Quadrantes dos Quadrinhos,
31/10/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material
publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
Shankar, a
alma hindu dos quadrinhos
Um gigante dos
quadrinhos - e de suas possibilidades - é talvez uma das maiores provas do
quanto temos a pesquisar e aprender com a Nona Arte para além do mundo
ocidental. Shankar, o maior dos quadrinhistas hindus, até a publicação deste
artigo, nunca foi objeto de uma nota em espanhol ou em português (pelo menos,
que seja localizável por motores de buscas).
Nacionalista,
generoso, amigo das crianças, fundador de uma editora que ainda hoje instrui e
alegra dezenas de milhões de pessoas: este é Shankar, que através da sua
revista Shankar's Weekly, lançou um concurso infantil de desenhos, em 1949,
que está tendo mais uma edição em 2006, de cunho internacional: a Shankar's
International Children's Competition, que já recebeu trabalhos de crianças de
130 nações diferentes, e cujo prazo de inscrições para crianças não hindus
vai até 31 de dezembro (confira as bases de participação em espanhol e em inglês.
Esperamos com a
divulgação deste concurso não só fazer com que mais crianças participem do
certame, mas também fazer conhecida a trajetória deste quadrinhista único, que
ao lado de Nehru e outros expoentes nacionalistas, ajudou a construir uma Índia
nova, que - sem esquecer seu passado - tem desenvolvido a inteligência nacional
a passos muito mais largos que a grande maioria das nações
sul-americanas.
Nascido em Kerala em
1902, Keshav Shankar Pillai chegou a estudar direito em Bombaim, mas
logo enveredou pelo desenho , tendo sido chargista no The Hindustan
Times de 1932 a 1946. A partir de sua Shankar's Weekly, ele lançou as
bases de um sonho que poucos autores conseguem realizar em vida: a editora
Children’s Book Trust (CBT), em 1957, que existe até hoje, e
que acabou subtraindo do mundo do desenho boa parte do tempo do mestre, que
se dedicou cada vez mais a escrever e a editar livros. A CBT publica a revista
mensal Children’s World (desde 1968), vários livros infantis, biografias de
personalidades hindus, e ainda deu origem a um centro para crianças, o
Shankar’s Centre for Children - sediado em Nova Délhi - que inclui um museu de
bonecos e bonecas, um anfiteatro, uma galeria de artes e vários equipamentos
para oficinas de diversas artes. Shankar faleceu em 1989, mas suas sementes
continuam em várias formas de germinação.
Quai des Bulles: cartão
postal oficial
Fim de semana
de prêmios europeus
O final de semana foi
pródigo em anúncios de importantes prêmios em 3 eventos distintos, na França,
Portugal e Itália.
Na França, o 25º
festival Quai des Bulles , que teve
40.000 visitantes (o que deve derrubar sua auto-proclamada condição de segundo
maior festival de bandes dessinées) laureou Olivier Vatine (de Aquablue) com o
maior prêmio. A Delcourt, e seu selo Série
B, consagrado à revelação de novos talentos (em
parte), foi contemplada com a outorga de melhor promessa a Obion (de 28 anos), O prêmio Petit
Robert, consagrado a roteiristas, foi concedido a Emile Bravo.
Em Portugal, para
o júri do FIBDA, em Amadora, 'Os Super-Heróis da História de
Portugal', de Artur Correia e António Gomes de Almeida (pela Bertrand), foi
considerado o melhor álbum português. José Carlos Fernandes foi eleito o
melhor argumentista, pelo originalíssimo 'A Última Obra-Prima de Aaron
Slobodj' (publicado pela Devir de lá), e Filipe Abranches venceu o laurel de
melhor desenhista português por 'As Aventuras Formativas da Fortunata, Maria e
Garção', o Prêmio Clássicos da 9ª Arte foi para a ousadia da Livros
de Papel em reeditar o Príncipe Valente, de
Harold Foster; melhor fanzine: Venham mais Cinco, Toupeira Atelier de BD,
mais um incentivo para a Bedeteca de Beja. Completam a
premiação: Melhor álbum estrangeiro editado em Portugal: 'Sin City: Aquele
Sacana Amarelo', de Frank Miller (Devir): melhor álbum de tiras humorísticas,
Quinoterapia, do mestre argentino Quino (Teorema) e melhor ilustração para
literatura infantil: 'O Pai Natal Preguiçoso e a Rena Rodolfa', de Alain Corbel (pela Editorial Caminho).
Na Itália, o
festival de Lucca acabou conferindo os prêmios Gran Guinigi para a Kappa
Edizioni (que lançou sua nova coleção de mangás no evento) por Palle di Toro, do alemão Ralf König, considerado melhor
álbum integral ('longo'). Melhor álbum 'curto': La più Bella Cosa' de
Giacomo Nanni, pela mais que autoral Coconino, o que foi um enorme
incentivo para o coletivo da revista Canicola, a
láurea de melhor série acabou indo para a Eura, que está completando 30
anos em 2005, por John Doe; 'Schizzo! Presenta', projeto do Centro Andrea
Pazienza, foi considerada a melhor iniciativa
editorial; a pluri-talentosa Vanna
Vinci foi considerada a melhor desenhista; Guido Nolitta (entenda-se,
Sergio Bonelli, em pessoa, sob seu pseudônimo), foi escolhido melhor roteirista.
O genial Gipi recebeu um prêmio especial por sua carreira. O júri também resolveu entregar
à quadrinhista Grazia
Nidasio um prêmio de 'mestre dos
quadrinhos'.
'Fama': mais um ponto para os
quadrinhos
Confrontando as HQs com
outras formas pelas quais comunidades jornalísticas, culturais e ligadas à
produção de bens para ser vendidos através da indústria cultural, no que diz
respeito à manutenção e divulgação dos chamados expoentes, chegamos a
mais uma confortável e estimulante conclusão sobre como o tecido criado
pelos agentes dos quadrinhos é mais saudável do que outros. Nossa conclusão
é a de que não há, no mundo dos quadrinhos no Ocidente -, via de
regra, a figura do artista que tem fama sem ter méritos para tanto.
Onde quer que se pare
para avaliar, nos países que têm uma trajetória minimamente assentada, os
casos de artistas dos quadrinhos cujo reconhecimento tenha
sido conferido além do que seus atributos fazem jus não chegam quase a se
constituir na chamada exceção que confirma a regra. No caso mais claro, o
de Stan Lee, para nossa sorte, as doses adicionais que o original criador
teve de fama acabaram redundando em um acréscimo de divulgação dos
quadrinhos como um todo: Lee é o que se pode chamar de índice, e não de
ícone, para tomarmos uma expressão com a qual os semiólogos enriqueceram nosso
arsenal de análise nos anos 60; quando se ouve falar de Stan Lee, a
remissão aos quadrinhos é imediata, diferentemente de outros ídolos da cultura
de massas, que são auto-referentes. Além disso, Lee soube usar a sua fama
pessoal em prol dos próprios quadrinhos. Claro, existem centenas de
contribuições que são menos valorizadas do que merecem.
Se pensarmos no caso do
Brasil, apenas por exemplo, os dois expoentes máximos da forma-quadrinhos de
recontar o mundo, Mauricio de Sousa e Ziraldo, fazem jus a todas as homenagens e
espaços que já tiveram e que ainda terão.
Tentaremos discorrer
mais sobre isto em um livro que estamos preparando sobre os quadrinhos e
suas ligações com seus agentes e com seu público. Para mais, cabe a
todos que nos ocupamos da Nona Arte saber preservar este legado.
Mulheres e HQs, na Art
News
A divulgação do
conteúdo da Art News de novembro trouxe uma bela surpresa: quadrinhos na capa de
uma das mais conceituadas revistas sobre artes nos Estados Unidos,
especialmente, no que diz respeito à inteligência do leitor. A partir das
exposições de quadrinhos que estão marcando época em San Francisco, a Art News
produziu um artigo editorial sobre a pouca participação feminina na cena
americana. Bastante ponderado e bem redigido, o artigo aponta que a grande
maioria dos quadrinhos até a revolução causada por Robert Crumb e seus
amigos nos anos 60 não atraía leitura feminina não somente pelo seu universo
masculino como também por uma certa dose de roteiros algo primários,
especialmente no campo da ficção. O texto se centra, em parte nas
análises e na experiência de Jessica Abel, uma das (melhores) expoentes da safra
feminina que vem mudando este quadro, há menos de 15 anos.
Planeta dos Macacos volta aos
quadrinhos
Zaio, Zira e
outros simpáticos macacos que puseram algumas de nossas certezas em xeque no
cinema e na TV estão de volta aos gibis. Planeta dos Macacos terá uma nova série
em quadrinhos publicada nos EUA, pela Mr. Comics. Com o título de
'Revolution on the Planet of the Apes', a série parece que terá o que somar aos
quadrinhos, principalmente por que será escrita -e também editada - por Ty
Templeton, mais conhecido por seu trabalho em Batman e que já ganhou 3 prêmios
Eisner e Joe O'Brian (Robocop). Os desenhos serão realizados por vários
artistas, o que inclui Salgood Sam - indicado este ano aos prêmios
Doug Wright como melhor novo talento pelo seu ótimo trabalho em Sea of
Red - e Tom Fowler (Arqueiro Verde). As capas serão de Denis Rodier
(Superman). Cada gibi terá 2 estórias, em cores, e o primeiro gibi deve estar
nas gibiterias americanas a partir de 1º
dezembro. A editora já colocou algumas páginas para ser conferidas em sua
página eletrônica oficial.
A nova revista dos
super-heróis
Uma nova publicação bimensal
sobre super-heróis promete manter mais leitores antenado no que produzem
editoras e criadores do setor, nos EUA: é a Heroes & Villains,
publicada pela Beckett Media, com tiragem inicial de 100.000 exemplares, mais de
70 páginas e preço de capa de 6 dólares (o
valor da assinatura por um ano é de apenas 16 dólares). Maiores detalhes
sobre o conteúdo não foram disponibilizados, mas - no mínimo - é de se
esperar que tenhamos muito capricho editorial e boa distribuição: a Beckett
publica, com sucesso, várias das revistas esportivas de maior alcance
dos Estados Unidos.
As '10 melhores
graphic novels'
O excelente jornalista especializado
em quadrinhos Andrew Arnold seguiu uma iniciativa da revista em que
escreve, a Time - que publicou uma lista de 100 melhores
romances publicados nos EUA (que incluiu uma HQ) - e publicou a
sua lista de 10 melhores graphic novels', tento o cuidado de apontar
que o conceito, em si, é um pouco vago. Não é de se considerar como uma lista
absoluta, mas com certeza, pela seriedade e isenção de Arnold, uma lista a se
levar em conta, e guardar:
Berlin: City of Stones / Jason
Lutes
Blankets / Craig Thompson
Bone / Jeff Smith
The Boulevard of
Broken Dreams / Kim Deitch
The Dark Knight Returns (Batman) / Frank Miller
David Boring / Daniel Clowes
Ed the Happy Clown / Chester Brown
Jimmy Corrigan: The Smartest Kid on Earth / Chris Ware
Palomar: The
Heartbreak Soup Stories / Gilbert Hernandez
Watchmen / Alan Moore e
Dave Gibbons
A volta de Jonny
Quest
Em julho, nós
apontávamos uma vitória de Joe Kelly, com a chegada ao volume de compilação de Space
Ghost em quadrinhos, ao lado do desenhista argentino
Ariel Olivetti. Agora, Kelly, que já roteirizou séries importantes como
Superman, JLA e X-Men, tem mais um desafio: ele foi escalado para roteirizar uma
nova série de quadrinhos de Jonny Quest, em 5 gibis, que será publicada em 2006
pela DC Comics. Para a empreitada, ele contará com os desenhos de Howard
Porter (de The Flash). Na verdade, o seriado de TV foi criado por um
quadrinhista: Doug Wildley (de Buffalo Bill, Hopalong Cassidy), Jonny e
seus amigos estrearam na TV, em 1964, e já tiveram uma série de HQs em
12 gibis, em 1986, sem muito sucesso, de vendas, apesar de contar com ótimos
artistas, como Bill Messner-Loebs, Bill
Sienkiewicz e Al
Williamson. Melhor
para os visitantes do 4º Salón del Cómic de Getxo, o salão basco dos
quadrinhos, que acontece de 2 a 4 de dezembro: Kelly é um de seus convidados
internacionais, e vai ter mais muito que contar, em quase primeira
mão...

O manhwa da
NBM
A mais que autoral
editora especialista em quadrinhos NBM, dos Estados Unidos, escolheu um ótimo
momento para divulgar seu primeiro manhwa. Ótimo para ela, pois os quadrinhos
coreanos nunca estiveram em tanta evidência, com a sua mega-promoção na Feira do
Livro de Frankfurt como para aqueles que gostam de mostrar o que
a Coréia do Sul pode oferecer em quadrinhos com conteúdo mais refinado. Com
o nome de 'Buja's Diary', a NBM está publicando um álbum com 13 estórias de
Seyeong O que mostram a vida política e social da Coréia, com um estilo que a
própria NBM define como poético e com uma estrutura narrativa próxima da do
cinema mudo. Na verdade, O realiza um trabalho que é fruto e uma paciente
pesquisa das possibilidades do uso de outras linguagens para os quadrinhos, como
o cinema a pintura e a fotografia. Um exemplo do estilo de O é a HQ
'Escape', em que a totalidade dos diálogos é substituída por
onomatopéias. Do ponto de vista do conteúdo, as HQs do Diário não são,
definitivamente, 'entretenimento': elas mostram vários momentos da história do
país, especialmente, os levantes estudantis dos anos 1980 que foram
espetacularmente anunciados pelos 'grandes' meios de comunicação e quase nunca
analisados no mundo ocidental. 2 páginas de 'Buja's Diary podem ser conferidas
aqui. Na
Coréia do Sul, o Diário de Buja foi lançado em 1995, e republicado em
2001. O álbum encadernado, de
272 páginas em preto e branco, tem preço anunciado de 20
dólares.

Wizard Mega
Postermania 2005
Mais uma brinde - a
preço muito razoável - está disponível para quem aprecia os desenhistas dos
quadrinhos de grande vendagem nos EUA: é a Wizard Mega Postermania 2005, que -
em 192 páginas, traz nada menos que 48 posters de personagens como X-Men, Homem
de Ferro, Vingadores, Homem-Aranha, Wolverine, She-Hulk, Hellboy, Conan e
muitos outros pelas mãos de artistas como Frank Cho, Joe Linsner, John Cassaday, David Finch, Andy Kubert, Marc
Silvestri, Joe Madureira, Steve McNiven, Eric Powell, Michael Turner, Mark
Bagley, Jim Lee, Joe Quesada, Greg Horn, Mike Mignola, Adi Granov, Cary Nord e
Terry Dodson. Além de trazer posters e outras artes já publicadas na revista
Wizard - a verdadeira referência no assunto - a Postermania promete trazer
algumas artes de HQs que só sairão publicadas em 2006. Um elogio cabe à capa
deste número, que procura dialogar com outros leitores que não os de
super-heróis e HQs próximas . Tudo isso, por 6 dólares (ou muito menos, em
lojas virtuais).