Quadrantes dos Quadrinhos, 07/10/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos


 
Angoulême 2006
 
Os organizadores do maior festival de bandes dessinées, o de Angoulême (ou FIBDA), divulgaram, nesta quinta-feira, por meio de sua newsletter um programa prévio da próxima edição, a 33ª, que acontece de 26 a 29 de janeiro de 2006. As principais exposições incluem a do eleito para ser o presidente do festival, Georges Wolinski, que terá uma retrospectiva a partir de trabalhos da época em que o tunisino oxigenou com muito vigor o humor de traço satirizando os costumes sexuais e a falsa moral dos políticos franceses: os anos 60. Uma grande exposição organizada pelo próprio FIBDA mostrará as inúmeras ligações 
entre as antevisões de Júlio Verne e o universo dos quadrinhos (esta exposição será montada em Nantes, agora em novembro). A nova expressão da Nona Arte na Finlândia, que já foi contemplada em eventos internacionais em Portugal e na Suíça, terá direito a uma mostra de 45 originais, de vários autores. A revista sobre quadrinhos para crianças Capsule Cosmique, editada pela mais que cuidadosa editora Milan, vai organizar várias atividades para crianças. Como tributo a quem faz a BD evoluir e crescer, uma  exposição com a participação de vários autores vai homenagear uma das coleções que mais valorizam o quadrinho autoral na França, a Poisson Pilote, da Dargaud. O quase desconhecido tirista japonês Shiriagari Kotobuki foi contemplado com uma exposição, também.

 
É hora de Harvey Pekar
 
Harvey Pekar, cujo 'American Splendor' não só renovou paradigmas dos quadrinhos mas também virou um filme que conseguiu agradar ao grande público e aos críticos mais exigentes, volta a ocupara a cena da Nona Arte americana com 'The Quitter', desenhado por Dean Haspiel, quadrinhista independente que também assinou 'American Splendor' , e publicado pela Vertigo, que chegou às gibiterias americanas no dia 5.  Em 'The Quitter', Pekar fala - com bom e fino humor - sobre sua infância como filho de uma família de judeus poloneses em Cleveland até boa parte de sua maturidade (Pekar completou 66 anos no dia 8), o que inclui sua passagem como crítico de jazz pela revista Down Beat. Na parte da infância, o espírito judaico polonês de sua mãe o coloca em uma situação complicada, pois ela quer que o pequeno Pekar, único garoto branco em seu bairro, veja nos meninos negros que o tentam surrar todos os dias, colegas de 'situação'. Daí até a situação de ser alguém que se manda ('quitter'), sai a trama, que, sim, tem muito a ver com American Splendor. 'The Quitter' tem 104 páginas em preto e branco, capa dura e preço anunciado de 20 dólares.
 
Também com a assinatura de Dean Haspiel, Harvey Pekar está publicando, na nova edição americana da revista Playboy, The Real Harvey, uma HQ de 2 páginas em que ele mostra com bom humor um pouco de seu ofício, usando o recurso de falar sobre o pedido da Playboy para a HQ. 
 
 
O salão eslovaco
 
Nos dias 14 e 15, acontece a segunda edição do maior evento dos quadrinhos eslovacos, o Comics Salón, em Bratislava. Com a debilidade da cena local de quadrinhos, ditada por vários motivos, os mangás e os animês vão ocupara quase todos os espaços do evento, com subprodutos típicos de eventos de otakus, como cosplay e torneios de RPGs. Haverá exibição de 3 filmes que são referentes da produção americana nos últimos tempos: Batman Begins, Constantine e Sin City. Mas a última atualização do site oficial revelou a preocupação dos organizadores em garantir um espaço para a discussão e incremento da cena local e imediatamente próxima: haverá também oficinas de mangás para jovens desenhistas, sessões de autógrafos com autores locais, como Martina Pilcerová, fortemente influenciada pelo gênero fantasia; Juraj Maxon, que segue o mesmo gênero e já obteve alguns prêmios internacionais e Adam Pelda, que tem influências do mangá. 2 palestras, dos pesquisadores e editores de quadrinhos Jiří Pavlovský e Stepan Kopřiva, vão levar um pouco do muito que eles conhecem da história das HQs na Eslováquia e na Tchéquia aos jovens que se farão presentes. Entre os convidados internacionais, nenhuma estrela: o maior destaque é um polonês Jacek Frąś, vencedor do prêmio de melhor jovem talento no festival de Angoulême, em 2001. Os grafiteiros Slaven Kosanovic - croata- , do Lunar,  e o búlgaro Valeri Gyurov  marcam a presença dos Bálcãs no evento, que conta ainda com 2 egípcios e um fanzineiro francês: Simon Liberman. 

 
A Cantábria vê mais longe.
 
Depois de 'Operación Koala', álbum de HQs de Iñigo Ansola que conta a história da Cantábria e de 'Una Aventura en el Tiempo', desenhado por María Isabel G. Mingo com roteiros de José Luis Casado Soto que conta a história do porto de Santander desde há 4.000 anos atrás e que foram lançados em abril, e de 'El Hombre Pez', de Laura Sua e Luis Miguel Artabe, que reconta a estória quase lendária de um 'homem-peixe' passada em 1674, lançado em junho, a Cantábria traz este mês, mais duas boas notícias: no dia 13, esta 'imponderável' realidade que é o coletivo 'Astillero por la Cultura', na cidade de El Astillero abre a exposição relativa ao seu 7º concurso de quadrinhos, para jovens até 16 anos. Muito mais longe, a Cantábria foi até um dos pontos mais indicados este ano para se divulgar um projeto de quadrinhos este ano, em todo o mundo: a Expo de Aichi, o maior evento do ano, no Japão, dando um pequeno 'troco' à invasão dos mangás, com uma obra preparada especialmente para a ocasião: o governo regional da Cantábria promoveu a publicação de um álbum especial de Pedro Soto, desenhista de Santander, que foi procurado pelo órgão de turismo daquele governo (e não o contrário) que teve roteiro de Jesús Varas, presidente da Asociación de Amigos de la Narración Gráfica,  para mostrar - em quadrinhos  - as belezas e a rica história da região do norte da Galícia. Com o título de 'Cantabria, entre el Verde y el Azul: Diario de un Viaje', o álbum teve 10.000 exemplares que oram distribuídos em setembro no pavilhão espanhol em Aichi. A obra tem como protagonista uma jovem japonesa que acaba 'viajando', com amigos pela Cantábria. O primor de cuidado com a obra se revela no tradutor escolhido: ninguém menos do que o quadrinhista hispano-japonês Ken Niimura, que entende muito bem das duas culturas e da mentalidade japonesa.
 
Motivos mais que suficientes para ficar de olho na 3ª edição do Salón del Libro Infantil y Juvenil de Cantabria, que deve ocorrer em abril de 2006, vencido - este ano - por Mikel Valverde, um artista que - não por caso - transita muito bem entre quadrinhos e ilustração. Na edição de 2005, vale também registrar o projeto de coleta de livros infantis para crianças do Saara. chamado Sahara un Pueblo en el Exilio. Uma convocação extra aos artistas do traço também foi feita pela cidade de Ayuntamiento de Castro Urdiales, com prêmio de 600 euros, para o cartaz das festas de San Andrés 2005, cujo prazo foi encerrado no dia 28 de setembro.
 
 
Um presente no Dia das Crianças
 
Cassiopéia, o primeiro longa-metragem 100% modelado, animado e com imagens geradas totalmente por computador em todo o mundo, será exibido no dia 12 de outubro, Dia da Criança no Brasil, pela rede estatal TVE, para todo o país, às 16h00 (horário de Brasília). O filme de Clóvis Vieira foi um pioneiro do cinema virtual e das aplicações em 3D. O filme tem 80 minutos e custou U$ 1.500.000, um orçamento pequeno, em termos mundiais, e demorou 4 anos para ficar pronto. Apesar do que tentam dizer alguns arautos da Disney, Toy Story não foi o primeiro filme virtual da história, pois usou modelos em argila. Cassiopéia é sobre uma crise em Atenéia, planeta da constelação de Cassiopéia, cujos habitantes vivem em harmonia e (portanto) em felicidade., até que intrusos aparecem para absorver a energia de seu Sol. No site oficial de Clovis Vieira, você não só encontra todos os motivos para não perder o filme como também, a descrição de 3 estórias suas em quadrinhos: Strego, o Mago, Pifft, o morceguinho aventureiro, e Geração de Aquário.
Graphic novel sobre paleontólogos
 
Depois de ter enriquecido os quadrinhos com algumas obras que têm feito - muito bem - a ponte com as ciências, como em 'Suspended in Language', sobre 2 dos maiores refundadores do pensamento da física, Niels Bohr e Werner Heisenberg, Jim Ottaviani lança 'Bone Sharps, Cowboys, and Thunder Lizards' que mostra 2 paleontologistas e seu trabalho único no século XIX: Edwin Drinker Cope, que catalogou nada menos que 1.200 espécies animais, e Othniel Charles Marsh, que já nasceu predestinado a ser levado às ciências, sendo sobrinho do grande filantropista George Peabody, a quem convenceu a fundar o Museu de História Natural de uma das maiores universidades americanas: Yale, numa época em que ser paleontólogo - mais do que hoje - envolvia fortes doses de aventuras e convívio com personagens do mais puro western. Ottaviani não é nenhum para-quedista no mundo dos quadrinhos: ele já realiza (e pensa) obras desse tipo há mais de 10 anos; portanto, ele já conhece muito bem os meandros que fazem de uma HQ uma estória interessante, e não uma transcrição de uma outra estrutura narrativa.
A HQ também aproveita para fazer a ponte com vários personalidade que enriqueceram os sonhos possíveis da América de então: a começar por Charles R. Knight, o primeiro ilustrador a tornar conhecidos os dinossauros por amplas camadas da população, P.T. Barnum, dono do circo mais popular dos EUA naquela época, o herói do ideário americano Buffalo Bill, e o inventor Alexander Graham Bell. Assim, Ottaviani amplia o enfoque sobre a inventividade dos 2 cientistas para um quadro mais geral, próximo da verdadeira aventura que eram as descobertas, naquele tempo.   
 
A capa é de Mark Schultz (ganhador de 5 prêmios Harvey e 2 prêmios Eisner), e os desenhos do coletivo Big Time Attic (leia-se Zander Cannon, Shad Petosky e Kevin Cannon). A obra encadernada, em 168 páginas em formato italiano, em papel sépia, tem preço anunciado de 23 dólares. Um guia está sendo preparado para que o álbum seja usado adequadamente em salas de aula.

 
O Hulk de Eric Powell
 
Marvel Monsters Devil Dinosaur, cujo primeiro número saiu no dia 5, pela Marvel,  não é apenas 'mais uma' revista do Hulk ou 'mais uma' estória sobre dinossauros, apesar de uma trama razoavelmente já vista: um debate nos primórdios da terra sobre a supremacia entre seres e que acaba com a irrupção de Hulk em cena, combatendo um dinossauro, com roteiro de Eric Powell, ganhador de inúmeros prêmios merecidos, como o Eisner, por sua série The Goon'. A começar pelo fato que a revista, em 48 páginas e preço de 4 dólares, também traz a republicação da primeiríssima estória do Hulk como Xemnu the Titan, criada por Jack Kirby no início dos anos 60. E, claro, por que a estória de Powell não é uma HQ de porrada e, sim de irreverência. Ponto para a Marvel que começa sua série 'Marvel Monsters' de uma forma duplamente interessante, com 2 estórias fechadas que devem ser lidas por novos leitores e chamar a atenção de velhos apreciadores de gibis.
 
 
O mundo pós-moderno, pela Vertigo
 
Esta semana, relendo o excelente catálogo da editora Delcourt para o ano de 2005, nos ocorreu a necessidade de escrever um comentário sobre a visão que determinadas pessoas ainda têm dos quadrinhos. Na verdade, quem lê bons quadrinhos de variadas tendências e latitudes, está mais vacinado para perceber a amplitude dos movimentos das corporações sem rosto que tomam controle do mundo cada vez mais do que quem consome as chamadas hard news dos jornalões, submetidos por sua lógica comercial a dizer sim a estes arautos do mundo pretensamente 'sem história'. Agora, a Vertigo, selo adulto da DC Comics, faz mais uma importação aos quadrinhos que pode somar boas doses de reflexão sobre o tema. Trata-se de Testament, roteirizado por Douglas Rushkoff,  vencedor de um prêmio Marshall Mcluhan e consultor da ONU para assuntos culturais. Testament, diferentemente de outros marcos dos quadrinhos, não coloca mais o domínio da mentira institucionalizada como algo que vai acontecer no futuro. A HQ vai além do enunciado, e mostra como este novo tipo de fascismo se vale de noções difundidas no mundo Ocidental desde há séculos. O artifício narrativo usado por Rushkoff é imaginar como seria a Bíblia se estivesse sendo escrita nos dias de hoje. Para mais, os desenhos são de do inglês Liam Sharp (de Juiz Dredd, X-Men e Hulk), que, pelas artes já divulgadas, parece estar em seus melhores momentos. Aliás, Sharp diz que este é 'o' trabalho de sua carreira. Testament chega às gibiterias americanas em dezembro.

 
2005 termina bem na Image
 
No dia 7 de dezembro, chega às gibiterias americanas a revista com a qual a editora especialista Image Comics celebra um bom ano, em novos títulos e retorno dos leitores (que deve ser reforçado por um de seus bizarros lançamentos, este mês: uma versão mangalóide de Spawn). Trata-se de Image Comics Holiday Special 2005. Em 100 páginas, ao preço de 10 dólares, a revista traz HQs inéditas de autores das séries que fizeram deste um ano bom para a editora, que publica uma enorme variedade de estilos. A listagem de autores mostra uma predominância de bons roteiristas, mas o time de ilustradores começa com o capista, muito bem selecionado: Frank Cho. Compõem o especial, entre outros, Joe Casey, Robert Kirkman, Scott Kurtz e Jim Valentino. Ainda em dezembro, a Image lança mais uma série de ficção científica bem ao estilo do roteirista Steve Niles, Bad Planet, cheia de aracnídeos... e a série The Intimidators, que confirma a ascensão do desenhista português Miguel Montenegro na cena americana, um sketchbook de Arthur Suydam (artista mais conhecido do grande público por seu trabalho em Conan), Blood River uma graphic novel roteirizada por Michael Avon Oeming baseada em fatos reais da juventude dos anos 70, um álbum do independente e criativo Jim Mahfood sobre One-Page Filler Man, um super-herói filósofo algo doido.

 
Horror em Nashville
 
Neste final de semana, os criadores de quadrinhos de um dos gêneros preferidos pelos americanos, o terror (ou horror, como preferirem), se encontram em Nashville, no Tennessee, na 5ª edição do October Comic Horror Fest, que também tem a presença de atores de filmes do gênero. Para um festival que não mereceu espaços maiores dos colegas da crônica americana, as presenças de realizadores são mais que representativas, pelo alcance de seus quadrinhos, seja em vendas, seja em possibilidades narrativas: Bob Burden (da inteligente série Flaming Carrot), Eric Powell (The Goon) e Phil Hester (que é mais conhecido por seus quadrinhos de super-heróis mas é exímio criador de monstrinhos), além de coletivos de quadrinhistas, selos e revistas que são especialistas em aterrorizar leitores. O evento acontece somente no sábado e no domingo, no Music Valley Event Center, ao preço mais que razoável de 5 dólares por dia.
 
ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos