Quadrantes dos
Quadrinhos, 03/10/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do
material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
Marko
Ajdarić, directe en BD
Neste
final de semana, Marko Ajdarić começou a publicar notícias em francês,
diretamente em um portal especialista, o BD Central. As nossas pautas tentarão trazer notícias que ainda não tenham sido levantadas pelos
colegas da atenta crônica francesa de quadrinhos. Iniciamos com 4 notícias que
já foram divulgadas aos nossos leitores do Quadrantes dos Quadrinhos, direta ou
indiretamente.
A Alice de
Bryan Talbot
Bryan Talbot, que já
desenhou episódios de Sandman e de vários super-heróis, agora apresenta, em sua
página eletrônica o projeto de Alice in Sunderland,
álbum de cerca de 300 páginas com temática mítica e tintas de um documentário de
sonhos. Ainda falta 1 ano para que o álbum saia dos previews para o
papel.
24 cartunistas
em Brasília
No Conjunto Cultural da
Caixa, em Brasília, 40 originais de trabalhos de 24 cartunistas de vários países
estão expostos de 30/09 a 30/10/2005, com entrada franca. A mostra foi
inaugurada como evento paralelo à cúpula de chefes de estado
sul-mericanos.
Os brasileiros presentes são Angeli, Chico Caruso, Jaguar,
Laerte, Lan, Luís Fernando Veríssimo, Miguel Paiva, Millôr Fernandes e Ziraldo.
Os demais países comparecem com o seguinte ótimo time de feras: Argentina: Caloi
(das tiras de Clemente, no jornal Clarin) e Nik (que realiza tiras cartuns e
fotopotocas diariamente no La Nación); Chile: Jimmy Scott e Aetós; Bolívia:
Juls; Colômbia: Pepon e Vladdo, Equador: Bonil e Pancho Cajas, Paraguai: Nico y
Casartelli, Peru: Carlín;
Suriname: Steve Ammersingh; Uruguai: Arotxa e Venezuela (Régulo
Pérez).
Um encontro com a
participação de Aétos, Angeli, Arotxa, Bonil, Cajas, Caloi, Carlin, Jaguar,
Jimmy Scott, Juls, Lan, Nik, Pepón, Régulo Pérez, Steven Ammersingh, Vladdo e
Ziraldo sobre seu trabalho e a integração cultural da América do Sul foi filmado
e transformado em programa para televisão. Bonil, Pancho Cajas e Aetós
declararam que, apesar das boas intenções e da discurseira oficial ca reunião de
cúpula, é muito provável que o sonho da integração sul-maericana ainda esteja
longe de se concretizar.
De como Michael
Jackson quase comprou a Marvel
Do alto de sua
autoridade como uma das mais respeitadas publicações sobre quadrinhos nos EUA, a
nova edição do The Comics Journal (a 270ª) traz uma entrevista com Peter Paul, o
parceiro de Stan Lee em vários projetos, especialmente na empresa Stan Lee
Media, que estava saindo da cadeia depois de 10 anos, por ser um dos usufruentes
desta 'maravilha' da economia sem rosto dos EUA que são as grandes
corporações, história que passou elo Brasil, no episódio de sua extradição.
Entre as revelaçoes do free again Peter Paul, está o palno pelo qual
Michael jackson entraria com seu nome e dinheiro para comprar a 'Casa das
Idéias'. É de tirar o sono, simplesmente.
Resenha: 'Oesterheld en Primera Persona'
Editado este ano por La Bañadera
del Comic, o coletivo que publica a segunda melhor revista virtual de
quadrinhos da língua espanhola atualmente, a 'Sonaste Maneco', 'Oesterheld en
Primera Persona' traz um retrato competente e humanista do mais fundamental dos
quadrinhistas argentinos: Héctor G. Oesterheld.
Dificilmente se pudesse querer mais de um livro de 128 páginas.
Especialmente, mas não só, para quem não conhece a obra de HGO. Conceitos que,
para muitas pessoas que ainda não conhecem de perto a Nona Arte não fazem parte
do universo 'infantil' das HQs - estão mais que presentes. A começar pelo
vibrante prólogo assinado por um dos mais premiados quadrinhistas argentinos em
atividade - Carlos Trillo - juntamente com Guillermo Saccomano, que, ao
discorrer sobre os 21 anos entre a concepção do livro e sua publicação, em que
eles assinam que a liberdade é um vento às vezes mais opressor do que o
autoritarismo, por nos desobrigar de fazer o que é essencial para nos dedicarmos
ao imediato. Mas, mesmo demorando 21 anos entre o momento em que a liberdade
permitiu que o livro fosse gestado e sua execução, a obra merece ser divulgada o
mais amplamente possível. a força dos depoimentos continua presente em um
depoimento de Francisco Solano López, um dos ilustradores que mais contribuiu
com HGO, sobre os ideais de um homem de coração de adolescente que foi
assassinado, juntamente com as suas filhas, pelo governo dos gorilas que se
sucederam na Argentina dos Anos de (muito) Chumbo.
É
este coração adolescente que 'Oesterheld en Primera Persona' revela, com uma
seleção de artigos e HQs do próprio Hector G. Oesterheld desenhada por vários
quadrinhistas, além da antológica 'Un Fumetto para Héctor', uma curta biografia
quadrinhizada de B. Vigna e Juan Zanotto (falecido este ano) que se completam
com uma autobiografia em curtas notas bem-humoradas.
O retrato que fica é o de um roteirista que partiu de sua incrível capacidade de contar muitos tipos de estórias e que lia poucos quadrinhos, sendo um devorador
da literatura, antes de tudo, e de como este seu apego à liberdade de contar
estórias o levou a ser também, um dos principais editores de quadrinhos da
Argentina, ajudando a muda radicalmente o conteúdo publicado, e de como este
sentimento, o levou a uma rebeldia contra a 'ordem' vigente, HGO representa,
como poucos quadrinhistas, a passagem do artesão ao artista, nos valendo de uma
variação das análises de Gyorgy Lukacs sobre a arte e a mudança social. A obra
ainda ressalta o pensador viu, como poucos em seu tempo, as possibilidades dos
quadrinhos (o que é ainda mais evidente pela publicação de seu artigo 'La Nueva
Historieta' de 1965, que falava de quadrinhos que transmitam algum
conteúdo.
Os
contornos do retrato ficam muito nítidos pelo esforço da equipe de La Bañadera
del Comic, com o levantamento e apresentação de todos os personagens de HGO que
viraram séries, mostrando as habilidades do imprescindível ('segundo' Bertold
Brecht) menino que nasceu em 1919 e que foi um marco na apropriação do que a
literatura tem de melhor a transmitir aos quadrinhos: a noção de diálogo com a
mente, mais do que com os olhos, o apego à liberdade e o gosto pela pesquisa.
Lendo 'Oesterheld en Primera Persona' se descobre que a generosidade do utopista
Oesterheld ao falar sobre os rumos da América Latina como em El Eternauta, Ernie
Pyle e em '450 Años de Guerra contra el Imperialismo' convence pelo seu
amor a uma das tradições mais caras ao ser humano: passar uma estória de uma
pessoa para outra, em estórias infantis, históricas, policiais, de western,
ficção científica, quadrinhos históricos, super-heróis, de esportes... e muitas
outras variações que ele re-criou como poucos.
A obra promete ter continuidade em 'Oesterheld en Tercera
Persona'.
Disney com cara de DreamWorks
Recentemente, escrevemos que a Disney, no reinado do senhor Michael
Eisner, tinha escolhido ser uma cópia da Pixar, ao invés de manter a sua
trajetória única em termos de ilustração para o cinema feita com a criatividade
da era pré-digital, e que a tornou a preferida de centenas de milhões
de espectadores em todo o Mundo. Pois bem: a divulgação das primeiras imagens de
mais um projeto da Disney, The Exit, tem trazido um comentário mais que
recorrente: é cara da DreamWorks. Confirae tire as suas conclusões, em nota
ilustrada dos colegas do Omelete.
BD para
surdos
Com uma
trajetória de mais de 80 álbuns, Eric Corbeyran é o organizador do
álbum ''Paroles de Sourds'' que será lançado em novembro
pela Delcourt com a
participação de 21 quadrinhistas, inclusive, Étienne Davodeau,
Richard Guérineau, Manu Larcenet e Tronchet, especialmente para o festival Blois
BDboum, que tera atividades especiais para surdos, também, este ano. A obra
também reúne depoimentos de surdos e de pessoas que lidam com a surdez.
Como a Delcourt mesma diz, nada melhor que as imagens para falar aos surdos.
Corbeyran já tinha realizado, nos mesmíssimos moldes, Paroles de Parloirs, para
os presos do sistema carcerário francês.
4º Encontro Internacional de Caricatura e
Historieta
Nos marcos de uma das maiores feiras de livros da América Latina, a
FIL, que chega à sua 19ª edição de 26 de novembro a 4 de dezembro, com a
presença de nada menos que 1.500 editoras, acontece, pela 4ª vez, o Encuentro
Internacional de Caricatura e Historieta, o mais importante evento de discussão
científica sobre a Nona Arte no México, nos dias 2 e 3 de dezembro. Além de uma
trinca de ases do humor de traço mexicano atual formada por Rius, El Fisgón, e
Trino, os convidados internacionais incluem Sergio Aragonés, um dos artistas
mais destacados da MAD e Melina Gatto, pesquisa ligada à Fundação e Museu Franco Fossati,
sediados em Milão, um dos maiores esteios italianos da pesquisa catalográfica
sobre quadrinhos. Melina Gatto é, atualmente, a responsável maior pela
circulação de informações entre o que acontece em termos de Nona Arte na América
Latina e a Itália. O homenageado deste ano (que sucede a Quino, Aragonés e Rius)
é Gabriel Vargas, nascido em 1918 e que é um dos mais queridos quadrinhistas
mexicanos, especialmente, por La Familia
Burrón.

Eloyr Pacheco por Bira
Eloyr Pacheco no Neorama
Ilustrado
O segundo profissional a comparecer com 10 indicações
de conteúdo para a seção Neorama Ilustrado do Neorama dos Quadrinhos foi
Eloyr Pacheco, que, à frente da Brainstore, editou importantes títulos para o
enriqueceimento dos quadrinhos autorais e de conteúdo adulto, no Brasil, e que é
o responsável pelo Bigorna, o site que se tornou rapidamente a referência
em assuntos da Nona Arte brasileira. Eloyr preferiu concentrar suas dicas em 10
trabalhos de brasileiros que publicam no exterior: confira:

Resenha: A Escrita dos Quadrinhos
Em
'A Escrita dos Quadrinhos' seu 2º livro pela coleção João Nicodemos de Lima, do
Sebo Vermelho - uma das maiores provas da resistência da cultura do Rio Grande
do Norte e que está completando 20 anos - o mestre Moacy Cirne retoma
temas semeados nos anos 70, quando, juntamente com Alvaro de Moya, praticamente
fundou a crítica e o estudo de quadrinhos no Brasil em termos profundos e traz
novas propostas
Lançado durante o INTERCOM
deste ano, o livro traz 120 páginas de textos e um belo apêndice: poemas
visuais de Falves Silva (que também assina a capa) em forma de homenagem a
quadrinhistas como Moebius, Milo Manara, Hugo Pratt, Guido Crepax, Frank
Miller, Will Eisner, Robert Crumb, Henfil e Ziraldo, numa aproximação a outro
dos temas mais caros do mestre Cirne: o poema-processo.
A
obra traz conteúdos variados: um texto confessional chamado 'meus primeiros
gibis', em que Cirne conta como chegou a gostar de bons quadrinhos a partir de
sua infância em Seridó (RN), 21 páginas de listas de clássicos dos quadrinhos de
todos os tempos, textos de debate que não se destinam ao grande público, mas que
ajudam a elevar em muito os pontos de referência a partir dos quais se pode e
deve exercer o estudo e a pesquisa sobre quadrinhos, retomando referências como
o estruturalismo e a semiótica. Em outras seções, o carinho interessado de
Cirne, caldeado por décadas como professor na UFF (Universidade Federal
Fluminense) e como debatedor em todas as formas possíveis de ventos, brinda aos
mais jovens leitores sobre HQs com dois tipos de paralelos: históricos com
outras formas de expressão da cultura popular, (inclusive a xilogravura e o
cordel) e de possibilidades de interação com outras formas de expressão da
cultura e da indústria cultural. Como contribuição maior ao novo, o mestre Cirne
nos propõe debater as inúmeras possibilidades do que ele chama de
quadrinho-documentário, uma forma de expressão e de inserção na vida dos homens
que pode dar aos quadrinhos a respeitabilidade definitiva ao que foi imaginado
por outro homem que mudou para sempre as cabeças de quem pensa quadrinhos nos
anos 1960: a nueva historieta (ou novos quadrinhos) proposta por Héctor G.
Oesterheld, num artigo que, por sinal, estará fazendo 40 exatos anos no mês de
novembro.
Nossa única, porém grande,
ressalva aos editores da imprescindível Sebo Vermelho é que o livro merecia e
merece um prefácio e/ou um prólogo, que ajude aos novos leitores de Moacy Cirne
a compreender os meandros deste belo livro, ampliando o que foi apresentado
apenas na 121ª página de 'A Escrita dos Quadrinhos': as origens dos variados
textos.