Quadrantes dos Quadrinhos, 1º e 2/11/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
 
As pérolas eslavas de Brno
 
No Quadrantes dos Quadrinhos de 15/09, nós falávamos com alegria da produção de Aargh! a revista editada por Tomáš Prokůpek em Brno, na República Tcheca. Pois bem. Um exemplar da Aargh! número 5 nos chegou às mãos. De tudo o que tivemos oportunidade de ver, em termos proporcionais ao que se poderia esperar, trata-se da maior e melhor surpresa de 2005. Nas suas 112 páginas e grande formato, em papel couché, a Aargh é um verdadeiro desfile de excelentes desenhos, com um tratamento gráfico impecável. Para nossa sorte - e dos leitores - temos um pequeno guia online para que todos tenham uma pquena amostra da Aargh! 5. Poder ter tido  chance de falar sobre esta bela revista de quadrinhos autorais para adultos (embora não haja nada nela que não se possa indicar para um adolescente), que maravilha mesmo quem não tenha nenhum ou pouco contato com o idioma foi, sem dúvida, uma das melhores alegrias que tivemos ao extender nossa pesquisa além dos limites das pautas normalmente abordadas por veículos de quadrinhos. À originalidade e variedade dos traços - em especial - do ucraniano Igor Baranko, do sérbio Aleksa Gajić e do esloveno Tomaž Lavrić (que ilustra esta nota),  somam-se as surpresas tchecas: o próprio Tomáš Prokůpek como roteirista de HQ curta e o lirismo de Pavel Čech como roteirista/desenhador. Aargh ! é de animar qualquer um que goste de ver as inúmeras possibilidades dos quadrinhos não só como veículo de criação, mas como expressão artística. Quem não conhece as HQs que os eslavos fazem não tem a mínima idéia do que está perdendo.

Joe Quesada no The Palm
 
O quadrinhista e principal executivo da Marvel, Joe Quesada, está realizando, neste dia 1º de novembro, um painel pintado com desenhos de Homem-Aranha, Wolverine, Hulk, Capitão América e Quarteto Fantástico, em um dos mais tradicionais restaurantes de Nova York, o The Palm, que ao longo de seus 80 anos, já recebeu em suas paredes as artes de inúmeros mestres da arte do desenho. Aliás, o restaurante iniciou uma tradição muito interessante, logo no início, quando foi fundado por 2 imigrantes italianos: como eles não tinham dinheiro para pagar a decoração do restaurante, aceitavam caricaturas de artistas que também andavam duros. A tradição acabou se mantendo, e antes de Quesada, as paredes do The Palm foram desenhadas por artistas como  Mort Walker,  Matt Groening, Dr. Seuss, Carmine Infantino, Chris Brown e Milton Caniff. As caricaturas acabaram se tornando uma referência do restaurante, uma verdadeira forma de promoção, idéia que depois foi copiada por inúmeros Muitos dos desenhos originais já nem estão no The Palm, e sim, em uma filial desta tradição nova-iorquina.

 
A quase volta do Salão do Porto
 
O Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto (SIBDP) deixou de acontecer a 4 anos. Uma 12ª edição, virtual, é anunciada para comemorar os 20 anos de sua 1º edição, o que se completa com a publicação de um livro sobre a história do salão e sobre os últimos 20 anos da Nona Arte em Portugal. De 5 a 26 de Novembro, a edição virtual do salão, no endereço eletrônico www.sibdp.com terá artes, entre outros, de José Carlos Fernandes, Miguelanxo Prado, Schuiten e Peeters, Don Rosa, Baru, Berberian, Étienne Davodeau, Lewis Trondhein, James Kochalka, que se fizeram presentes nas edições presenciais do certame. O cartaz da edição virtual, cuja arte ilustra esta nota, é de autoria de Rui Duarte.

A volta de Kirikou
 
No dia 7 de dezembro, deve estrear - na França - o novo filme de Michel Ocelot, o realizadoror de  Kirikou (Kiriku e a Feiticeira) e de Príncipes e Princesas, entre outros. Em Kirikou (de 1998), Ocelot já subverteu, com ampla aceitação de crianças, pais e educadores, a forma do cinema de animação mostra a África, sem perder a poesia, mas na dimensão das miserabilidades às quais o continente foi empurrado, e sem 'retoques' para fazer a África mais parecida com a visão eurocentrista de mundo. Entre seus colegas, Ocelot foi eleito duas vezes para presidir a associação internacional dos produtores do setor, a ASIFA. O novo filme se chama 'Kirikou et les Bêtes Sauvages' (Kiriku e as Feras Selvagens). Uma primeira apresentação de um dos episódios durante o Festival de Cannes deste nao já foi aplaudida por quem mais interessa: as crianças. O site oficial do filme já mostra a sinopse animada, a música, alguns ambientes, traz papéis de parede  e uma confirmação das mais animadoras (com o perdão do trocadilho): quem assina a direção do filme, ao lado de Ocelot,  é Bénédicte Galup, uma das responsáveis maiores, como diretora de edição, de outra das pérolas da moderna animação francesa: 'Les Triplettes de Belleville'. TCom certeza, deve ser uma dos melhores filmes de animação a correr o planeta com bela arte e bons toques, em 2006. Todos os ganhos dos produtos derivados do filme serão divididos com o UNICEF.

 
O Havaí da Fantagraphics
 
Nota adaptada de nosso colega Artur Billy Batson, do HQ Maniacs
 
O mercado de quadrinhos sempre reserva boas surpresas. Uma delas é ver que selos tão pequenos como a Fantagraphics, esgotam revistas, lançadas com altíssima qualidade. Night Fisher é o caso mais recente. Nem lançada, a revista foi tão bem-resenhada pelos críticos que teve que voltar à sala de impressão para aumentar a tiragem, pois já se previa o fim dos estoques da editora. R. Kikuo Johnson, criador da graphic novel, não poderia estar mais feliz. Ele anuncia que viajará ao Havaí, onde nasceu, para realizar dois eventos, seguidos de mais dois em Nova York.
 
Complementando as informações de Artur, Night Fisher, que está chegando às lojas americanas hoje, se passa no Havaí, e marca a estréia de Johnson, que está sendo elogiado, especialmente, pelo modo como consegue mostrar as relações entre um filho e um pai que deixam de morar em Boston e se instalam na ilha de Maui. O filho, Loren Foster, é o principal personagem da trama, que revela, com originalidade, os torvelinhos do antigo paraíso em sua 'modernidade' . Confira a arte de R. Kikuo Johnson em sua página eletrônica oficial. O álbum tem 144 páginas e preço médio de 13 dólares.

 
Muito mais notícias no Neorama
 
A implantação do nosso blog para releases tem permitido atualizações mais constantes de notícias, além das 4 edições semanais do Neorama dos Quadrinhos e do Neorama da Cultura, principalmente de concursos e exposições. O blog tem dado chance para divulgarmos notícias de produtores que não tem sites e de destacar notas que às vezes estão 'escondidas' em portais oficiais e que nos chegam por e-mail. O novo arquivo tem permitido aproximar as iniciativas de alguns governos e universidades, e tornar mais próxima a relação com o Neorama da Cultura. Sozinho, o nosso blog tem dado saída a um volume de notícias mais do que respeitável, se considerarmos o horizonte atual dos noticiários produzidos online. Claro, entre release e notícia, há uma diferença técnica e de fundo, mas temos, inclusive, em alguns casos, melhorado muitos dos que nos chegam. Entre alguns destaques que já publicamos, somente em português, sublinhamos: EBA! 2º Festival de Artes e Quadrinhos, em São Paulo, Mostra Henfil do Brasil , em São Paulo, Ziraldo lança o concurso de desenhos 'O Menino Astronauta', uma notícia que muito no alegrou: Salvador, amiga (também oficial) do grafiti, álbum de figurinhas de W.I.T.C.H., o argentino Carlos Nine em Porto Alegre, Wallace & Gromit: o livro, pela Asa; o Natal de lançamentos da VitaminaBD (de Portugal), novo livro sobre HQs e outras imagens, da UFPE, mostra de Bordallo Pinheiro no Festival de Teatro da Maia (em Portugal) e a Bat-loja da Batbase. Uma outra ferramenta, que nos foi indicada pelo Andrews  o batalhador que dirige o Tiras Nacionais (que está aceitando, agora, também, cartuns e charges) - está nos permitindo, também, gerar mais imagens para ilustrar o nosso trabalho.
 
The Comics Revue de Fim de ano
 
A Comics Revue, única revista em circulação nos Estados Unidos dedicada à republicação de quadrinhos clássicos chega à sua edição número 237 no dia 28 de dezembro. Como sempre, recheada de preciosidades, espalhadas por 376 páginas, ao preço de 7 dólares (ou menos, em lojas virtuais): Nesta edição, temos o Tarzan de Russ Manning; uma HQ do Flash Gordon por Dan Barry Little Orphan Annie de Harold Gray; Krazy Kat, de George Herriman; a bela Modesty Blaise, assinada por Peter O'Donnell; o Steve Canyon de Milton Caniff; tiras de Gasoline Alley, por Dick Moores, o Fantasma e Mandrake de Lee Falk; Brucutu, por V. T. Hamlin, e muito mais. É uma pena que a revista não tenha a divulgação que merece.

 
O anuário alemão
 
Além da profusão de bons quadrinhistas de humor de vários tipos, os alemães têm uma vocação muito particular para realizar obras de referência sobre quadrinhos com muito cuidado. Com a proximidade do final do ano, foi publicada a 7ª edição de um anuário editado pela ICOM, sediada em Stuttgart: o COMIC!-Jahrbuch 2006. Em 224 páginas e preço médio de 15 euros,  o livro traz um prefácio de Burkhard Ihme, que além de fundador e principal dirigente da ICOM é ele próprio mais um quadrinhista alemão adepto do humor de linha clara, um artigo (não poderia faltar) sobre 30 anos de Abrafaxe, uma análise sobre a Comicfest München, uma entrevista com o desenhista Peter Schaaff, que realizou a HQ para o governo da Renânia de alerta sobre a volta do neonazismo ao país, na forma dos skinheads, e artigos sobre a volta de Fix und Foxy,  a presença do mangá na Faszination Comic da Feira do Livro de Frankfurt e muitos artigos e análises sobre a cena mundial. Quem teve a oportunidade de resenhar a obra garante que ela cumpre muito bem o papel que se propôs. Uma dica extra sobre a ICOM é que ela tem uma loja virtual com atualizações mais que razoáveis para acompanhar o que se edita na Alemanha. 

 
Mangás na Itália: hora de Flash Book
 
O mercado italiano de mangás inicia o mês com uma mudança no panorama: a Flash Book tem uma notícia de muito peso a contar: um acordo comercial com a gigante americana Tokyopop. Através dele, a versão mangá de Courtney Love (de poucas qualidades artísticas e muitas vendas, mas que nós noticiamos em primeira mão), Princess Ai, passa a ser publicada na Itália, este mês. Warcraft, série que tem dado mais dinheiro como game do que como HQ, também passa a ser distribuída em italiano. O mangá mais interessante desta primeira safra é o shoujo Rozen Maiden, de autoria de de Peach-Pit (que acaba de chegar ao animê, no Japão). A HQ tem como protagonistas Sakurada Jun e a boneca Shinku, numa trama nem tão infantil, que inclui algumas doses de ocultismo, autoexclusão social e crises de personalidade. A publicação do volume de estórias curtas 'Orange Kiss', shoujo de Usami Maki, também foi anunciada pela editora, ainda em outubro. Usami Maki, apesar de ainda não ter títulos  em português, já teve HQs exportadas para Indonésia e Tailândia. Vale sublinhar que a editora também já publica 2 dos manhwas mais emblemáticos de circulação internacional: Chonchu - um campeão de vendas - e o autoralíssimo Tarot Cafe.

Ilustração de Rodolphe Töppfer
 
História da HQ suíça
 
O cartunista português Sergei tem sido uma das melhores pontes de divulgação do que temos produzido, e também de artistas do traço brasileiros no mundo virtual da Nona Arte portuguesa. Esta semana, por sinal, Celestinho & Pestinha, do nosso amigo e colaborador Fadão, estão de visita ao site de Sergei. Entre as novas atualizações de seu portal, Sergei trouxe uma texto de Urs Hangartner, da fundação suíça para a cultura Pro Helvetia, que foi publicado aqui, que reproduzimos aqui, acrescidos de alguns comentários nossos e com um anúncio brasileiro para o próximo Quadrantes dos Quadrinhos.
 
Pequena história da banda desenhada suíça
 
O genebrino Rodolphe Töppfer (1799-1846) foi o inventor prático e teórico da banda desenhada. Ele era professor e director de um internato em Genebra, e escrevia e desenhava nos seus tempos livres. Sob a influência de caricaturistas políticos franceses e ingleses, Töpffer desenhou em 1827 a sua primeira história intitulada 'Histoire de Monsieur Vieux Bois'. Em 1833 apareceu 'Monsieur Jabot', o primeiro de um total de sete álbuns impressos. Töpffer foi o primeiro a apresentar nas suas 'histórias em imagens' ('histoires en estampes') humorísticas e fantásticas aquilo que viria mais tarde a caracterizar a banda desenhada: a ligação entre imagem e texto de forma a constituírem um todo narrativo. Töpffer pode ser considerado como o 'fundador' da banda desenhada. Em 1845 ele formulou no seu 'Essai de Physiognomie' ('Ensaio de Fisionomia') as linhas gerais da narração em imagens e textos, lançando assim as bases teóricas do novo meio expressivo. Töppfer escreve no seu 'Essai': 'Pode-se escrever histórias com capítulos, linhas, palavras: isso é literatura propriamente dita. Pode-se escrever histórias com sequências de cenas representadas graficamente: isso é literatura em imagens.'
 
Figuras publicitárias como sucessos de banda desenhada
 
Só quase um século mais tarde aparece, com Globi, uma primeira contribuição original suíça na área da banda desenhada. Globi foi criado em 1932 como figura publicitária pelo 25º aniversário dos armazéns Globus. Um ano mais tarde surge a sua primeira história em imagens. Ele torna-se rapidamente num fenómeno de sucesso com imensa popularidade, sobretudo entre as crianças. 'Globi' foi concebido pelo publicitário-chefe de Globus, J. K. Schiele (1902-1988). Robert Lips (1912-1975) desenhou o homem-pássaro até 1966. Desde 1935 que todos os anos sai um novo livro do 'Globi'. A partir de 1938, as suas histórias sem palavras passam a ser acompanhadas de versos rimados. Em 1948 atinge o primeiro milhão de livros vendidos. Globi foi-se transformado continuamente ao longo de todos estes anos. Pode-se, no fundo, fazer uma leitura da história de mentalidades da Suíça através da sua banda desenhada com maior longevidade.

Em 1948 a casa editora Ringier cria 'Ringgi und Zofi'. As suas primeiras aventuras foram desenhadas por Hugo Laubi (1888-1959) para os textos em verso de Fridolin Tschudi (1912-1966). Também esta banda desenhada infantil parte, como uma série de outras, de uma ideia publicitária, mas nenhuma chegou a ser tão duradoura como Globi. A partir de uma ideia da Fundação para a Juventude (Pro Junventute) aparece em 1955 'Papa Moll'. Esta banda desenhada sem balões deveria ter um 'valor pedagógico', exaltar valores de família e transmitir 'uma perspectiva positiva da vida'. Edith Oppenheim-Jonas (1907-2001) desenha as vivências tragicómicas e as situações slapstick de Papa Moll e da sua família suíça típica. Depois da sua morte, uma nova geração de autores de banda desenhada continua as histórias de 'Papa Moll'.
 
Cenários realistas
 
Depois dos anos 1930 (com o aparecimento de Globi) e durante mais de duas décadas, a Suíça praticamente não conhece uma produção de banda desenhada própria. Só nos anos 1960 surgem, na área de influência do mercado franco-belga, criadores de banda desenhada da Suíça (francesa). Destes, o suíço francês Derib (Claude de Ribaupierre, *1944) foi o primeiro a alcançar sucesso internacional. Formado nos estúdios belgas de Peyo ('Os Estrunfes'), Derib veio a descobrir um traço próprio, realista e preciso. A sua obra coloca o 'far West' no seu centro e anda à volta dos temas 'natureza – paisagens – pessoas'. Para os leitores jovens, ele cria no início dos anos 1970, juntamente com o argumentista Job (André Jobin, *1927), a série centrada no pequeno índio Yakari. Ele desenha ainda de forma bastante realista o mundo do armador Buddy Longway, que toma na série homónima a forma de uma saga de família. O sinal de marca de Derib são as páginas extremamente dinâmicas, nas quais ele engenhosamente faz, através de uma técnica de montagem 'cinematográfica', a ligação entre as cenas desenhadas.
 
O aluno de Derib, Cosey (Bernard Cosendai, *1950) segue o seu mestre estilisticamente no tratamento da página como um todo, mas encontra um meio de expressão pessoal. Na sua série 'Jonathan' (a partir de 1975), a viagem, certamente autobiográfica, leva a longínquos países asiáticos. Também Stéphane, personagem suíça de uma série de Daniel Ceppi (*1951), viaja em direcção a leste. Ceppi investigou pessoalmente, tal como já fizera Cosey, os cenários das suas histórias de banda desenhada, e também ele se baseia bastante em documentação. Os diferentes locais de acção de 'Stéphane' (a partir de 1978) dão ao autor e desenhador a oportunidade de, ligando banda desenhada e jornalismo, fazer referências sociais e políticas actuais. Motivos mágicos e cenários exóticos são as marcas características da primeira fase da banda desenhada de Ab'Aigre (Pascal Habegger, *1949). O traço de pincel das suas histórias é ligeiro, 'rápido', espontâneo, vigoroso. O seu estilo é não-naturalista, abstractizante, de grande expressividade e originalidade. Ab'Aigre coloca-se assim na tradição dos mestres da banda desenhada expressiva a preto e branco. Véronik (Véronique Frossard, *1957) é uma das primeiras e poucas mulheres suíças a trabalhar profissionalmente em banda desenhada. Em 1988 ela realiza com 'Lou Strass. Only You' uma das primeiras bandas desenhadas sobre o tema da sida.
 
Gérald Poussin (*1946) sente-se à vontade em diversas áreas artísticas (design gráfico, design, cinema de animação, teatro, pintura). O universo visual de Poussin é anárquico, fantástico, selvagem e multicolor. As suas bandas desenhadas com as figuras de Buddy und Flappo são expressão inconfundível de um desenho desenfreado e cómico, que se inspira na estética de uma artística ingenuidade infantil. Tal como Poussin, com quem tem afinidades, também Aloys (Yves-Aloys Robellaz, *1953), experimenta nos anos de 1970, anos de abertura político-cultural, novas formas de expressão, confirmando-se em vários meios expressivos.
 
Banda desenhada em jornais e revistas
 
René (René Lehner, *1955), oriundo de Zurique, foi o primeiro autor profissional de banda desenhada da Suíça alemã. As suas primeiras bandas desenhadas humorísticas foram publicadas no final dos anos 1970. Com Bill Body, René criou em 1987 uma figura cómica do mundo do desporto. Esta tira é distribuída internacionalmente, alcançando assim um milhão de leitores. Em 1997 surgiu o universo em banda desenhada de 'Zürich by Mike'. As páginas avulsas desenhadas por Mike van Audenhove (*1957, E.U.A.) são impressas todas as semanas no 'Züritipp', tomando depois regularmente a forma de álbuns que em pouco tempo se transformam em bestsellers na Suíça alemã. As situações quotidianas que os seus 'heróis' vivem vão de turbulentas a contemplativas, mas são sempre cómicas e de muita acuidade. Alex Macartney (*1963, GB) trabalha como autor de banda desenhada para jornais e revistas e publica os seus trabalhos sob a forma de antologias. Desde 1995 que ele desenha 'Herr Hummel', tiras com um autêntico anti-herói.
 
Felix Schad (*1961, desenhos) e Claude Jaermann (*1958, textos) são os criadores das maldosas sátiras do quotidiano à volta do senhor Zwicky, um pequeno burguês bastante conservador e 'tipicamente' suíço. Grande sucesso tem 'EVA', a obra-prima dos dois. Esta sai desde 2001 todos os dias no 'Tages-Anzeiger' e dá conta do mundo laboral da 'working poor' Eva Grdjic, que trabalha na caixa de um supermercado. Esta tira consegue mostrar o cómico das questões sociais actuais e políticas e da loucura do quotidiano.
 
Um pioneiro técnico da Suíça francesa é Christophe Bertschy (*1970): a partir de 2000 passou a criar as suas bandas desenhadas de forma completamente digital e encontrou, com os seus trabalhos de computador, um estilo individual. Na série de tiras 'Nelson', o diabito homónimo cor-de-laranja todos os dias faz as suas diabruras no jornal 'Le Matin'. O genebrino Buche (Eric Buchschacher, *1965) desenha de forma bastante realista a série de aventuras 'Vincent Muraz' (argumento: Georges Pop). Buche também se dedica com igual sucesso ao estilo humorístico: na revista de banda desenhada 'Tchô!' aparecem piadas loucas com Franky Snow.
No mercado internacional
 
Enrico Marini (*1969) é um dos poucos suíços alemães a ter conseguido trabalhar para o estrangeiro. Marini desenha várias séries com argumentos de diferentes autores e mergulha em diversos géneros (aventuras, ficção científica, western, fantasia). Ele é um mestre do traço elegante. Usando um olhar cinematográfico, ele compõe as suas páginas como rápidas montagens visuais. Desde 1998 que Franz Zumstein (*1959) desenha e escreve os argumentos da série 'Die Himmelsstürmer'. Esta aparece regularmente no semanário 'Coopzeitung'. Por isso Zumstein pode considerar-se o autor de banda desenhada suíço alemão com maior tiragem (mais de 1,6 milhões de exemplares). É dele também a banda desenhada que constitui a publicidade oficial para a Suíça: 'Im Land, das die Zukunft erfand' ('No país que inventou o futuro') (2002). O álbum apareceu mundialmente em 13 línguas. O genebrino Daniel Koller (*1963) desenha, para o argumento do belga Stephen Desberg, a série 'Mayam' (2003). Trata-se de uma história de ficção científica, posta em cena com muita velocidade e com paisagens fantásticas, perspectivas vertiginosas e arquitecturas invulgares.
 
Materiais locais
 
Depois de a Le Corbusier e ao graffiter de Zurique, Sambal Oelek (Andreas Müller, *1945), arquitecto de profissão, dedicou-se, em 1998, à vida e obra de Henri Dufour (1787-1875), general, cartógrafo e co-fundador da Cruz Vermelha. Para isso, Oelek trabalha sempre com páginas duplas engenhosamente construídas, nas quais os motivos visuais se entrelaçam entre si através de espantosas metamorfoses.
 
Reto Gloor (*1962) e o seu argumentista Markus Kirchhofer (*1963) apresentaram a biografia do rei das evasões prisionais, Bernhart Matter (1821-1854), em dois álbuns (1992 e 1993). Estes não só tematizam a vida do 'Robin dos Bosques helvético', como também retratam um bom pedaço da história social da Suíça. Melk Thalmann (*1967, Lucerna) publicou desde 1989: histórias policiais humorísticas, uma antiga lenda do campo, reinterpretada, um episódio da guerra suíça de camponeses de 1653. O álbum 'Zwischenfall' ('Incidente') desenrola-se sobre o pano de fundo da história suíça mais recente, no tempo da guerra fria quando a Suíça acreditava estar ameaçada por uma guerra atómica.
 
Matthias Gnehm (*1970), de Zurique, trabalha como arquitecto e autor de banda desenhada. Desde os anos 1990 que a sua formação em arquitectura fecunda de forma criativa os seus trabalhos de banda desenhada, que ele realiza em conjunto com o argumentista Francis Rivolta ou sozinho.
 
Zurique: 'Strapazin'
 
1984 é o ano de nascimento do periódico 'Strapazin' (Zurique), que aparece quatro vezes ao ano, e proporciona uma plataforma aos autores de banda desenhada nacionais. 'Strapazin' apresenta modelos e inspiradores através da impressão de trabalhos de representantes internacionais da banda desenhada de tendência artística. Aqui ousam-se experiências no desenho ou ensaiam-se novas formas narrativas. A 'Strapazin' estão ligados nomes como Peter Bäder, Christophe Badoux, Hannes Binder, Frida Bünzli, Andrea Caprez, Chrigel Farner, Ursula Fürst, Thomas Ott, Andreas Gefe, Claudius Gentinetta, M.S. Bastian, Noyau, Anna Sommer, Pierre Thomé e Mike van Audenhove.
 
Genebra: novas bandas desenhadas independentes
O centro da nova banda desenhada da Suíça francesa é Genebra (com ramificações em Lausanne), onde há uma série de autores independentes e de pequenas ou muito pequenas editoras. Fazem parte desta nova onda de banda desenhada Alex Baladi, Ben (Benoît Marchesini), Christophe Bertschy, Albin Christen, Exem, Ibn Al Rabin (Mathieu Baillif), Joëlle Isoz, Jean-Philippe Kalonji, Andreas Kündig, Patrick Mallet, Mix & Remix (Philippe Becquelin), Frederik Peeters, Isabelle Pralong, Nadia Raviscioni, Helge Reumann, Nicolas Robel, Xavier Robel, José Roosevelt, Lawrence (Laurence Suhner), Tom Tirabosco e Wazem (Pierre Wasem). A banda desenhada artística é publicada em revistas em parte bastante elaboradas e com formas editoriais especiais: 'Bile Noire ', 'Atrabile', 'Drozophile' e 'B.ü.L.b' são os títulos das publicações e/ou os nomes das editoras.
 
Um fenómeno de excepção é o do genebrino Zep (Philippe Chappuis, *1967) que alcança, com a sua série humorística 'Titeuf' (a partir de 1992), edições internacionais de bestseller (2004: lançamento do décimo álbum com uma edição inicial de dois milhões de exemplares).
 
Dois festivais
 
Há dois grandes festivais na Suíça que se dedicam ao fomento da banda desenhada e que se dirigem a públicos diferentes: o Festival international de la BD Sierre (desde 1984, www.bdsierre.ch), mais comercial, situado no cantão do Valais na fronteira linguística francês/alemão, e o Internationale Comix-Festival Luzern Fumetto (desde 1992, www.fumetto.ch). Este último dedica-se às novas tendências da banda desenhada independente suíça e internacional.
 
Comentários nossos:
 
Como temos visto, o Festival de Sierre acabou abandonado por seu presidente, que fundou um salão em Luasanne, que acabou sendo um fracasso onde mais se esperava algum sucesso: no caixa. Quanto ao Fumetto, não somente foi um sucesso de público este ano como deu lições de como ancorar interesse por quadrinhos com a formação de leitores. Outros 2 festivais que merecem nossa atençao e incentivo são o Tramlabulle e o bédéMANIA. Indubitavelmente, o ano de 2005 viu o fortalecimento de 2 editoras suíças de quadrinhos; a Paquet, que tem se demonstrado incansável em encontrar novos autores, do manhwa ao brasileiro Wander Antunes, passando por  novos autores espanhóis, e a B.ü.Lb comix, que tem criado soluções originalíssimas para a forma-quadrinho de expressão artística.  Quanto à Strapazin, os leitores do Quadrantes dos Quadrinhos podem ficar tranquilos: nós vamos sempre ficar atentos às atualizações desta que consideramos uma das melhores revistas independentes do mundo. Vale - sempre - lembrar que a Suíça sedia o melhor museu de caricaturas do mundo, o da Basiléia. Para conhecer virtualmente o conjunto dos quadrinhistas suíços, a melhor fonte continua sendo o site Swiss Comics. Por fim, anunciamos para a próxima edição do Quadrantes dos Quadrinhos a primeira resenha em português de um álbum do brasileiro José Roosevelt, que mora na Suíça.

ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos