Quadrantes dos
Quadrinhos, 30/08/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do
material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
A internacionalista
Pančevo
A Nona Arte na
Sérbia, a despeito de uma absurda 'notícia' sem nenhum fundamento que foi
difundida estes dias, tem dois fatos reais e ricos a contar ao mundo dos
quadrinhos. De 3 a 9 de setembro, Pančevo, cidade-símbolo da resistência do
povo aos bombardeios de 1999 estará sediando o 4º Festival Internacional de
Quadrinhos, o GRRR!, que vai reunir não só a turma local a 20 quadrinhistas
de várias nações (Canadá, Hungria, Alemanha, Croácia, Suécia, Romênia,
Grã-Bretanha e Grécia), como também teóricos dos quadrinhos. Um dos
detalhes que os realizadores divulgam com maior gosto é que Alootook
Ipellie, representante do povo inuit (que se
espalha entre Alaska e Rússia) estará presente, expondo quadrinhos e
ilustrações. A bem da verdade, Alootook Ipellie não é só importante pela
qualidade de seus trabalhos. Além de quadrinhos, Alootook Ipellie também
escreve e forma entre os artistas mais engajados na difusão da cultura própria
de seu povo, que já tinha seus contornos e valores quando a maioria da Europa
ainda era formada por povos nômades. A melhor tradição do humor inglês do
Monty Python se fará presente através de Charles Alverson, que
também traz a marca da revista satírica americana Help!, que dirigiu com ninguém
menos do que Harvey Kurtzman (que dá nome aos prêmios Harvey), sobre o qual ele
vai proferir uma palestra. O rock americano também estará presente, através da participação de
Dorit Chrysler, que
realizará um concerto na noite do dia 3. O festival também vai aproximar os
quadrinhos do maior gênio que a Sérbia já deu ao mundo, o verdadeiro pai da
eletricidade, Nikola Tesla, com uma exposição sobre a presença dele nos
quadrinhos e em outros meios populares de comunicação. Imaginamos que a
exposição vai conter peças sobre a Generacija
Tesla, a turma de super-heróis diretamente inspirada no cientista.
Para ter uma idéia de como foi o 3º
festival, confira a
cobertura de uma fonte maravilhosa de informações sobre quadrinhos, a Indy
Magazine. Em uma próxima nota,
falaremos do 3º Salão Internacional de Quadrinhos de
Belgrado.

A brava
basca
A lista de
lançamentos da editora basca de quadrinhos Astiberri para setembro é exemplar
para que se mostre as preocupações editoriais de um selo de quadrinhos em uma
região que ainda não traduziu em quadrinhos a sua riqueza cultural. A Astiberri
está enriquecendo a comicografia de língua espanhola com uma reedição de
'Understanding Comics' de Scott McCloud, quadrinhista unanimemente
apontados como um dos grandes catalisadores das possibilidades dos quadrinhos
como arte, no mundo atual; 'Totentanz', o retorno de Dino Battaglia
(1923/1983) às gibiterias espanholas, numa compilação de obras do mestre
italiano originalmente publicadas na revista Linus, nos anos 60, em que ele faz
apropriações originais de escritores como E. A. Poe, H. P. Lovecraft e R. L.
Stevenson, e uma tradução de 'Mother Come Home' de Paul Hornschemeier, um
dos novos nomes dos quadrinhos independentes americanos (nascido em 1977),
que já lançou este ando Return of the Elephant, pela AdHouse Books, uma original
parábola sobre o sentido do mistério, que à primeira vista parece apenas uma
estória de mistério. 'Mother Come Home', que ganhou o título de 'Madre, Vuelve a
Casa' foi originalmente publicado em partes pelo selo autoral Absence of
Ink; e depois pela Dark Horse, em coletânea, e traz um personagem
minimalista que não compreende o que se passa com a sua mãe e no qual Paul
Hornschemeier se revela um artesão da criação de personagens, tanto pelo desenho
claro e cuidados como pelo ritmo deliberadamente lento, que é 'preenchido' pelo
leitor, uma das melhores definições para a obra de 128 páginas, que
foi publicado na França sob o título de 'Adieu, Maman' pela Actes Sud, no
início deste ano é 'minimalismo onírico'. Uma contribuição 'fora dos
quadrinhos' que lança uma bela luz por trazer a visão de quem quis
aproximar o autor de seu público foi dada pela revista Rolling Stone - uma das
maiores referências do rock a nível global, este ano, ao definir Paul
Hornschemeier como 'o
quadrinhista existencialista'. Para não falar dos
quadrinhistas autorais espanhóis já publicados pelo selo este ano. Esperamos
estar errados, e que a Astiberri venda muitos exemplares de seus novos títulos.
Mas o mais provável é que ela enriqueça a Nona Arte muito mais que sua própria
conta bancária...

Por falar em Paul
Hornschemeier
Mome Summer 2005
é o nome de (mais) uma antologia com que a Fantagraphics reúne, além de Paul
Hornschemeier, mais 10 quadrinhistas da cena independente americana: Kurt
Wolfgang, Martin Cendreda, Jonathan Bennett, Gabrielle Bell, Jeffrey Brown, John
Pham, Anders Nilsen, David Heatley, Andrice Arp e Sophie Crumb. Como, a rigor,
apenas 4 autores deste time tem algum reconhecimento mais amplo por seu
trabalho, trata-se de uma boa vitrine com que a Fantagraphics procura
tornar visíveis as produções de mais novos autores para o grande público.
Lançada este mês, 'Mome' tem 128 páginas e preço médio de 13,50
dólares.
O mestre em
Annecy
Annecy sedia um
dos festivais de cinema de animação autoral mais importantes do mundo (que
já tem as datas de sua realização em 2006 5 a 10 de junho): mas, a bem da
verdade, na melhor tradição dos festivais autorais, uma de suas partes
principais continua aberta a visitação: a exposição do mestre tcheco Jiří Trnka
(1910/1969). Apresentado muitas vezes
(inclusive pela AWN)
com o Disney do Leste, foi com ele que o cinema de animação ganhou o status de
cinema autoral, o que deve ser ressaltado pois Trnka foi além de Disney em
dois aspectos: primeiro, fundou uma escola de cinema de animação onde isso era
quase impossível (Disney foi um personagem próximo de 'Max', de
Howard Fast, o melhor exemplar de uma geração inteira que conspirava a favor do
cinema de animação) e por que começou a ganhar contornos independentes como
criador de uma utopia quase impossível: a animação de bonecos, e não do
desenho, ponto inicial da maioria de seus colegas de todos os
quadrantes. Aberta em 1º de julho, a exposição em Annecy segue até 31 de
outubro, e contem objetos a partir dos quais ele criou seus cenários,
documentos, desenhos e bonecos originais. O consórcio de museus da
cidade, o Musées de la Communauté, inclusive, pretende adquirir parte das peças
para que nos próximos festivais a presença física do legado do mestre seja
constante e inspire os novos realizadores. Conheça a trajetória de Jiří Trnka neste
artigo da Gazeta de Piracicaba (ficamos 'devendo' mas esta à cidade) e
a sua
bibliografia que também inclui livros ilustrados.

O Brasil na Alter
Ego
Escolher, dentre
o que a TwoMorrows publica para destacar é
uma tarefa agradavelmente desagradável, pois cada uma de suas revistas sobre
quadrinhos (Alter Ego, Back Issue!, Draw!, Jack Kirby Collector e Write
Now!) é uma mina de matérias bem desenvolvidas e ilustradas sobre várias
tendências dos quadrinhos, nos Estados Unidos. A Alter Ego está trazendo
uma sequência de 3 números em que o Capitão Marvel que foi produzido
no Brasil pela EBAL durante os 20 anos em que a Fawcett Comics ficou
proibida de publicar as HQs do super-herói nos EUA, por conta de um processo
pelo qual a DC Comics (então National Periodical) teve ganho de causa
num caso de plágio com um final típico de...bem, esta longa estória além dos
quadrinhos está muito bem contada por Franco de Rosa, que mostra como a DC se
prevaleceu do período para lançar o Superboy e Supergirl, neste artigo do
CCQHumor. A
participação do Brasil, e de quadrinhistas brasileiros na série já está
sendo mostrada no número atual (o 53), com uma HQ do Capitão Marvel e do Tocha
Humana de 1960 e vai até o especial de Natal, que terá a família Marvel na
capa, em pranchas traduzidas para o inglês. As informações adicionais (pois
as sinopses são - infelizmente - muito sinópticas, sendo este o único pecado da
editora) nos foram passadas por Roy Thomas, diretor da
TwoMorrows.

Nona Arte na Nova
Caledônia
Falar sobre
bandes dessinées e ilhas da Oceania não é mais sinônimo
apenas de Kari, o personagem amigo de Norbert e que pelas mãos de Godard,
protagonizou muitos dos enquadramentos que revelaram as belezas destas
ilhas em maravilhosos quadrinhos. A ainda possessão francesa (a despeito da
resistência do povo Kanak) tem um belíssimo representante da melhor linha
clara de humor, Bernard Berger, que morou em
Paris de 1977 a 1982 e é o responsável pela série 'La Brousse en Folie', que
já tem 19 álbuns publicados e cujo valor agora está registrado pela ficha de
Berger na nova leva de biografados da Comiclopedia** que traz,
mais uma vez, um aporte importante para que se entenda mais de perto o alcance
dos quadrinhos em todo o mundo. A enciclopédia dos autores de quadrinhos também
trouxe um biografema de Jar, o ilustrador de outra série de Berger, chamada 'Le
Sentier des Hommes'. Mas nem só de temáticas europeizadas vive a Nona Arte
caldoche: em maio, o níquel, espinha dorsal da economia da possessão, foi
retratado em um álbum de Teg (pseudônimo de Thierry Gallois) que retrata não só
a riqueza mas também todo o tipo de gente que a atividade econômica atrai,
dos escroques aos sonhadores, e que terá continuidade em mais 2 volumes, que
darão à Nova Caledônia o que a maioria da s nações independentes do 3º Mundo
ainda não têm: uma versão de sua história em histórias em
quadrinhos. Além disso,
na Ilha Sul, no mês passado, houve um festival de BD, destinado a incentivar
jovens talentos.
**A inclusão
de 2 brasileiros, o fanzineiro poético Gazy Andraus e Sergio
Morettini, argentino que virou brazuca, serão focalizados em uma nota dos nossos colegas
do Bigorna.
Invincible e Homem-Aranha
juntos
Robert Kirkman
marcou mais dois belos tentos para seu personagem Invincible, (já publicado
na Espanha pela Aleta): além da publicação do primeiro compilatório do
personagem, em julho, chamado 'Invincible: The Ultimate Collection Vol. 1',
pela Image Comics, com 400 páginas reunindo os 13 gibis que originaram a
série, Kirkman conseguiu um acordo para que seu personagem mais pessoal
apareça na revista Marvel Team-Up 14, que sairá em novembro, que
também tem a sua assinatura. Como o próprio Kirkman define, Marvel Team-Up é uma
revista 'de diversão', mas com certeza, vai abrir novas portas para um
personagem que vem oxigenando a cena dos super-heróis nos Estados Unidos. Para
acompanhar a carreira de Kirkman, vale indicar a sua nova coluna, com o
kirkmaniano nome de ...Buy My
Books, que agora integra o portal Comic Book Resources, uma
das referências mais visitadas sobre quadrinhos, nos
EUA.