Quadrantes dos
Quadrinhos, 17/10/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do
material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
A BD no
Louvre
Uma exposição de
desenhos de Nicolas de Crécy, inaugurada no Museu do Louvre na semana
passada, está marcando o início da colaboração entre um dos mais importantes
museus de belas-artes do mundo e a coleção Futuropolis, um dos mais importantes
ícones dos quadrinhos franceses dos anos 70 e que foi retomada pela associação
entre as editoras de bandes dessinées Soleil e Gallimard. Para a
mostra, foi escolhido 'Période Glaciaire, álbum que integra a retomada da
coleção. A iniciativa partiu do próprio Louvre, que assim, abre mais espaços
para um artista que sempre vem surpreendendo, não só em quadrinhos, mas também
no cinema de animação pelas suas qualidades.
Toyfare
100
A
revista Toyfare - editada pela Wizard Entertainment - é a maior referência
em brinquedos de super-heróis nos EUA. A Toyfare chegou ao centésimo
número, este mês. Para celebrar o marco, os editores da revista incluem na
edição - em formato gigante - uma matéria mais que especial que traz 'tudo'
sobre a nova linha de brinquedos da DC, chamada Direct World, um
artigo sobre 500 action figures ligadas à série Star Wars e muito mais. Alguns
distribuidores estão vendendo a revista com brinquedos especialmente criados
pela Mattel. No suplemento de tiras Twisted ToyFare Theatre, o Dr Doom detona
vários brinquedos. A revista ainda apresenta os chamados The Four Horsemen,
coletivo de profissionais que realiza boa parte das estatuetas que fazem a
alegria de crianças de várias idades, nos EUA. Confira, aqui, uma ampliação da
arte da capa.
A livraria
Goscinny
Pelo menos uma boa
notícia acabou sendo impulsionada pelo lançamento do novo produto com o nome de
Astérix (cujas resenhas continuam se sucedendo num diapasão que chega perto
da incredulidade, de tão ruim que é). Em Paris, uma livraria dedicada às
obras de René Goscinny está sendo inaugurada na Rue Goscinny. Apesar
de formalmente não poder usar o nome do criador de Astérix, Lucky Luke,
Oum-pa-pah, Petit Nicolas e tantos outros personagens que o tornaram um dos gigantes da Nona Arte, por conta de uma decisão expressa de um dos membros da família, a livraria
vai acabar sendo chamada de Librairie Goscinny. Já na inauguração, realizada
juntamente com o lançamento de Astérix 33, a livraria contava com 150 títulos
diferentes, entre álbuns assinados por Goscinny ou obras a seu respeito. A
livraria, criada por um admirador de Goscinny também está lançando uma newsletter (à moda antiga, ou
seja, de papel) sobre o autor francês mais publicado do século XX.

50 anos
de Charles Burns. 10, de Black Hole
Charles Burns, um
dos maiores nomes da cena americana completou 50 anos no dia 27 de
setembro. Neste dia 18, uma compilação em capa dura de 352 páginas de
'Black Hole', marca os 10 anos de uma das HQs mais reveladoras da perda de
sonhos da juventude americana, focada em uma das cidades que tem sido o
verdadeiro vulcão desta mesma juventude: Seattle, a cidade de Burns. Os temas da
música grunge e da música de garagem de Seattle estão presentes em doses bem
maciças na série, que fala da transmissão do vírus da AIDS entre jovens, de
temas 'subversivos', 'politicamente incorretos'. Sempre em preto-e-branco, Burns, um dos fundadores - juntamente com Art
Spiegelman, de um dos marcos da moderna HQ americana independente a revista Raw,
é possuidor de uma forma singular de deformar as imagens para preenchê-las com
novos significados, sendo - também nesta área - um inovador de respeito.
Black Hole vem sendo publicada pelo selo da
mais que autoral Fantagraphics, à razão de um ou dois álbuns (graphic
novels) por ano, mas o compilatório tem o selo da Pantheon Books, e preço
anunciado de 25 dólares. Ainda em dezembro, Burns tem direito à uma
republicação antológica, aí, sim, pela Fantagraphics: com o nome de 'The Charles
Burns Library Volume 1: El Borbah', o original detetive 'El Borbah',
investigador de algumas das maluquices inventadas em nome da 'modernidade', que
ele lançou na Heavy Metal em 1983, também volta às estantes americanas, em
96 páginas. Vale sempre lembrar que o domínio de Burns sobre os segredos e
a arte do traço já lhe garantiram o direito de assinar capas de revistas
americanas que são referentes do 'bom gosto', como a Esquire e a
Time.

Shonen Jump em
home video
A revista sobre mangás
e animês mais vendida no mundo foi alvo de uma pesquisa, sobre a sua
versão japonesa, cujos resultados foram revelados na semana passada. No
Japão, 61.3% das meninas em idade escolar disseram que compram a Shonen Jump e
lêem as estórias, que são voltadas mais para os garotos. Nos EUA, onde
a revista é um pouco mais aberta, a Viz, detentora dos direitos da
Shonen Jump está lançando uma linha de produtos com o nome de
Shonen Jump Home Video Line, com filmes que já passaram pelo crivo da vendagem
como mangás nas lojas americanas. Os filmes começarão a ser vendidos
em dezembro. Em novembro, a edição da revista, que te 270 páginas,
nos EUA, trará Yu-Gi-Oh! como grandes destaques.
O salão
basco
De 2 a 4 de dezembro, a
cidade basca de Getxo realiza o seu 4º salão de quadrinhos, o IV Getxoko Komiki
Azoka, ou Salón del Cómic de Getxo. Getxo, cidade de 2.000 anos, é
banhada pela Bahia de Biscaia e fica na comarca de Uribe Kosta, vizinha a
Bilbao. A cidade tem uma população bastante jovem, e conta menos de 90.000
habitantes.
O salão
homenageia, este ano, os 60 anos do personagem Don Celes, criado por Olmo (Luis
del Olmo), em outubro de 1945. Don Celes já chegou a 15.000 tiras e é um
marco da Nona Arte Vasca, já tendo sido publicado em 4 continentes. A outra
homenagem vai para a gibiteria pioneira da cidade de Bilbao, a Tótem, que cumpre
25 anos de estrada este ano. A semana começou com o anúncio do cartaz oficial,
com o personagem Goomer, da dupla Ricardo y Nacho. O próprio Ricardo é um
dos convidados, juntamente com uma das lendas vivas da Nona Arte argentina
na Europa, Horacio Altuna, Carlos
Ezquerra, espanhol que tem um enorme espaço atualmente nos quadrinhos
dos EUA e o roteirista Joe Kelly (X-Men, JLA,
Superman). Entre os autores que confirmaram sua presença, temos Manel Fontdevila
(sobre o qual escrevemos no Quadrantes dos Quadrinhos
58). O salão merece uma torcida adicional de quem faz e aprecia a boa
crônica da Nona Arte: seu principal mentor é Borja Crespo, responsável por
algumas das melhores matérias sobre quadrinhos da imprensa diária
espanhola, autor de uma HQ, El Cielo
más Alto, pela independente Cabezabajo e também diretor do
Festival Internacional de Cinema de Comedia de Peñíscola. Os ingressos para cada dia custam apenas 1
euro.

O museu Go
Nagai
O mangaká Go Nagai
completou 60 anos, no mês passado. Mas o maior presente para sua carreira só
veio em outubro: a cidade em que ele nasceu, Wajima anunciou que vai construir
um museu em sua homenagem. O projeto começa a ser posto em execução agora em
novembro, e tem um custo baixo, para o porte da obra: 70.000 dólares, e ainda
menor do que as produções e trabalhos com os quais ele disseminou monstros
coloridos pelo mundo.
X-Men no cinema
e na TV
Criado no início
deste mês, um consórcio hindu, de nome FST, irrompe na cena
americana com um dos produtos que deve sacudir o
mercado desenhos animados baseados em super-heróis: uma série animada de 26
episódios para televisão baseada em um dos carros chefes da Marvel: os X-Men.
Pelo anunciado, os desenhos - que vão misturar técnicas convencionais com
efeitos em 3D começarão a estar em TVS do mundo todo em 2007, e a aposta
maior é na popularidade de Wolverine, que também é o personagem mais contemplado
na página eletrônica oficial do próximo filme dos X-Men, X-Men 3, aberta esta semana. O filme, com
atores do porte de Halle Berry, Hugh Jackman e Sir Ian McKellen, deve
estrear nos cinemas em maio de 2006.
O novo catálogo
das Editions du Triomphe
Recebemos com
muita alegria o novo catálogo das Editions du
Triomphe, publicado este mês. Reduzir numa nota o
que anda produzindo a editora que melhor publica quadrinhos católicos na França
além de inúmeras séries deliciosamente infantis é uma tarefa, digamos, pouco
agradável, pois as 40 páginas trazem uma sucessão de quadrinhos clássicos e
menos conhecidos que fazem a alegria de qualquer família que deseja colocar nas
mãos de seus filhos uma boa mistura de sonhos, bons desenhos e estórias
bem-contadas, o que inclui a história de João Paulo II em
quadrinhos, cujo 3º volume a editora anuncia para 2006; novas séries
integrais de Ric Hochet (que está completando 40 anos, em 2005),
Michel Vaillant, o maior
piloto de Fórmula 1 dos quadrinhos volumes que trazem 4 álbuns
cada. A continuidade de La Patrouille des Castors, considerada a melhor
BD de escoteiros de todos os tempos (que já vai pelo 12º álbum na
editora), as edições facsimilares de Tintin, Sylvain et Sylvette e
Bécassine, e os livros ilustrados de Babar são outras das séries mais
conhecidas que têm sua continuidade com o cuidado das Editions du Triomphe. O
novo catálogo também traz lançamentos que marcam a variação em
relação ao que já se espera da editora, como Les 7 Samouraï, adaptação de Mérou e
Pierre Forget para o filme de Akira Kurosawa, e um presente para a recuperação
de um dos marcos da BD de linha clara: o detetive Pat'apouf, série que Gervy assinou no jornal católico Le
Pélerin de 1938 a 1973, e que foi editado em álbuns pela (também
católica) editora Bonne Presse. O 1º álbum, lançado este mês, traz de volta
às estantes uma das melhores HQs católicas de todos os tempos, no sentido
de ser, efetivamente, 'quadrinhos' de muito bom humor, e não, uma parábola
católica.
Resenha: Ronin
Soul 2
O primeiro número de Ronin Soul, lançado em agosto, tinha sido um
ótimo cartão de visitas do ilustrador Rod
Pereira e sua arte pintada. Para mais, a revista acabou tendo uma
grande visibilidade por ser realizada online (o que valeu uma
reportagem sobre a HQ em uma das melhores redes de televisão do
Brasil) e pela aposta elevada para um primeiro número, no Brasil: 35.000
exemplares. Mas o roteirista Fabrício
Velasco e seus amigos, nem
na revista, nem no site oficial,
deixaram antever como seria o segundo número, que acaba de chegar a lojas,
livrarias e bancas do Brasil, com um excelente contraponto ao primeiro
gibi. Sem o segundo número, na nossa opinião, o primeiro gibi acabava dando
a impressão de ser um 'produto' pensado para vender muito: uma
temática atual (ronins) para um novo público em ascensão (os mangakás), muito
bem executada e editada, com boas artes. Ronin Soul 2 traz algumas
reviravoltas muito enriquecedoras. A entrada em cena de 4 personagens
que ainda estão desconexos pelo mundo (na Itália, EUA, Brasil e Japão), que
vivem no início do século XXI, não só traz uma dinâmica toda nova para a saga
como permite realizar o que não tinha sido feito no número 1. Velasco agora nos
apresenta uma verdadeira estória em quadrinhos, com as possibilidades desta
arte, bem diferentemente de Ronin Soul 1, que poderia ter sido um roteiro
de muitas outras formas de expressão. Velasco utiliza bem mais os cortes
narrativos e a multiplicação de referências, em doses
muito acertadas, tecendo a trama de forma consistente, e nos dando
aquele gostinho de querer voltar na leitura, em que o gibi é gostosamente
parecido com o livro. A bela surpresa do segundo gibi acaba jogando
uma luz completamente nova sobre o primeiro e valorizando todo o arco, e além do
mais, cria uma expectativa muito maior sobre a sequência. Se as duas fossem apresentadas (ou enunciadas,
ao menos) em conjunto, o vigor do trabalho ficaria mais claro, especialmente,
por que nossos autores apresentaram o gibi como graphic novel, o que não era o
caso, o que atrapalhou um pouco o entendimento dos profissionais do setor. Sugerimos
que nas próximas edições, no Brasil ou fora, estas indicações sejam dadas aos
leitores. 4
canjas do segundo número podem ser vistas aqui, mas que mantem o espírito
desta resenha: não contar detalhes e tirar o interesse de ler a revista,
que vale os R$ 6.90 pelas 22 páginas de quadrinhos editados em papel de ótima qualidade e que vem com
direito a um poster e a uma introdução ao mundo do clã dos ninjas
Hattori.