Tirabosco e Wazem (Pierre Wasem). A banda desenhada
artística é publicada em revistas em parte bastante elaboradas e com formas
editoriais especiais: 'Bile Noire ', 'Atrabile', 'Drozophile' e 'B.ü.L.b' são os
títulos das publicações e/ou os nomes das editoras.
Um fenómeno de excepção
é o do genebrino Zep (Philippe Chappuis, *1967) que alcança, com a sua série
humorística 'Titeuf' (a partir de 1992), edições internacionais de bestseller
(2004: lançamento do décimo álbum com uma edição inicial de dois milhões de
exemplares).
Dois
festivais
Há dois grandes
festivais na Suíça que se dedicam ao fomento da banda desenhada e que se dirigem
a públicos diferentes: o Festival international de la BD Sierre (desde 1984, www.bdsierre.ch), mais comercial, situado no
cantão do Valais na fronteira linguística francês/alemão, e o Internationale
Comix-Festival Luzern Fumetto (desde 1992, www.fumetto.ch). Este último dedica-se às novas
tendências da banda desenhada independente suíça e internacional.
Comentários nossos:
Como temos visto, o
Festival de Sierre acabou abandonado por seu presidente, que fundou um
salão em Luasanne, que acabou sendo um fracasso onde mais se esperava algum
sucesso: no caixa. Quanto ao Fumetto, não somente foi um sucesso de público
este ano como deu lições de como ancorar interesse por quadrinhos com a formação
de leitores. Outros 2 festivais que merecem nossa atençao e incentivo são o Tramlabulle e o bédéMANIA.
Indubitavelmente, o ano de 2005 viu o fortalecimento de 2 editoras
suíças de quadrinhos; a Paquet, que tem se demonstrado incansável em
encontrar novos autores, do manhwa ao brasileiro Wander Antunes,
passando por novos autores espanhóis, e a B.ü.Lb comix, que tem criado
soluções originalíssimas para a forma-quadrinho de expressão
artística. Quanto à Strapazin, os leitores do Quadrantes dos
Quadrinhos podem ficar tranquilos: nós vamos sempre ficar atentos às
atualizações desta que consideramos uma das melhores revistas independentes do
mundo. Vale - sempre - lembrar
que a Suíça sedia o melhor museu de caricaturas do mundo, o da Basiléia. Para
conhecer virtualmente o conjunto dos quadrinhistas suíços, a melhor fonte
continua sendo o site Swiss
Comics. Por fim, anunciamos para a próxima edição
do Quadrantes dos Quadrinhos a primeira resenha em português de um álbum do
brasileiro José Roosevelt, que mora na Suíça.