Quadrantes dos Quadrinhos, 16/09/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos


 
 
Quadrinhos não são 'diversão'
 
Em 'Um Fumetto para Héctor, HQ que homenageia Héctor G. Oesterheld, o maior dos quadrinhistas que já foi assassinado por uma ditadura militar, seus autores -Juan Zanotto e B. Vigna - concluem sua narrativa colocando na boca do próprio Oesterheld a frase 'La fantasia es el poder mas grande: si se aprisiona la fantasía y la voluntad de soñar, se mata la libertad. Para além da força expressiva, a sua relação com o personagem nos permite desenvolver uma pequena digressão sobre a relação entre quadrinhos e dois conceitos que são tão fortemente propalados atualmente que acabam impondo, mesmo a inúmeras pessoas de bom senso, a noção de que os quadrinhos se prestam à 'diversão' e a seu primo-irmão, o tal 'entretenimento'. Como as duas palavras mostram por seu próprio sentido original, elas são opostas ao conjunto das artes: 'divertir' e 'entreter' significam desviar a atenção de alguém sobre algo. Nada mais natural que sejam dois conceitos tão caros para defender uma ordem que é crescentemente o sinônimo da morte do homem como ser que sonha ou pensa por si próprio, o tal pós-modernismo, que defende que qualquer coisa é qualquer coisa, que as coisas não tem história ou propósito, e que devemos estar nos 'divertindo' a cada instante. Mesmo sendo uma arte mais nova, os quadrinhos, enquanto expressão da mente humana, podem ser alegres, galhofentos, safados, políticos, ou se ater a repetir um dos gestos mais naturais ao homem: transmitir uma estória de uma pessoa a outras. Por dois fatos essenciais à sua estrutura, os quadrinhos não servem à lógica da diversão. Em primeiro lugar, é impossível ler uma HQ 'distraído'. E, em segundo lugar, o que diferencia radicalmente a Nona Arte de outras formas de expressão desenvolvidas fundamentalmente a partir da era da possibilidade técnica multiplicadora dos produtos do engenho humano e a comunicação de massas é que para ler entre um quadrinho e outro, é preciso fantasia e raciocínio abstrato, por menos artística que uma HQ seja. Nisso, reside a grande força civilizadora dos quadrinhos, que, ao invés de 'distrair', fazem o homem fruir e se encontrar consigo próprio em milhares de outros seres, nascidos do poder da fantasia.
 

 
Vertigo no cinema
 
The Losers, HQ do selo Vertigo (pelo qual a DC publica títulos mais adultos de quadrinhos) que está em seu 27º gibi, vai ser adpatda para o cinema pela Warner Bros. Assim, a trama de Andy Diggle, que mostra uma equipe de agentes que fazem todo tipo de ação suja para o governo americano pelo mundo afora, até o dia em que descobrem uma sujeira da própria CIA, e que e´desenhada por Jock, inglês com passagens por Juiz Dred, Batman e Hellblazer. Para a direção e roteiro, foi scolhido Peter Berg , de 'Bem-Vindo à Selva', que se não prima pela originalidade, consegue dar contornos muito originais e precisos a tramas convencionais, e que deve se sair bem no trabalho, especialmente por que seu parceiro será Akiva Goldsman, que tem na carreira passagens pela direção de filmes muitso pontos acima da média americana, como 'Uma Mente Brilhante' e 'Eu Robô'.
 
 
Um Astérix espanhol?
 
Um novo selo da editora espanhola Almuzara, a Bookadillo, foi lançado com um álbum de Paco Nájera (que apesar de uma vasta carreira é mais conhecido fora da Espanha for sua trajetória como cartunista) e Santiago Girón, que vem sendo objeto de muitos aplausos na Espanha, e que, efetivamente parece ter sido pensado e realizado. Trata-se de Tartessos, cujo pano de fundo se dá cerca de 600 anos antes de Cristo, e que foi escolhida, segundo os autores, por apresentar uma mescla muito rica de aspectos de lenda e de história, que permite extrair soluções bem-humoradas. As estórias tem como cenário o Reino de Tartessos, que abrangeu boa parte do Sudoeste da Península Ibérica, o que inclui a maior parte do que hoje é o  sul de Portugal. Tartessos tinha uma organização social mais estruturada do que as demais unidades políticas da época, o que lhe conferiu uma supremacia regional inconteste, o que se traduziu, claro, em viagens de todo o tipo. No primeiro álbum, 'La Ruta del Estaño', mostra um pouco das navegações dos exímios navegadores tartésios em busca do estanho, elemento que - com o cobre, formou o bronze, elemento que deu origem a uma das fases de mais profundas mudanças na Europa: a Era do Bronze.

Pelo que foi apresentado, a HQ se baseia em uma pesquisa muito alentada, o que agrega aos ótimos traços e ao humor uma amostragem muito rica de costumes e usos do período. De todo modo, o aspecto visual, podemos garantir, não só é bom como está disponível numa página eletrônica oficial muito bem organizada e de ótima navegação.
 
Nota: o nosso título para esta nota já estava esboçado quando começamos a escrevê-la, mas foi reforçado por uma afirmação que encontramos dos próprios autores, que dizem que se a série for comparada com a do pequeno Gaulês, tanto melhor.....

 
Aí vem Cinderella
 
A nova caixa de 2 DVDs de Cinderella será lançado em 4 de outubro, em Hollywood, e em vários outros países, no mesmo mês. Na verdade, trata-se de um prodígio de tecnologia em favor do antigo: não se trata de uma adaptação, mas de uma cópia que restaura o filme original dos Estúdios Disney, de 1950, e que traz um novo fruto das pesquisas da Disney, chamado '5.1 Disney Enhanced Home Theater Mix', que aumenta a qualidade do som e promete 'levar o espectador para dentro da telinha':  . A caixa tem preço anunciado de 30 dólares nos EUA, e trará, ale´m do filme - de 75 minutos - alguns jogos e músicas. No site oficial, além da sinopse, já há wallpapers, um jogo online e outras brincadeiras.
 
 
 

10º Salón Mercosur Internacional

Um júri integrado por Volpe Stessens - principal responsável pela maravilhosa organização que é a Fundación Volpe Stessens, que realiza outras iniciativas em favor da união dos povos sul-americanos, como o Museo Itinerante del Mercosur (Itimuseum) -anunciou os vencedores do 10º Salón Mercosur Internacional, realizado em Buenos Aires, que inclui o desenho de humor. O brasileiro Leite venceu na categoria humor gráfico em cores, com o trabalho que ilustra esta nota. Como melhor caricaturista, o salão premiou uma das jovens expressões locais, a argentina Mariela Kavaliunas, que é associada ao Originales Solidarios: arte a favor da infância. Em trabalhos de humor gráfico realizado em uma só cor, venceu o  iraniano Mohammad Ali Khalaji. Em ilustração e desenho, mais 2 prêmios para a prata da casa: pela ordem: Julio Cesar Catignola e Lidia Kalibatas. 
 
O Prêmio Diógenes Taborda homenageia o caricaturista argentino Diogenes Taborda, falecido em 1926. O prêmio e o salão têm o apoio do programa Por la Memoria de Buenos Aires e do governo argentino. Além do traço de humor, também são premiados trabalhos em fotografia, grafitti e artes plásticas. A partir de 21 de setembro, os trabalhos vencedores poderão ser acompanhados na página eletrônica da Fundação Volpe Stessens. As inscrições para a próxima bienal estão abertas até 1º de agosto de 2006.
 
 
Humor no Fim do Mundo
 
Uma outra contribuição do Museo Diógenes Taborda para a disseminação da arte do desenho de humor foi a mostra 'Museo Diógenes Taborda en el Fin del Mundo**, no Museo Marítimo de Ushuaia, que se encerrou no dia 31 de agosto, e que foi apresentada como a primeira mostra internacional de humor gráfico na região. A mostra foi formada com boa parte dos artistas que o museu já havia exibido na 31ª Feira do Livro de Buenos Aires. Em Ushuaya, estiveram presentes trabalhos dos brasileiros Verde, Paulo Vilanova e Bosco, do sérbio Mileta Miloradović, do bósnio Sultanović, dos argentinos Kapros, Julio Cesar Cotignola, Fioramonti, Selene e Edmonds, dos alemães Henning Studle, Frank Hoffmann, Bess, Rudi Schmuckle e Winfried Besslich, dos belgas Bernardi Vittorio e Bob Vincke, do beliorusso Juri Michailov, do francês Lavilla, dos chineses Den Wei Long, Xu Xiao e Hein Ensheng, do sul-coreano  Lee Jung In, dos italianos Andrea Versani e Bortolotti, dos espanhóis Antonio Fraguas, Lombilla, Maria Mosquera e Harca, do cipriota Husein Cakmak, do israelense Boris Heremburg, dos holandeses: Zandstra e Jos  Tomasen, dos iranianos: Gholam Reza Azmi e Barham Azimi, dos turcos Fethi Develioglu e Hicabi Demirci (sobre o qual falamos no Quadrantes dos Quadrinhos de ontem), dos romenos Horia Crisan e Porumbita, do russo Vladimir Semerenko e da dupla ucaniana Juri Kosubukin e Vladimir Kazanesky.
 
**Os argentinos da Patagônia chamam a sua região, com muito bom humor e senso de oportunidade, de 'Fim do Mundo'. 

 
Brasil que pesquisa
 
De 5 a 9 de setembro, a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), sediou o Intercom, que reuniu 21 núcleos de pesquisa sobre comunicação de várias instituições de ensino superior do Brasil organizados através da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação: INTERCOM. Nós pedimos ao pesquisador e fanzineiro Gazy Andraus que fizesse um relato quanto às pesquisas apresentadas sobre quadrinhos, pelo núcleo de pesquisas específico sobre quadrinhos, o NP 16, que está completando 10 anos de criado, este ano. O mais que animador quadro dos 17 trabalhos apresentados foi esmiuçado por Andraus, em artigo publicado pelo Bigorna, que traz também 2 notícias para lá de alvissareiras, e que procuraremos desenvolver em breve: o novo livro do mestre Moacy Cirne sobre quadrinhos e o novo livro da editora independente e especialista em quadrinhos Marca de Fantasia, chamado 'O que é História em Quadrinhos Brasileira', organizado por Edgard Guimarães. 
 
A nova diretoria da INTERCOM tomou posse no dia 8, e é presidida pelo professor José Marques de Melo,  que tem excelentes relações com os quadrinhos, diga-se de passagem.
 
 
Quadrinhos do Taiti
 
O Taiti é o tipo de lugar paradisíaco e espraiado onde o que se poderia esperar em termos de quadrinhos fosse tão somente gibis que se lê e se esquece. Mas a surpresa divulgada pela Agence Tahitienne de Presse, esta semana, o álbum de Pito Ma, que condensa o trabalho do quadrinhista autodidata Gotz, apresenta uma realidade algo mais rica. As HQs de Gotz, já publicadas pelo jornal Les Nouvelles de Tahiti (daí o 'pecado' de serem realizadas em preto e branco) mostram um Taiti ricamente caricatural, em que Pito, o taitiano típico, com sua flor na cabeça, contracena com a sua turma ('ma', em taitiano), constituída por um 'metropolitano' (como são chamados os franceses por lá), um chinês, o melhor amigo de Pito e um personagem com ares de rastafari. Gotz assume o bom humor mesclado com o carinho por sua gente (não é a toa que seu próximo desejo é lançar as estórias de Pito em taitiano) para mostrar esta salutar malemolência que faz dos taitianos seres que vivem melhor do que os habitantes das grandes cidades. No mínimo, um retrato mais rico e afetivo do que se fosse descrito por quem vem e fora. Uma prancha de 'Pito Ma' pode ser conferida aqui. A outra boa surpresa veio ao conhecermos o que publica a Au Vent des Îles - a editora responsável por 'Pito Ma' em sua linha para crianças, onde entre os livros ilustrados, encontramos 'Dicodesiles, mon Premier Dictionnaire Illustré de Tahiti', um dicionário ilustrado com 1.400 termos de taitiano, para crianças de 6 a 12 anos.
 
 
Poderosa Supergirl
 
A volta da Supergirl (Kara Zor-El) aos quadrinhos tem se mostrado uma fonte de alegrias para a DC Comics, aonde é funadmental: no caixa. O segundo gibi da nova série (com o número 1) com roteiros de Jeph Loeb e de Ian Churchill, está superando o número zero;   uma 2ª impressão da revista teve venda esgotada uma semana antes de cehgar às gibiterias americanas. Assim, o gibi terá direito ao seu 4º clichê. Além de grana, a reimpessão também deu chance à editora de fazer uma homenagem a um autor da Era de Prata: a capa da nova impressão, realizada por Ian Churchill, vai reproduzir, em traços gerais, uma capa criada por Curt Swan em 1959, tempo em que os gibis ainda custavam 10 cents. 4 imagens oficiais do gibi podem ser conferidas aqui.
 
 
HQs da Alemanha Oriental
 
A Eulenspiegel Verlag, editora sediada em Berlim e que não é especialista em quadrinhos publicou, este mês, em capa dura, um nova edição de 'Burattino', personagem de Heinz Jankofsky, provavelmente o maior quadrinhista que desenvolveu sua carreira na então Alemanha Oriental. Nascido em 1935 e falecido em 2002, Jankofsky reforça a tradição alemã de ótimos quadrinhistas que sabem transpor em quadrinhos uma ingenuidade que nada tem a ver com a visão corrente do que sejam os germânicos, usando traços muito próximos do que se convencionou chamar 'linha clara', especialmente, em seu personagem mais popular, o manhoso gato Kater Billi. Chamado às vezes de Buster Keaton do pincel,  Jankofsky era um declarado amante das piadas populares, o que explica a sua participação na revista satírica Eulenspiegel embora ele mesmo dissesse que não fazia, propriamente sátira. Da Eulenspiegel também fazia parte Manfred Bofinger, que tem as estórias de Ottokar Domma, também publicadas pela linha infantil de Eulenspiegel, pelo que se vê que as duas expressões andaram juntas por muito tempo, em Berlim. Bofinger, por sinal, já tem até uma obra infantil ilustrada marcada para sair pela KinderbuchVerlag em fevereiro de 2006.
 
A republicação de 'Burattino', até então apresentado como 'raridade' por lojas especializadas traz de volta a adaptação de um dos conto de Carlo Collodi, o criador de Pinóquio, chamada 'Storia di un Burattino', publicada originalmente em 1883 e que foi adaptada por Jankofsky em 1975, com um maravilhoso colorido. A obra vem num formato muito próprio da tradição alemã: 1/3 mais largo do que alto, com 32 páginas, ao preço de 10 euros.
 
ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos