Mirko
Ilić, que já foi diretor de arte da
revista Time e do jornal New York Times já realizou este ano uma exposição solo no Museu de História
da Iugoslávia, entre março e maio, com seus quadrinhos (cuja trajetória é mais
conhecida pelos leitores da mais que autoral revista de vanguarda Heavy Metal),
design gráfico e ilustrações. Agora, a Alliance Graphique Internationale
nos traz a notícia de que ele publicou mais um livro sobre design, por seu estúdio, assinado em
conjunto com Milton Glaser, um dos fundadores
da New York Magazine: The Design of Dissent, com o subtítulo Socially and
Politically Driven Graphics. Trata-se da organização, num livro de 240 páginas e
capa-dura, de textos e 400 ilustrações que mostram que nem sempre
os profissionais do design são os instrumentos do poder das grandes
corporações. O livro custa 50 dólares e seu número ISBN é
1-59253-117-2.
Quadrinhos de
arte por Roy Lichtenstein
Mais uma vez, temos a
honra de publicra um artigo no Quadrantes dos Quadrinhos de Ruy Jobim Neto,
quadrinhista e cineasta.
Chegou ao Brasil
a exposição 'Roy Lichtenstein – Animated Life/ Vida Animada' , a primeira
individual na América Latina de um dos maiores nomes da PopArt
norte-americana, Roy Lichtenstein (1923-1997), em cartaz no Instituto Tomie
Ohtake, em São Paulo, de 22 de setembro a 20 de novembro.
Ao lado de
Lichtenstein, somente Andy Warhol (o criador dos silks da lata Campbell's ou
mesmo da Marilyn Monroe multicor) foi preponderante no movimento nova-iorquino,
uma verdadeira revolução estética que discutiu como nunca, na História da Arte,
o efeito da imagem na vida contemporânea. Nesse ponto, Lichtenstein foi o que
mais mergulhou nessa análise.
Enquanto Andy
Warhol era um tipo excêntrico, pura imagem, criando todo um signo em torno de
si, cultuando-se e se promovendo às custas de muita, muita, muita mídia
(lembremos que Warhol aparece, inclusive, ao lado de Dustin Hoffman, numa foto,
em 'Tootsie',de Sydney Pollack), Roy Lichtenstein, por sua vez, era o oposto.
Muito pelo contrário, ele apoiava jovens artistas e se mostrava nem um pouco
estrela. Até bastante acessível.
Nesta individual,
são 78 obras expostas, 78 desenhos. O banal e o vulgar, extraídos do cartum, da
história-em-quadrinhos e dos anúncios publicitários. O público poderá apreciar
todas as temáticas do universo iconográfico de Lichtenstein – os Mickeys, as
pin-ups, as fachadas de prédios, interiores e espelhos. A profusão de hachuras e
retículas é efusiva. Nada mais norte-americano ou ocidental, portanto.
Através de sua
técnica, Lichtenstein pôde demonstrar o esvaziamento da arte de pensar provocado
pelas imagens veiculadas nos meios de comunicação de massa. Por isso, na visão
do artista, essas imagens são meticulosamente produzidas, reduzindo o potencial
da comunicação humana a um rebaixamento da escrita, fazendo a fala parecer
balbucio destituído de sentido.
Para quem chega à
exposição, os painéis gigantes, em reproduções de obras famosas, como as
explosões (e seus 'splashes') e as onomatopéias (nada mais
história-em-quadrinhos, portanto), já vão norteando o Lichtenstein que se vai
apreciar logo em seguida. Uma série enorme de desenhos a grafite, pintados com
lápis de cor, uma boa parte deles como estudo da obra que se apresentará
exatamente ao lado.
Para os grandes
painéis, Lichtenstein fazia nada mais que as velhas ampliações, trabalhando em
compensado, na utilização criteriosa de fitas adesivas (perfazendo traços) e
papéis estampados (delimitando, com variedade de pesos, as famosas retículas com
as quais o artista relembra quadrinhos impressos). Nos estudos, as hachuras são
substituídas, nos painéis, por uma quantidade de papéis metálicos e coloridos
cortados em estilete. Há, inclusive, moirés de plásticos com cores variadas, mas
as retículas aparecem sempre, de uma forma ou de outra.
De longe, os
quadrinhos de Lichtenstein reproduzem a banalização da mídia, ficam melhores
vistos realmente de alguns passos para trás. De perto, há o emaranhado de seu
trabalho, quase confundindo o olho. Lichtenstein produz, inclusive, no último
ano de vida, prédios (real estates) com essas 'retículas', trabalhos
maravilhosos de design. Beira a publicidade, embora ele tenha feito cartazes
para eventos variados.
Outro detalhe são
os materiais confeccionados no final da década de 1950, utilizando os
personagens de quadrinhos e desenhos animados, como a seqüência de Mickeys,
Donalds e Pernalongas, todos muito expressionistas, quase imperceptíveis à pouca
distância. Um pequeno desenho a lápis de cor e grafite com Donald chama-se
'Portrait of a Duck', de 1989. O público presente, seja com monitores ou não,
busca aquele Lichtenstein que todos conhecem, dos desenhos de explosões e
onomatopéias (como 'VAROOOMM!!') e, por sua vez, os nus femininos, da década de
1990, também são belíssimos – a destacar dois trabalhos, estudo e painel, 'Nude
with Joyous Painting' (de 1994) e 'Woman Contemplating a Yellow Cup' (este,
também de 1994, mas somente em grafite sobre vegetal).
Seja nas
naturezas mortas (still life), seja nos estudos, nas sombras meticulosamente
vertidas em retículas gigantes trabalhadas a estilete à base de papéis
ilustrados, ou nas curiosas anotações a lápis (nos painéis gigantes, coisas como
'n.edge of'), o que transparece são 35 anos do artista, um dos dois papas
definitivos do movimento da Pop Art norte-americana, um Roy Lichtenstein
apresentado em 78 obras imperdíveis de ver de perto. Ou de longe, reduzidas,
quando ficam melhores ainda.