Quadrantes dos Quadrinhos, 30/09/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos


 
Desenhos para cegos
 
Uma iniciativa que pode e deve ser 'imitada' por expressões artísticas que lidam com o desenho foi estabelecida pela galeria Tate Modern, de Londres, uma das mais renomadas do mundo. Os desenhos de uma mostra para cegos, a Raised Awareness, que está atualmente em exposição na galeria podem ser baixados do site da galeria. A partir daí, devem ser impressas em baixo ou alto-relevo em sistemas especiais, para que, através do tato, os cegos possam diferenciar os contornos dados pela cor negra. Não seria nada mal aprender com esta aula de arte cidadã e publicar quadrinhos com esta técnica.

 
BDs da Conrad
 
A editora Conrad, responsável por uma parte significativa das publicações de mangás do Brasil, aclerou este mês a publicações de quadrinhos europeus da melhor qualidade. Depois da publicação de um álbum de Borgia, de Alejandro Jodorowsky e Milo Manara, a Conrad brinda os leitores brasileiros com a tradução de 'L'Épinard de Yukiko (com o título 'O Espinafre de Yukiko) de Frédéric Boilet, um dos principais nomes do nouvelle manga, já traduzido em 8 idiomas, e cujo traço mais inovador é o uso de elementos como a fotografia e o vídeo. A trama se baseia num quadrinhista (obviamente inspirado no próprio Boilet) e em seu amor por Yukiko, moradora de Tóquio, o que abre portas para que o desenho de Boilet se apresente com mais formas. Usando o recurso do mangá de poucos diálogos, Boilet imprime à obra um forte conteúdo intimista. Mais inesperado ainda, por ser um autor com poucos ganchos comerciais, Christophe Blain estréia no Brasil com a publicação do 1º álbum de Isaac o Pirata (Isaac Le Pirate), chancelado por prêmios internacionais em salões como Amadora e Angoulême (em 2002). Amante da melhor gravura e da melhor pintura, Blain subverte a lógica de uma HQ 'de piratas' pela sua própria experiência de viagens marinhas, e em suas conversas com marinheiros de todos os tipos. Apesar do nome, o próprio Blain atesta que de pirataria suas estórias têm muito pouco. A começar por este primeiro álbum (Les Amériques), em que um desenhista é o principal personagem, o que acaba também sendo um recurso muito interessante para que as qualidades de Blain como ilustrador se extendam sobre as belezas marinhas. Para conhecer um poco deste álbum, visite o 'filme' preparado pelos colegas de BD Paradisio. É de se esperar que tenham um tratamento editorial melhor que outras séries de BDs publicadas este ano no Brasil: Arthur e Aquablue, até pela seriedade dos profissionais da Conrad, apesar das sinopses oficiais não terem dado - minimamente - conta da execelência das obras, procurando carregar nas tintas marketeiras, uma marca que pouco ajuda na difusão do quadrinho autoral.
 
 
Rat-Man na TV
 
Rat-Man, o anti-superherói criado por Leo Ortolani para se esgueirar na noite e se meter onde não é chamado para, com seu cérebro de mosquito corrigir as injustiças da cidade estreou na maior rede de televisão da Itália neste dia 29, numa série de 52 episódios de 13 minutos. Assim, suas HQs onde outros super-heróis e filmes são adaptados desde 1989 ganham mais um espaço para a sua enorme popularidade entre os italianos. Vale lembrar que Rat-Man passou a ser publicado na Espanha desde fevereiro, pela mesma editora que o publica na Itália, a multinacional Panini. Para ver o trailer oficial, clique aqui.

 
Unidos por Bill Messner-Loebs
 
'Heroes and Villains: Messner-Loeb Benefit Sketchbook', é o nome de mais uma iniciativa da TwoMorrows em prol de um artista dos quadrinhos que se encontra em dificuldades: William Messner-Loebs, ou Bill Loebs, que já faz a alegria de leitores de todo o mundo com HQs de Johnny Quest, Mulher Maravilha e The Flash, nos anos 90. Com as mudanças na direção da Marvel e DC Comics no início desta década, Bill acabou ficando sem trabalho, o que é gravado pelo fato dele ter um braço amputado desde criança, por conta de uma doença. Tendo perdido a sua casa em 2001, Loebs e a esposa são obrigados a viver em um equivalente a um asilo para idosos, sendo que ele tem apenas 55 anos. O editor do álbum que reúne desenhos de vários autores é Clifford Meth, que é colunista de música e de quadrinhos, assinando a coluna Past Masters no Silver Bullet Comics, um dos portais de HQs mais visitados do mundo. O que for arrecadado com a venda do álbum encadernado, que tem preço de capa de 25 dólares, será revertido para apoiar financeiramente o artista.No site de Neal Adams, é possível ver alguns dos trabalhos incluídos no sketchbook que tem assinaturas de vários dos grandes artistas dos comics

 
O outro lado de Peyo, Morris e Franquin
 
Com o nome de 'Morris, Franquin, Peyo et le Dessin Animé', a editora L'An 2, dirigida por Thierry Groensteen (que tem um livro brasileiro publicado pela Marca de Fantasia), dá mais um presente para o resgate da história das relações entre quadrinhos e desenhos animados, em novembro. O livro vai contar a história do estúdio que os 3 mestres das bandes dessinées criaram em Bruxelas para realizar desenhos animados o CBA, em 136 páginas coloridas em formato italiano. A obra é assinada pelos pesquisadores Erwin Dejasse (nascido no Congo), que tem em seu currículo a curadoria da mostra 'Muñoz / Breccia, l'Argentine en Noir et Blanc'  e Philippe Capart, pesquisador e realizador de cinema de animação. O preço anunciado é 32 euros. Apenas repassando as obras mais populares de cada um dos desenhistas, Morris é o responsável - desde o início - por Lucky Luke, Peyo é mais conhecido por seu trabalho com os Schtroumps (Smurfs / Sctrumpfs) e Franquin assinou as melhores estórias de Spirou.
 
 
Quadrinhos autorais em Frankfurt
 
A Frankfurter Buchmesse, a maior feira de livros do mundo - em volume de transações comerciais - acontece em Frankfurt, entre os dias 19 e 23. Os quadrinhos mais comerciais têm um espaço muito grande na feira; como já publicamos, Albert Uderzo vai apresentar a sua versão de Astérix na feira; em 2004, os mangás comerciais foram um destaque maior do que o tema proposto, a literatura árabe, e, em 2005, com a Coréia do Sul como país convidado, os manhwas vão entrar com força à busca de negócios. Porém, a feira promove também um encontro com autores que primam pelos quadrinhos como expressão artística, chamado 'Faszination Comics', que se realiza pelo 5º ano. Este ano, vão estar presentes os visitantes Jim Lee (Batman), Jeff Smith (o autor de Bone) e Craig Thompson (o melhor quadrinhista independente do mundo em 2004, que vão dividir mesas, experiências e autógrafos como os alemães Ralf König, Mawil, e 2 quadrinhistas de humor de tipos bem diferentes: Joscha Sauer, dono de um humor cartunesco e debochado que merece ser conhecido em sua página eletrônica oficial com e Arne Bellstorf, que acaba de lançar pela mais que autoral Reprodukt o álbum de humor introspectivo 'Acht, Neun, Zehn'.
 
 
Humor e Carnaval: uma rima búlgara
 
Em janeiro, tivemos a oportunidade de escrever sobre a 17ª Bienal de Humor e Sátira de Gabrovo, uma festa do traço que é aberta pelo povo em um cortejo carnavalesco, mantendo a tradição da chamada capital búlgara do humor. Sendo franco com nossos leitores, a brochura que recebemos dos organizadores da bienal, intitulada 'Gabrovo: a Humor Capital: Guidebook', é talvez a melhor obra que já vimos para se entusiasmar uma pessoa sobre as possibilidades do humor - incluindo o de traço - como fator de coesão e valorização da cultura de um povo. Agora, este espírito está presente em Plovdiv, cidade muito maior e que acumula uma variedade de pérolas da cultura búlgara: com o tema Carnaval: uma perspectiva sobre a cultura popular, será aberta neste dia 1º de outubro a 3ª edição da Bienal Internacional de Caricatura, no Museu Etnográfico da segunda maior cidade búlgara. Apesar das dificuldades em se obter informações a respeito, o Neorama dos Quadrinhos vai procurar obter mais detalhes sobre este evento e sobre as surpresas que esperamos que ele nos traga. 

 
Mome 2
 
A nova antologia dos quadrinhos indpendentes da Fantagraphics vai ter o seu segundo volume lançado agora em outubro. 'Mome Volume 2' foi criado por Jordan Crane, responsável por 'Non', uma das mais aplaudidas coletâneas de quadrinhos indies dos EUA, que teve 5 números, sendo que o último, em 2001, veio com 3 volumes reunidos em uma caixa. Crane, como quadrinhista, também faz parte da antologia independente SPX 2005, lançada agora em setembro. Mome 2 tem preço de 15 dólares e trará ayitres de maior visibilidade da cena independente como Jeffrey Brown, Sophie Crumb, Paul Hornschemeier e Anders Nilsen ao lado de Andrice Arp, Gabrielle e Marc Bell, Jonathan Bennett, David Heatley, John Pham e Kurt Wolfgang.

 
O novo livro de Mirko Ilić
 
Mirko Ilić, que já foi diretor de arte da revista Time e do jornal New York Times já realizou este ano uma exposição solo no Museu de História da Iugoslávia, entre março e maio, com seus quadrinhos (cuja trajetória é mais conhecida pelos leitores da mais que autoral revista de vanguarda Heavy Metal), design gráfico e ilustrações. Agora, a Alliance Graphique Internationale nos traz a notícia de que ele publicou mais um livro sobre design, por seu estúdio, assinado em conjunto com Milton Glaser, um dos fundadores da New York Magazine: The Design of Dissent, com o subtítulo Socially and Politically Driven Graphics. Trata-se da organização, num livro de 240 páginas e capa-dura, de textos e 400 ilustrações que mostram que nem sempre os profissionais do design são os instrumentos do poder das grandes corporações. O livro custa 50 dólares e seu número ISBN é 1-59253-117-2.  

 
Quadrinhos de arte por Roy Lichtenstein
 
Mais uma vez, temos a honra de publicra um artigo no Quadrantes dos Quadrinhos de Ruy Jobim Neto, quadrinhista e cineasta.
 
Chegou ao Brasil a exposição 'Roy Lichtenstein – Animated Life/ Vida Animada' , a primeira individual  na América Latina de um dos maiores nomes da PopArt norte-americana, Roy Lichtenstein (1923-1997), em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, de 22 de setembro a 20 de novembro. 
 
Ao lado de Lichtenstein, somente Andy Warhol (o criador dos silks da lata Campbell's ou mesmo da Marilyn Monroe multicor) foi preponderante no movimento nova-iorquino, uma verdadeira revolução estética que discutiu como nunca, na História da Arte, o efeito da imagem na vida contemporânea. Nesse ponto, Lichtenstein foi o que mais mergulhou nessa análise.
 
Enquanto Andy Warhol era um tipo excêntrico, pura imagem, criando todo um signo em torno de si, cultuando-se e se promovendo às custas de muita, muita, muita mídia (lembremos que Warhol aparece, inclusive, ao lado de Dustin Hoffman, numa foto, em 'Tootsie',de Sydney Pollack), Roy Lichtenstein, por sua vez, era o oposto. Muito pelo contrário, ele apoiava jovens artistas e se mostrava nem um pouco estrela. Até bastante acessível.
 
Nesta individual, são 78 obras expostas, 78 desenhos. O banal e o vulgar, extraídos do cartum, da história-em-quadrinhos e dos anúncios publicitários. O público poderá apreciar todas as temáticas do universo iconográfico de Lichtenstein – os Mickeys, as pin-ups, as fachadas de prédios, interiores e espelhos. A profusão de hachuras e retículas é efusiva. Nada mais norte-americano ou ocidental, portanto.
 
Através de sua técnica, Lichtenstein pôde demonstrar o esvaziamento da arte de pensar provocado pelas imagens veiculadas nos meios de comunicação de massa. Por isso, na visão do artista, essas imagens são meticulosamente produzidas, reduzindo o potencial da comunicação humana a um rebaixamento da escrita, fazendo a fala parecer balbucio destituído de sentido.
 
Para quem chega à exposição, os painéis gigantes, em reproduções de obras famosas, como as explosões (e seus 'splashes') e as onomatopéias (nada mais história-em-quadrinhos, portanto), já vão norteando o Lichtenstein que se vai apreciar logo em seguida. Uma série enorme de desenhos a grafite, pintados com lápis de cor, uma boa parte deles como estudo da obra que se apresentará exatamente ao lado.
 
Para os grandes painéis, Lichtenstein fazia nada mais que as velhas ampliações, trabalhando em compensado, na utilização criteriosa de fitas adesivas (perfazendo traços) e papéis estampados (delimitando, com variedade de pesos, as famosas retículas com as quais o artista relembra quadrinhos impressos). Nos estudos, as hachuras são substituídas, nos painéis, por uma quantidade de papéis metálicos e coloridos cortados em estilete. Há, inclusive, moirés de plásticos com cores variadas, mas as retículas aparecem sempre, de uma forma ou de outra. 
 
De longe, os quadrinhos de Lichtenstein reproduzem a banalização da mídia, ficam melhores vistos realmente de alguns passos para trás. De perto, há o emaranhado de seu trabalho, quase confundindo o olho. Lichtenstein produz, inclusive, no último ano de vida, prédios (real estates) com essas 'retículas', trabalhos maravilhosos de design. Beira a publicidade, embora ele tenha feito cartazes para eventos variados.
 
Outro detalhe são os materiais confeccionados no final da década de 1950, utilizando os personagens de quadrinhos e desenhos animados, como a seqüência de Mickeys, Donalds e Pernalongas, todos muito expressionistas, quase imperceptíveis à pouca distância. Um pequeno desenho a lápis de cor e grafite com Donald chama-se 'Portrait of a Duck', de 1989. O público presente, seja com monitores ou não, busca aquele Lichtenstein que todos conhecem, dos desenhos de explosões e onomatopéias (como 'VAROOOMM!!') e, por sua vez, os nus femininos, da década de 1990, também são belíssimos – a destacar dois trabalhos, estudo e painel, 'Nude with Joyous Painting' (de 1994) e 'Woman Contemplating a Yellow Cup' (este, também de 1994, mas somente em grafite sobre vegetal).
 
Seja nas naturezas mortas (still life), seja nos estudos, nas sombras meticulosamente vertidas em retículas gigantes trabalhadas a estilete à base de papéis ilustrados, ou nas curiosas anotações a lápis (nos painéis gigantes, coisas como 'n.edge of'), o que transparece são 35 anos do artista, um dos dois papas definitivos do movimento da Pop Art norte-americana, um Roy Lichtenstein apresentado em 78 obras imperdíveis de ver de perto. Ou de longe, reduzidas, quando ficam melhores ainda.