Quadrantes dos Quadrinhos, 29/09/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos


 
50 anos de Caco, o Sapo
 
A volta dos Muppets à TV americana e ao DVD, como escrevemos no Quadrantes dos Quadrinhos, era um prenúncio de que a alegre e hilária turma de personagens criada por Jim Henson iria ainda dar alguns frutos adicionais. Pois bem: a nova detentora dos direitos sobre os Muppets, a Disney, está aproveitando o ensejo de 50 anos de criação de Caco, o Sapo (Kermit the Frog) para promover uma turnê mundial. Caco vai viajar por 15 meses, por 50 pontos do planeta, o que inclui passagens por Pamplona, pela Disneylândia de Hong Kong, Estátua da Liberdade, Torre Eiffel e Grande Muralha da China. Adicionalmente, será aberto o blog oficial de Caco, no qual os internautas poderão votar em qual será o último ponto de visita deste passeio mundial.   Camisetas promocionais estarão sendo vendidas em breve. Nesta quinta-feira, os correios americanos deram a sua colaboração para que Caco volte a pular com mais força por aí, lançando uma coleção em homenagem a Jim Henson, com selos de Caco, Miss Piggy, Fozzie, Gonzo e outros mais. Ainda este mês, a Hyperion lançou o livro com CD 'It's Not Easy Being Green and Other Things to Consider', com textos e desenhos do próprio Henson - muitos retirados de seus arquivos - que mostram a fina filosofia de vida por trás da exuberante ingenuidade de Caco.
 
 
O transnacional Lorenzo Mattotti
 
Tido como um dos principais nomes modernos dos quadrinhos italianos, Lorenzo Mattotti não pára: além de seu projeto para ilustrar o Carnaval do Rio de Janeiro pela Casa 21, desde o dia 24 ele está com uma exposição na galeria de arte contemporânea d406, em Módena, para a qual, além dos trabalhos expostos, foi lançado um livro de 190 páginas com obras de Mattotti realizadas desde 2001 em acrílica, pastel, aquarela e nanquins, intitulada 'Stanze'; a mostra estará aberta até 27 de novembro. Na Espanha, o selo mais que independente de quadrinhos Sins Entido publicou, este mês, o álbum Spartaco, tradução de seu Signor Spartaco, lançado este ano pela Coconino, na Itália. Apesar do nome, Signor Spartaco não versa sobre o líder rebelde imortalizado por Howard Fast na literatura e no cinema: trata-se de mais uma incursão do mestre italiano pelo quadrinho onírico mais puro. Em Paris, uma exposição de originais de Mattotti intitulada Nell'Acqua estará durante todo o mês de outubro na
Galerie Christian Desbois, que tem uma trajetória de diálogo com a Nona Arte.

 
O Agente 86 de Steve Ditko
 
O falecimento de Don Adams, o ator que imortalizou o Agente 86 da série de TV que originalmente se chamava Get Smart, trouxe à baila as revistas em quadrinhos que foram realizadas sobre a série, nos anos 60. De junho de 1966 a setembro de 1967, foram publicadas, nos Estados Unidos, 8 números de 'Get Smart' em quadrinhos, sendo que o último foi uma reedição do primeiro. A editora Dell selecionou Sal Trapani para assinar a série, mas Mark Evanier, uma das melhores combinações de quadrinhistas e cronistas de quadrinhos do mundo assegura que foi Steve Ditko - um dos maiores desenhistas de super-heróis da história - que realizou os desenhos. Evanier também garante que a adaptação para HQs acabou sendo bem realizada, apesar da dificuldade em se desenhar Don Adams e suas expressões absolutamente ímpares.

Igor Ćorić
 
2 sérbios animados
 
Na mesma semana, duas belas comprovações da nova vertente do cinema de animação realizado para Internet pelos sérbios Igor Ćorić, que com 'Three Feathers and a Rainworm' já tinha vencido  a etapa do Anima Mundi do Rio de Janeiro, pelo júri  profissional, em julho, com o título de 3 Penas e 1 Minhoca) e Ljubiša Đukić. Os 2 trabalhos inscritos pela dupla, novamente 'Three Feathers and a Rainworm', de Ćorić  e 'Manege Frei', de Đukić, ganharam menções honrosas no Ottawa 05 International Animation Festival (sobre o qual já falamos no Quadrantes dos Quadrinhos), que se encerrou no dia 25. Neste dia 29, foi divulgada a lista oficial de concorrentes ao BAF 05, o maior festival de animação da Grã-Bretanha, que acontece de 16 a 19 de novembro. Entre os 5 indicados, está Manege Frei, de Đukić, que pode ser visto online e, também, votado pelos internautas
 
 
É hora de Scooby-Doo
 
Nos EUA, o gibi de Scooby-Doo chegou ao seu 100º número, este mês, publicado pela DC Comics, com roteiros de Terrence Griep Jr. - que estreou em quadrinhos com a HQ da turma de detetives que tem a desajuda decidida de Scooby e que lançou este ano a série Judo Girl, pela Alias Comics - e artes de Horacio Ottolini e Joe Staton. No mundo cibernético, um videojogo foi lançado este mês, pela THQ. Scooby-Doo! Unmasked, no qual a turma encontra o primo Jed, um artista que cria monstros para cinema. Com o sumiço de Jed, seus monstrinhos animatrônicos assumem o protagonismo do jogo, dando chance ao jogador de acabar com a bela bagunça que eles fazem. A THQ garante que o jogo realça as cores e traços do desenho original. Um dos atrativos do jogo é a voz de Adam West, o Batman mais conhecido da TV. O jogo já sai em versões para PlayStation 2, Xbox, GameCube e Game Boy Advance.  Você já pode conferir online 48 imagens e 17 vídeos de  Scooby-Doo! Unmasked.

Cresce o mundo de José Roosevelt
 
O brasileiro José Roosevelt, que foi morar na Suíça por livre e espontânea pressão do amor, continua multiplicando espaços para sua arte. Até 1º de outubro, ele está com uma exposição de quadrinhos e pinturas na Raspoutine, gibiteria e galeria de quadrinhos de Lausanne que foi fundada em 1994. Para se ter idéia da relevância da Raspoutine, no dia 29 de outubro quem estará presente é Craig Thompson, o melhor nome dos quadrinhos independentes em todo o mundo em 2004, abrindo uma exposição que ficará aberta até 3 de dezembro. A abertura da mostra de José Roosevelt aconteceu no dia 2, e no dia 24, Roosevelt lançou o 8º número de sua revista Halbran, o fanzine que teve origem em 2004 com a publicação de seu aplaudido álbum A l'Ombre des Coquillages. Na Galerie Thuillier, especialista em arte contemporânea internacional de Paris, Roosevelt vai mostrar 'apenas' seu brilhante trabalho como pintor, de 30 de setembro a 13 de outubro. O vernissage acontece na noite do dia 4. Durante o 4º festival Palais de la BD, evento que homenageia o mestre italiano Sergio Toppi e que ocorre nos dias 15 e 16 de outubro, em um dos espaços mais nobres da capital francesa, a Conciergerie, José Roosevelt estará autografando seus trabalhos no stand da editora suíça especialista em quadrinhos Boîte à Bulles. Por fim, nos dias 26 e 27 de novembro, nosso autor vai estar no 22º BD Boum: Festival de Bande Dessinée à Blois, sobre o qual já escrevemos no Quadrantes dos Quadrinhos. Quem sabe, entre estas voltas, algum editor brasileiro acabe se dando conta da originalidade do pai do pato Juanalberto e de suas HQs que brincam com maestria com muitos sonhos.
 
 
Trienal em Kharkov
 
Kharkov, uma das cidades ucranianas de maior peso histórico e que já atinge uma população de 1.500.000 habitantes que contam com 49 centros culturais, realiza em abril de 2006 a 4ª edição de sua trienal de cartazes, a Fourth Block, que tem este nome como forma de não deixar cair no esquecimento a maior tragédia do povo ucraniano: Fourth Block era o nome de uma das unidades da usina nuclear de Chernobyl, cujo vazamento em 1986 é considerado o pior acidente atômico da história. Criada pelo artista gráfico Oleg Veklenko, em 1991, o evento vem se constituindo numa referência em exposição de trabalhos de cunho ecológico de todo o Mundo. Um dos objetivos de Veklenko é constituir em na 'Megalópole Ucraniana' um museu de referência sobre este tipo de trabalhos. Exatamente por conta dos 20 anos do incidente, o tema da trienal é Chernobyl, 20 anos depois. O júri internacional conta, além de Veklenko, que é o presidente, com a brasileira Ruth Klotzel, vice-presidente da ICOGRADA, Rene Wanner, um suíço que, entre outras atividades, divulga com maestria eventos de artes gráficas de artistas latino-americanos, e a francesa Madrelle Laurence, diretora da Alliance Graphique Internationale. Podem competir cartazes realizados entre 2003 e 2005, e o prazo de envio vai até 1º de fevereiro. Os trabalhos enviados não serão devolvidos, tornando-se parte do acervo da trienal e -esperamos - do futuro centro de pesquisas e referência.
 
 
 
DC Showcases
 
Finalmente, chegaram às gibiterias americanas os primeiros volumes da resposta da DC Comics à ótima iniciativa da Marvel com seus 'Masterworks', os DC Showcases. Os primeiros títulos desta série de encadernados, Showcase Presents: Superman Vol 1 e Showcase Presents: Green Lantern Vol. 1, trouxeram, cada um, mais de 500 páginas de HQs históricas em preto e branco do Super-Homem e do Lanterna Verde, assinadas por autores como Jerry Siegel e Gil Kane. Estes 2 primeiros volumes acabaram sendo ofertados a 10 dólares (ao invés dos 17 previamente anunciados) e vem sendo recebidos com vivos aplausos pelos colegas americanos. Privilegiando quadrinhos criados durante a chamada Era de Prata, a série ainda prevê para breve um volume da Liga da Justiça Original. Vamos esperar para ver o retorno das vendas para ver o tamanho do acerto da iniciativa.

 
Gibis com capas em 3D
 
A DC Comics está mesmo sendo a casa das idéias, por assim dizer, este mês. Para além dos quadrinhos de sua linha Vertigo e da sequência do projeto Solo. Michael Stribling, que já tinha feito a capa de JLA: Classified 10, em julho, vai ter mais liberdade para mostrar suas qualidades. A partir do gibi de JLA Classified (que tem data de capa de outubro mas que já chegou às gibiterias dos EUA), a Liga da Justiça vai ter capas criadas digitalmente por Stribling em 3D para dar realce aos roteiros de Warren Ellis e à arte de  Butch Guice. Confira a capa em alta resolução com a Mulher-Maravilha realizada porStribling, que vem sendo elogiada por resenhistas e consumidores, nos Estados Unidos.

Animação brasileira: à beira do esquecimento?
 
Mais uma vez, nosso colega Ruy Jobim Neto nos brinda com um artigo seu, que dividimos com nossos leitores.
 
As pouquíssimas matérias que se lêem na imprensa e mesmo na imprensa especializada em cinema mostram claramente a minúscula participação da animação brasileira nos meios de comunicação. Ou seja, perante o público. Raramente é lido algo sobre produções, a não ser um ou outro filme animado para a publicidade, coisa exibida em televisão. Lá fora, por exemplo, se navegarmos um pouco pelo site da ASIFA (Associação Internacional do Filme de Animação), veremos que praticamente não se conhece ou não se fala rigorosamente nada sobre a gente em outros países. Parece que não produzimos coisa alguma, no gênero, o que é um ledo engano. 
 
Vejamos então, podemos contabilizar: no Rio Grande do Sul, a Otto Guerra Animações(*) está produzindo o longa 'Wood & Stock', com todos os personagens do cartunista Angeli. Este, a meu ver, é um dos maiores exemplos de integração nacional. Angeli é paulista, Otto é gaúcho. Certa vez, em São Paulo, no prédio da FIESP, os dois fizeram uma palestra para um público ávido por notícias da produção nacional, na área. A noite era gélida, na Avenida Paulista, mas a conversa era muito boa. 
 
A TV Rá-Tim-Bum, da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura (cujo sinal percorre o território nacional com programação da melhor qualidade) é a aposta do presidente da casa, Marcos Mendonça. E para organizar, coordenar e fazer consultoria à nova emissora, Mendonça chamou ninguém menos que Álvaro de Moya, ex-professor de TV na USP, conhecido como produtor de TV, roteirista e também por ser um dos maiores pesquisadores de quadrinhos do Brasil. Esperemos pra ver se haverá alguma chance para a produção nacional de desenho animado. 
 
Walbercy Ribas acabou de conseguir verba para iniciar outro longa com os personagens de 'O Grilo Feliz'. A Rede Globo está pensando em um programa de pelo menos duas horas e meia diárias com os personagens de Maurício de Sousa, para as manhãs, o 'horário nobre infantil' da emissora. Filmes curtos da Turma da Mônica, para aqueles que são fãs, não irão faltar. Basta ver se haverá reinício de produção. Muitos profissionais, de vários setores da linha de produção de animação, foram demitidos. 
 
Há um filme, um longa metragem sendo produzido no Rio de Janeiro com o personagem 'Xuxinha', obviamente calcado na apresentadora Xuxa, cujos longas de cinema, com ação ao vivo, têm sido festejados pela garotada em férias, quando lançados. Por outro lado, em São Paulo, o animador Alê Abreu (que dirigiu e animou 'O Espantalho', em 1998), vem aí com o seu primeiro longa de animação 2D. Há pouco estreou na TV por assinatura a série 'Anabel', pela D Filmes.  
 
O Anima Mundi todo ano anuncia alegremente a inscrição de número cada vez maior, mais e mais preponderante de filmes de animação brasileiros. Recorde atrás de recorde. Todos os estúdios ressentem da falta de profissionais gabaritados, especializados nas diversas áreas da produção, sendo que há, sim, escolas. Há um pipocar de cursos de animação nas muitas e variadas especialidades: animação disneyana (clássica), stop-motion, animação em CGI, 3D, e tantas outras técnicas. 
 
E ainda assim, há sites como o 'Porta Curtas' (patrocinado pela Petrobrás), e o 'Curta o Curta', que exibem boa parte da produção não somente de animação, mas de filmes com ação ao vivo. Um filme brasileiro, por exemplo, que foi vendido à Inglaterra, para o site Britshorts, foi  'Roubada', premiado filme de Renan de Moraes e Maurício Vidal, entre tantos outros. E ainda há muitos, muitos outros filmes brasileiros de animação dos quais estamos não só esquecendo, como na realidade seriam necessários vários artigos para falar de todo mundo. 
 
Só mesmo o mundo, lá fora, não atenta para isso. Houve, recentemente, numa pequena sala de Amsterdam, um Festival de Cinema Brasileiro, capitaneado pelo longa de Tony Venturi, 'Cabra Cega'. Muitos brasileiros, na Holanda, prestigiaram principalmente os documentários sobre os mais variados assuntos. Este ano de 2005, não podemos esquecer, é o 'Ano do Brasil na França'. Esta exposição, ainda que parca, no território europeu, começa a chamar aos poucos a atenção para a nossa cinematografia e a nossa maneira de ver o mundo. Vide os casos dos festejados Fernando Meirelles (cujo 'Cidade de Deus' arrebatou platéias em Londres e em todo o resto da Europa, e chegou às raias do Oscar) e Walter Salles Jr.(de 'Central do Brasil' e muitos outros filmes), que já alçaram car reira consolidada no Exterior. 
 
Mas nós mesmos, aqui dentro, não temos esse acesso. Não fossem parcos canais de TVs, com programação especializada (o caso do 'Zoom', na TV Cultura, é bem patente) e a Internet – lembremos que não há total inclusão digital no Brasil, quanto menos em relação à rede mundial de computadores - , e sem deixar de fazer justiça à Petrobrás e a algumas programações (em raríssimas salas de cinema no país, visto que no total somam apenas 1987 salas!!!), nossa memória cinematográfica já teria ido para o espaço. E olha que o animador Rui de Oliveira, aquele que fez 'Amor Índio', as aberturas para 'Sítio do Pica-Pau Amarelo', para a Globo, disse que vê saídas para a animação nacional. Tomara. 
 
Portanto, voltando ao início de nosso raciocínio, quando nem mesmo nós temos uma produção à vista de nossos olhos, medindo-se pela dificuldade de comercialização e distribuição (quanto mais falar de exibição!!), acrescenta-se aqui saber, sem muita alegria, que lá fora também desconhecem por completo o que fazemos aqui. É como se não fizéssemos nada. É curioso, beira o estranho. E não precisa, para isso, folhear revistas européias (inglesas ou francesas) de Cinema, basta entrar nos sites de uma ASIFA, por exemplo, e ver o tema dos artigos publicados especificamente sobre animação. Nunca fomos tão esquecidos como agora.  
 
Esperar por campanhas da ANCINE? Campanhas do governo federal? É bem possível que, quando se trata de mercado (e aqui não o temos, diga-se de passagem, como  gostaríamos), é assunto para os produtores e distribuidores - os interessados, claro -, talvez numa associação com gente de marketing, pessoal especializado em comércio internacional de audiovisual. De qualquer forma, é briga pra cachorro grande. Mas que tem que brigar, ah, isso tem. 
 
(*) Nota: nossa matéria sobre o trabalho recente de Otto Guerra pode ser lida aqui