Sintra, centro
do humor
Já foram
divulgadas as bases para que os
artistas do humor do traço participem do maior certame de língua portuguesa na
Europa, o World Press Cartoon 2006, que vai premiar trabalhos publicados em
veículos de imprensa ao longo do ano de 2005. Assim, o certame é, também,
uma fonte de referência para o que se anda publicando, principlamente, no campo
da charge editorial.
A exposição das
obras selecionadas acontece em Sintra na primavera de 2006, no Sintra Museu de
Arte Moderna e também no Centro Cultural Olga Cadaval. O prazo para que os
trabalhos cheguem ao secretariado é 31 de janeiro de 2006. O vencedor deste ano foi Crist, cartunista do jornal argentino
Clarin. Aliás, foi a notícia 'caseira' que mais demorou para ser publicada neste
ano: o fato demorou nada menos que 6 semanas para ser publicado pelo próprio Clarin... que se tornou um forte concorrenete ao prêmio de mico jornalístico do ano.
A nova pérola
da Petit à Petit
O selo
francês Petit à Petit produz, relativamente, poucos volumes de quadrinhos,
ao lado de um grande número de livros para a juventude. Mas, normalmente, o que
sai com seu selo merece uma atenção e um carinho redobrados. Depois de '13
Poèmes de Victor Hugo en Bandes Dessinées', que foi destacado entre centenas de
títulos do mundo das bandes dessinées pelo The Comics Journal em sua edição
de número 268, a editora se valeu de seu grande conhecimento e cuidado na área
da literatura infantil para lançar a primeira versão
quadrinhizada de 'La Guerre des Boutons', romance infantil de Louis Pergaud que
foi um dos maiores clássicos do gênero na primeira metade do século XX e
que já foi adaptado para o cinema em 1962, por
Yves Robert, e por John Roberts, em 1994 (A Guerra dos Botões, em
português) e já teve uma versão ilustrada pela quadrinhista francesa
Florence Cestac. O álbum, idealizado por Olivier Petit, diretor da editora,
tem apenas 32 páginas e preço de 10 euros. A Petit à Petit contou com as
ilustrações da estreante Valérie Vernay (que já teve outros trabalhos como
colorista) e com o roteirista Mathieu Gabella, autor de um álbum BD -
'La Chute: les Prisons de Chair', sobre um dos episódios mais ricos
da história medieval da França a rebelião religiosa dos cátaros. O resultado do novo álbum,
lançado em setembro, e expresso por resenhas publicadas este mês é
muito mais que satisfatório. Claro, 90 anos depois, a humanidade não se
espanta mais com a 'absurda' adição que Pergaud trouxe à literatura: o linguajar
do povo, sem adaptações para a forma culta. Mas a força de sua parábola sobre o
belicismo na figura de garotos que inventam a guerra onde todos ficam nus ao
final da batalha onde o objetivo é arrancar botões da roupa dos contendores se
manteve presente e com acerto na transposição de suportes. E está de volta para
as mãos de mais alguns milhares de jovens. Quem sabe, em outros
idiomas.

A volta de Creepshow
Nem só pela mão da Marvel Stephen King volta a dialogar com os quadrinhos.
'Creepshow', filme de
Stephen King e George Romero, realizado em 1982, ganhará uma nova montagem em
2006. Em Creepshow, a ingenuidade de dois gêneros dos quadrinhos
dos anos 50, o terror e o pulp são o tema sobre o qual King
roteirizou um dos melhores filmes de Romero, um absoluto craque do gênero.
No total, são 5 estórias que são baseadas neste tipo de HQs. Para mais, o filme
deve trazer novos leitores e trazer outros de volta aos quadrinhos. Vamos
esperar pois, dentro do gênero, muitas revisões importantes estão sendo feitas,
e pode ser um apoio extra para que este tipo de quadrinhos seja conhecido em sua
real dimensão, para além da censura e do desconhecimento: o retrato de um
América ingênua que gostava de apimentar estórias. No caso de Romero e King,
eles sabem usar bem estes ingredientes há décadas.
O 1º DVD para
crianças com deficiência auditiva
Um DVD de
desenhos animados para crianças surdas foi lançado ontem, em Portugal, e
apresentado como sendo o primeiro DVD para crianças surdas do mundo.
O DVD adpata os desenhos animados da série
inglesa de TV 'Bob, o Construtor', destinado a crianças em idade pré-escolar,
que é transmitida pelo canal 2 da RTP. A tradutora de linguagem gestual, Paula
Teixeira, acedeu a um convite de Paulo Martinez, da empresa PSB, para
mostra em linguagem de sinais o que acontece no desenho: tanto diálogos quanto
música. A Associação Portuguesa de Surdos
saúdou a iniciativa na pessoa de seu presidente, que gravou uma mensagem que
está incluída no DVD reproduzida no início do filme.
Aprendendo com Robert
Kirkman
No dia 5 de
janeiro, a Image Comics estará pondo à venda, nos Estados Unidos, uma compilação
que vai tornar acessível uma parte fundamental de um dos mais bem recebidos
personagens do universo de super-heróis dos últimos anos, Invincible, criado por
Robert Kirkman. Depois do primeiro compilatório dos gibis, em julho, os roteiros que Kirkman usou nos 6
primeiros números da revista estarão reunidos em 'Invincible Script Book 1'. Em 40 páginas em
preto e branco e preço de 4 dólares, Invincible Script Book 1 terá capa do
colega de Kirkman na série, Cory Walker. Um bom título para os jovens
roteiristas de todo mundo começarem o ano aprendendo muito por um preço mais que
razoável.
Resenha: Xaxado Ano 2
Xaxado Ano 2, um
novo livro de 104 páginas que traz mais 365 tiras em preto e branco com as
estórias e história de Xaxado, o menino sertanejo de Antonio Cedraz, foi lançado
na Bienal de Livros da Bahia, em setembro. As tiras deste segundo volume foram
publicadas nos anos de 1998 e 1999. As estórias continuam sendo criadas por
Cedraz, com desenhos de Sidney Falcão, que mantem uma incrível fidelidade ao
traço original do mestre baiano dos quadrinhos (nem tão)
infantis.
A apresentação do livro traz um duplo detalhe revelador
da relação das HQs com a imprensa baiana: em primeiro lugar, é um jornalista
quem prefacia a obra, meu colega João Carlos Sampaio, que desde os bancos da
faculdade já ajudava os diversos segmentos da cultura baiana a se ver melhor. O
texto de João é muito feliz em apresentar a leitores mais exigentes as exatas
dimensões das tiras de Xaxado, Zé Pequeno, Marieta, Arturzinho e muitas
companhias, e ressalta seu profundo humanismo. NA apresentação da obra, o
próprio Cedraz nos conta que foi através da editoria de municípios do jornal A
Tarde (que era uma das glórias não re-conhecidas do jornalismo geral até pouco
tempo atrás, sendo o mais fiel espelho que um jornal brasileiro trazia da
totalidade dos fatos de seu estado, de longe. A Bahia é do tamanho da França,
ressalte-se) que as tiras começaram a chegar todos os dias a dezenas de milhares
de pessoas. Bem, uma palavra da
apresentação do Cedraz é chave para entender por que Xaxado não é somente mais
uma tira: 'matutar'. Cedraz tirou desse exercício, tão salutar ao homem e tão em
descrédito neste mundo dito pós-moderno, a origem e os contornos deste pequeno
grande mundo. Não somos convidados apenas a nos deleitar com algumas boas
risadas. O menino do interior resolveu ser generoso com a terra que o viu
nascer, e desfia, tira após tira, um retrato muito comprometido da realidade de
sua gente: dos párocos, do coronelato, da seca, das crenças e claro, das
brincadeiras de menino que os garotos que vivem entre o video-game e o
playground nem imaginam como sejam boas. Como bom matuto, Cedraz decanta suas
estórias.
Para nossa sorte, a generosidade vem associada a uma mão
segura e a um exercício de mais de 30 anos. Assim, temos uma variação
bem-amarrada sobre os temas, e um domínio da técnica da tira, que exige o
anticlímax rápido e certeiro que o mestre realiza tão bem, nestas sequências de
3 quadrinhos (quase todas) e umas poucas charges-cartuns de um quadro só. Assim,
algumas sequências como a da morte da galinha (páginas 28 e 29) funcionam
maravilhosamente em conjunto, mas que separadamente, também tem um efeito mais
que satisfatório. Em outras tiras, Cedraz consegue faz das tiras poesia e não
prosa, para falar da situação de sua gente, como na última tira da página 22.
A reunião em livro das tiras é um presente para quem possa pagar
os R$ 15,00 que a obra vale por mesclar como poucas, fantasia, estória, história
e reflexão.
Xaxado Ano 2 pode ser adquirido diretamente através da
página eletrônica da Turma do
Xaxado, onde há jogos, brincadeiras, tiras, a história de Cedraz e muito
mais.

2 prêmios para
MirrorMask
Os jurados do
Festival Internacional de Cine Fantástico de Sitges 2005 , encerrado no dia 18,
deram dois prêmios (entre 10) para MirrorMask, o filme dos
quadrinhistas Dave McKean e Neil Gaiman em parceria com os Estúdios Jim
Henson que mistura animação digital, boas doses das invenções de McKean e
atores reais: um para maquiagem, e outro, muito
mais relevante, para a direção artística. O visual, o forte de McKean, e o roteiro, de Neil Gaiman, continuam
não sendo unanimidade entre os analistas, inclusive, nos Estado Unidos. A
estória de Helena, menina que já mora circo e portanto não pode fugir dele, como
é o sonho de outras crianças, chegou aos cinemas americanos este mês.
Miécio Caffé: o
homem que primeiro caricaturou Pelé
Mais um artigo de
nosso amigo Ruy Jobim
Netto, qua acaba de ser escrito, pelo qual
agradecemos a autorização de ser republicado.
Para o baiano de
Juazeiro, que morava frente a frente com o São Francisco (hoje, um rio às portas
da UTI), que curtia atravessar as caudalosas águas a nado, desenhar a carvão em
paredes branquinhas, o homem que primeiro caricaturou Pelé e José Vasconcelos, o
criador imortal das Balas Futebol, qualquer crônica é pouca.
Muitas
matérias saíram sobre o grande caricaturista em razão de sua morte, em março de
2002, aos 82 anos de idade. Várias foram as entrevistas ou por ele concedidas ou
que ele mesmo empreendeu, durante os mais de 40 anos de residência em São Paulo,
com os maiores nomes da MPB, de quem era amigo pessoal, com quem bebia whisky.
Nem tão complicado é falar de Miécio, nem tão simples assim.
Fui o
curador de sua última exposição. Ocorreu em São Vicente, no litoral sul
paulista, mui singelamente, no espaço climatizado do CCBEU. Foi quando tive os
primeiros contatos com o passe-patourt. Só que desta vez eles eram para
emoldurar a obra do caricaturista que, inclusive, esteve no local para
prestigiar a si mesmo.
Miécio teve três momentos em vida, muito bem
separados. Um, da infância na Bahia, a juventude boêmia no Rio e os tempos da
soldadesca. O segundo, ao lado da amada esposa, a gaúcha Hedy, com quem viveu
até a morte dela, em 1992. E, finalmente, depois disso tudo. O terceiro desses
'movimentos', em adágio, foi o mais prolongado, o mais doloroso. Custou-lhe dez
anos. Quase um réquiem.
Eu o conheci em 1986, na USP, nas colméias
da Faculdade de Letras, numa palestra sobre quadrinhos, algo promovido pela
Circo Editorial (de Luiz Gê e Toninho Mendes), algo para promover os artistas da
casa. Miécio foi ao lado de Paulo Caruso. Miécio, de óculos escuros, sorridente,
e Paulo, todo reverente ao mestre, fazia-lhe escada. Eu era um ouvinte, entre
tantos.
Dez anos separaram esse momento do outro nosso encontro,
quando eu, já professor de Histórias em Quadrinhos, fui-me perguntado por uma
funcionária da Prefeitura de Praia Grande, a querida Carmen (filha da não menos
querida e de grande lembrança, a professora Graziela Dias Sterque). A pergunta
era se eu tinha notícia de que morava, naquelas paragens, um grande nome da
caricatura brasileira. Logo quis saber quem era. Miécio Caffé de Oliveira.
Propus-me a um telefonema para o artista.
Dele fiquei amigo,
comecei a freqüentar sua casa. Acompanhei-o a Piracicaba, naquela fatídica
passagem de agosto para setembro em que Lady Di morreu em Paris. No hotel, pela
TV por assinatura, víamos as notícias sobre o fim trágico da princesa. No
saguão, apenas a nata do nanquim brasileiro se tropeçava, encontrava,
cumprimentava, saía e entrava de vans em direção aos variados eventos do Salão
de Humor, em 1997. Miécio havia subido ao palco (com apresentação de Luis
Fernando Guimarães) ao lado de outros dois monstros sagrados, Rodolfo Zalla e
Lan. Os três foram homenageados.
Uma vez escrevi um artigo para o
site Agaquê, do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da USP sobre esses
dias ao lado de Miécio. Um filme foi feito sobre ele, um curta-metragem. Afinal,
em 35mm, nas telas, Miécio estará retido na memória dos que assistiram e dos que
irão assistir a esse curta. Miécio, por sua vez, não está em muitos compêndios
alfabéticos sobre a Caricatura nacional, o que não deixa de ser um deslize
desses livros. Tempos de correções e erratas, por favor.
A coleção
de discos de Miécio era algo de encher os olhos, mesmo sendo o rescaldo daquilo
que outrora foi, e que foi entregue aos cuidados do MIS, em São Paulo. As capas
com desenhos do artista eram briosas, as páginas antigas de jornal - todas muito
bem catalogadinhas pela companheira Hedy, ao longo de minuciosos anos - eram de
um cuidado só. Andar pelos quadros e fotos de Miécio ao lado dele era um
privilégio, inclusive o quadro de dona Hedy, sobre a cama dele, um quadro com o
efeito de enxergar, através dos doces olhos dela, quem quer que fosse, em
qualquer ponto do quarto. Miécio se sentia protegido por um desenho que ele fez
da esposa.
Ouvir música ao lado dele, não importasse o quê, era
outro privilégio. Vê-lo chorar ao lembrar a querida esposa, e de como pretendia
fazer-lhe companhia, era tocante. Ver as imensas galerias de fotos que ele
possuía de seus 'personagens' era passagem obrigatória. Lembro de Elis Regina,
aos montes, num de seus gavetões metálicos. Lembro de ele falar como o pincel
resolvia tudo, não ele. Tínhamos que perguntar ao pincel sobre a obra do
caricaturista. Trabalhadores incansáveis, os dois.
Um Pierrô no
traço de Miécio
Outro momento que me ficou retido na memória foi um
leilão promovido em São Paulo, em prol da saúde do grande artista. Muitos
famosos foram, um e outro canal de televisão também o fizeram, e é o tipo de
coisa que nos faz pensar que esses dias nossos de hoje são realmente muito
estranhos - passam pessoas pela nossa herança cultural, pessoas às centenas,
gente boa, feito Miécio, e os meios de comunicação em geral dedicam-lhes uma ou
duas linhas, um obituário (se for o caso), uma matéria de uma ou duas colunas,
um box pra preencher espaço - o famoso calhau - e no dia seguinte isso tudo é
assoberbado por um atentado terrorista aqui ou acolá e fatalmente enrolará
bananas ou peixes, dias depois.
Herança, enfim, está e fica retida
em nós, em cada momento. Somos inexoravelmente o resultado, para melhor ou para
pior, do que outros, anteriores, já experimentaram às expensas. Um acervo
artístico e humano como o de Miécio fica guardado na nossa memória, exatamente
como uma boa peça teatral. E, neste exato momento, entre uma roda ou outra de
whisky, uma roda bem boêmia, ao lado de Vinícius, Orlando Silva, alguns
jogadores famosos do passado - e a mais nova ingressa da turma, Emilinha Borba
-, estão lá Miécio e sua amada Hedy, juntos. Mesmo que ele esqueça o nome de
alguns ao cumprimentar, como era de costume. Mesmo que a esposa passe por trás
dele, infinitas vezes, e com toda a paciência do mundo continue a dizer,
eternidade afora: 'Miécio, esse é fulano de tal'.
Essa crônica me
foi encomendada por Eloyr Pacheco(*), o sujeito para quem certa vez mostrei uma
obra de Miécio, verdadeira raridade, de 1945, uma História em Quadrinhos do
grande caricaturista - algo bem no estilo Lee Falk - chamada Fu Manchu. Um
grande abraço, Miécio. E obrigado por ter conduzido o seu pincel com sua
baianidade tão universal.
(*)Entre outros
pontos de sua carreira, editor do portal Bigorna, onde tanto Ruy como eu próprio temos tentado colaborar para
criar um centro de referência sobre a Nona Arte no Brasil.