Quadrantes dos Quadrinhos, 13/10/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos


 
O cartunista do WWF
 
A edição de hoje do jornal madrilenho El País, um dos maiores da Europa (em circulação e respeitabilidade) trouxe uma matéria reveladora sobre o holandês Sigfried Woldhek, ex-dirigente máximo do WWF (o Fundo Mundial para a Natureza) a nível mundial, que também é... cartunista. O artigo fala sobre a sua visão da Internet como ferramenta para que ações ecológicas estejam sendo desenvolvidas em 99 pontos de 16 países. A partir da matéria de El Pais, pesquisamos e chegamos ao portal pessoal de  Woldhek, nascido em 1951. A sua página pessoal é reveladora de como ele concebe a caricatura, que não é feita principaleente de exageros faciais, mas de um retrato afetivo em que o caricaturado é mostrado em quase biografemas visuais, com elementos que o definem como ser no mundo. Na galeria de artistas caricaturados, apesar da predominância de seus conterrâneos, temos um desfile visual de dezenas intelectuais que têm feito as mentes evoluídas pensar ao longo dos últimos séculos: Gide, Proust, Nietzche, Rilke, Duchamp, Nabokov, e muitos etcs...Um único artista da 9ª Arte está ali representado: Marten Toonder. Não deixa de ser uma coincidência poética que um homem com tantos pendores, tão aberto ao mundo e tão pouco conhecido se dê o trabalho de caricaturar hoje quem já foi 'moda' e atualmente está no limbo, como os dissidentes soviéticos (e ótimos escritores) Andrej Amalrik e Osip Mandelstam. Em tempo: as caricaturas expostas no site estão à venda, por preços bastante razoáveis....

 
A nova pérola da TwoMorrows
 
Com o título de ''The Dark Age: Grim, Great & Gimmicky Post-Modern Comics', a TwoMorrows, responsável por algumas das melhores revistas sobre quadrinhos nos EUA faz uma homenagem aos quadrinhos dos anos 80 e 90 e deste início de milênio com uma senhora seleção de entrevistas: Todd McFarlane, Dave Gibbons, Jim Lee, Kevin Smith, Alex Ross, Mike Mignola, David Lapham, Joe Quesada, Mike Allred e ainda, muitos outros artistas. O autor da obra é o pesquisador Mark Voger, que já publicou, pela mesma TwoMorrows, Hero Gets Girl!: The Life & Art of Kurt Schaffenberger, que ajudou a recuperar a trajetória de um dos melhores artistas por trás da fama de Lois Lane e do Capitão Marvel. 'The Dark Age... tem 168 páginas, preço anunciado de 20 dólares e estará à venda em dezembro.
 

A Vertigo relança V for Vendetta
 
Um dos mais importantes títulos dos quadrinhos americanos nos últimos 20 anos, V for Vendetta (V de Vingança) está prestes a virar filme (apesar de sérias restrições de seu roteirista, Alan Moore). Mas parece que a briga entre o quadrinhista e a editora DC Comics por conta do filme não chegou ao ponto de impedir que suas contribuições únicas deixem de chegar às mãos dos leitores, principalmente os mais jovens. A Vertigo, o selo adulto da DC, tem mais um presente este mês: chegou ontem às gibiterias americanas a reedição da obra, em um único volume de 296 páginas, em capa dura, ao preço anunciado de 24 dólares. A nova versão desse libelo contra o totalitarismo traz 8 páginas adicionais de desenhos de David Lloyd e segue a segunda versão da HQ, a colorida. Para quem ainda não conhece a obra, indicamos este texto do site brasileiro dedicado a Alan Moore. 
 
 
A arte de Stan Sakai
 
Provavelmente, nenhuma outra série contribuiu tanto como Usagi Yojimbo, de Stan Sakai, para que o resto do mundo descobrisse que o manga é uma forma de expressão dos quadrinhos que permite muito mais do que grandes olhos e bocarras. Criada em 1985, e rapidamente 'pescado' pelos olhos atentos da Fantagraphics em 1986, a série foi publicada em todos os países que têm um mínimo de estruturação do mercado de quadrinhos. Em fevereiro, na mesma linha de 'The Art of Sin City' e 'The Art of Hellboy', a Dark Horse vai lançar uma versão encadernada do livro em capa-dura que ganhou 2 prêmios Eisner pelo cuidado editorial: The Art of Usagi Yojimbo, que terá 200 páginas ao preço de 30 dólares, tornando mais acessível a arte e os ensinamentos Stan Sakai. O volume ainda traz ilustrações de fãs do coelho ronin do porte de Frank Miller, Jeff Smith, Sergio Aragonés e Matt Wagner.

 
A nova série do Homem-Aranha
 
Os primeiros gibis de 'Friendly Neighborhood Spider-Man' (com o identicamente bem marketeado subtítulo de 'Spider-Man: The Other: Evolve or Die, Part One: Shock') , que tem roteiro de Peter David e desenhos de Mike Wieringo, às mãos dos resenhistas americanos, tornando mais fácil saber as possibilidades e o sentido da (mais uma - a quinta, se não nos perdemos) nova série do Homem-Aranha. Os dois já tinham assumido o personagem antes, mas nunca em conjunto. Wieringo se esforça em manter o Cabeça-de-Teia dentro do perfil que dezenas de milhões de pessoas conhecem em todo o mundo, enquanto David criou um roteiro que também é - digamos -  convencional, no qual Peter Parker têm alguns pesadelos próprios de sua condição de meio-aracnídeo (o que caba gerando algumas sequências interssantes) quando entra em cena um novo super-vilão, Tracer. Mas a trama vai demorar para aquecer, até por que, mais uma vez, uma série da Marvel está condicionada aos chamados crossovers com outras séries. Mas deve trazer de volta muitos leitores do Homem-Aranha. Uma edição especial, com capa de John Romita Sr. e preço de 20 dólares vem tendo excelentes vendas.

 
Geoff Dunbar ilustra livro de Paul McCartney
 
O primeiro livro de Paul McCartney chegou aos EUA esta semana: High in the Clouds (traduzido no Brasil como ''Lá no Alto das Nuvens'), que tem como protagonista um esquilo e é ilustrado por Geoff Dunbar. O Beatle teve o cuidado de procurar o apoio de um autor especializado em literatura infantil, Philip Ardagh. O bom e exigente jornal londrino The Guardian destacou Philip Ardagh como autor infantil do mês de julho na Grã-Bretanha, pela obra. Se bem que o próprio Ardagh diz que a presença do ilustrador e animador Geoff Dunbar com vários desenhos não faz de High in the Clouds um livro ilustrado, a rigor, a escolha de Mc Cartney repete o cuidado que Madonna teve com este aspecto. Dunbar está no setor da animação há 31 anos, e já faz parte da carreira de Paul há mais de 20 anos, desde os tempos em que a estória infantil 'Rupert and the Frog Song' foi para a TV, em 1985, criada por Paul e realizada por Dunbar. Bom saber que um dos maiores nomes da cultura mundial mantem boas parcerias antigas e acerta a mão em novas misturas entre as artes. Melhor para o leitor

 
A IWW segundo Harvey Pekar
 
A IWW (Industrial Workers of the World) é talvez a maior das organizações operárias dos Estados Unidos que conseguiu fugir ao peleguismo da central sindical americana AFL-CIO (que por sinal, rachou ao meio, este ano). Agora, a sua trajetória de lutas e de solidariedade com vários povos ao longo de mais de 100 anos - em especial de um de seus setores mais aguerridos, os Wobblies - é mostrada em um álbum de 306 páginas, que conta com HQs de autores do porte de Harvey Pekar, Peter Kuper, Trina Robbins, Seth Tobocman (que não é o Seth vencedor do Eisner, e sim, um quadrinhista independente de Nova York), além de cartuns dos próprios artista da IWW (muitos dos quais podem ser vistos na página eletrônica da entidade), chamado 'Wobblies!: A Graphic History of the Industrial Workers of the World'. Assim, a Nona Arte traz uma contribuição para que a trajetória da IDW, dos discursos de  Emma Goldman (brilhantemente biografada no Brasil por Elisabeth Souza Lobo) à solidariedade com os trabalhadores mexicanos seja conhecida e - esperamos - passada de mão em mão. Não 'por caso', a obra lançada em abril só veio a ser divulgada agora, pelo portal Last Gasp, tendo tido um tratamento totalmente diverso de HQs que foram encomendadas para incensar gente que além de não ter nada a ver com a Nona Arte, ainda se mostrou dócil aos poderosos do mundo, uma vez no poder.  
 
Os editores da obra são Nicole M. Schulman, também responsável por um alentado livro sobre a realidade política e social de Marselha nos séculos XII e XIII e Paul Buhle, pesquisador de cultura americana na Brown University. O número ISBN do livro é 1844675254 e o preço praticado, 25 dólares.

 
Astérix: o bom fim?
 
Apesar do Le Nouvel Observateur contar com uma das melhores jornalistas de quadrinhos que uma revista mantem no mundo - Laure Garcia - foi a editoria de economia do semanário quem trouxe uma notícia que consideramos confortante. Ao final de uma matéria que esmiúça as cifras o 33º álbum de Astérix, vem uma declaração do desenhista Albert Uderzo (que continuou a solo os álbuns depois do falecimento do roteirista René Goscinny, em 1977): se depender dele, a série não terá outros desenhistas ou roteiristas após o seu falecimento, seguindo o que Hergé fez com Tintin. Como no caso de Astérix, Albert Uderzo tem o poder, em boa medida, para definir sobre a continuação ou não da série, esperamos que ele não mude de idéia, pis a simples sequência que ele assinou sozinho já diminuiu imensamente a qualidade artística da série. Com a exceção (que confirma a regra) de Franquin em 'Spirou', ainda não houve caso de série de bandes dessinées em que os seguidores mantivessem a qualidade do original. Aliás, o último caso foi o retorno de Cubitus, que anunciamos em maio.  Pelas primeiras resenhas, era melhor não ter acontecido...

O novo blog do Neorama dos Quadrinhos
 
Nós já criamos um blog para poder participar do Tebelogs, a maior central mundial de blogs de quadrinhos do mundo, para publicar, principalmente, notas em espanhol. Agora, aproveitando a nossa própria dica de ontem, criamos um blog no Voy, no qual pretendemos tornar mais ampla e ágil a nossa publicação, principalmente de releases recebidos e de comunicados oficiais para o Neorama dos Quadrinhos e também para o Neorama da Cultura.  Apesar do Voy não ter tantos recursos como outros geradores de blogs, a sua atualização é mais rápida e permite que a visibilidade do nosso trabalho ganhe mais um ponto onde ele é condensado. Portanto, pedimos a quem tenha releases que nos enviem, mas sem imagens ou anexos (esperamos não receber os típicos in-comunicados do tipo 'aê, tem umas ilustras novas no meu site'). Lembrando que, claro, links com notícias, comentários e análises sobre a Nona Arte sempre continuam bem-vindos.
 
 
40 anos do 1º fanzine brasileiro
 
O Neorama dos Quadrinhos pediu autorização para publicar este artigo, de autoria do jornalista Edson Rontani Jr.
 
Uma das formas considerada manufaturada de ser fazer uma publicação completou nesta quarta-feira seus 40 anos de lançamento no Brasil. Foi em 12 de outubro de 1965 que o desenhista de Piracicaba (SP) Edson Rontani criou o primeiro fanzine nacional. Na época, o informativo nem era denominado de fanzine, tanto que o 'Ficção' foi lançado com o nome de boletim informativo para amantes das histórias em quadrinhos.
 
O termo fanzine foi muito utilizado nos Estados Unidos incorporando-se à linguagem brasileira no início dos anos 70. Ele deriva das palavras 'fan' (fanático) e 'magazine' (revista), entendendo-se por ela como sendo a revista do fã.
 
O fanzine era, quando criado, uma publicação alternativa e de baixo custo, utilizando-se de poucos recursos numa época em que máquinas copiadoras (como a Xerox) ainda eram objetos caros e sua utilização não havia sido tão disseminada quanto hoje. O computador pessoal (PC) nem havia sido criado. Restava então a opção de impressão em clicheria, mas o alto custo das gráficas impedia qualquer projeto desenvolvido pelos pequenos inovadores. O recurso de cópias na época era, então, o mimeógrafo a tinta e mais tarde o mimeógrafo a álcool onde o estêncil reproduzia uma quantidade limitada de reproduções.
 
Foi assim que sem setembro de 1965, Edson Rontani usou de sua habilidade de desenhista e uma máquina de escrever para lançar o 'Ficção' que teve duração de pouco mais de uma dúzia de edições. A impressão era feita em mimeógrafo a tinta, portanto, preto e branco. Nele, foram divulgadas curiosidades sobre personagens de histórias em quadrinhos (Batman, Superman e outros), editoras da época (Rio Gráfica, Editora e EBAL, entre outros) e publicações (O Lobinho, O Tico-Tico entre outros). Rontani catalogou nas edições deste fanzine tudo o que era de seu conhecimento pois até esta época não havia sequer um levantamento das revistas em quadrinhos publicadas ou quais editoras foram fundadas no país. Como colecionava revistas desde sua infância, ele as estudava e guardava dados históricos para dividir com outros colecionadores estes conhecimentos.
 
A tiragem dos primeiros fanzines era de 600 cópias distribuídas pelo correio entre colecionadores de revistas em quadrinhos. Nos arquivos deixados por Rontani, constam fichas de destinatários dos fanzines os nomes de José Mojica Marins (o 'Zé do Caixão'), Gedeone Malgola, Adolfo Aizen, Maurício de Sousa, Jô Soares, Lyrio Aragão e outros desenhistas ou aficionados em quadrinhos.
 
O lançamento do primeiro fanzine ocorreu no dia 12 de outubro de 1965, talvez por seu autor ser devoto de Nossa Senhora Aparecida, fato este nunca assumido por Rontani. Depois do 'Ficção', em 1971 ele lançou uma nova versão intitulada 'Fanzine Ficção', depois em 1974 lançou o 'Universo H.Q.', finalizando o ciclo de fanzines com o 'Rontani Fanzine' em 1982.
 
Rontani tinha paixão pelos quadrinhos chegando a passar por suas mãos mais de 170 mil exemplares de histórias em quadrinhos. Possui juntos ao mesmo tempo cerca de 74 mil exemplares. Foi desenhista artístico e lecionava desenho em seu Instituto Orbis, situado no centro de Piracicaba. Criou - em 1948 - o 'Nhô Quim', personagem considerado como mascote do E. C. XV de Novembro de Piracicaba. Sua memória é perpetuada até hoje pelo Jornal de Piracicaba com a publicação semanal da coluna 'Você Sabia?' que ele editou de 1982 a 1997, ano em que faleceu. Aposentou-se como desenhista técnico da Secretaria Estadual de Agricultura.