Quadrantes dos Quadrinhos, 29/08/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos


 
Os museus imaginários da BD 
 
Uma das muitas contribuições de Thierry Groensteen para o enriquecimento dos quadrinhos são os chamados 'Les Musées Imaginaires', exposição que está montada no CNBDI (Centre National de la Bande Dessinée et de l'Image), sediado em Angoulême. A atual exposição se constitui de 7 galerias que mostram bem as relações entre a Nona Arte e as demais atividades da humanidade (um museu de belas-artes, um museu de história, um museu de história natural, um museu da sociedade, um museu de ciência e tecnologia e uma galeria de arte contemporânea), divididas em 6 museus imaginários. 5 deles estão organizados em torno de um átrio. A mostra está pensada para despertar interesse vários, mais do que simplesmente tornar aparente um sem-número de possibilidades de relação da Nona Arte, exibindo personagens e autores das mais diversas escolas, com vários nichos temáticos como um que ensina como se faz uma HQ. Estes museus imaginários fora inaugurados em 24 de janeiro de 2003 (coincidindo com a abertura do festival de BD), e já foram cenário para que outras mostras fossem montadas. A notícia que estamos divulgando em primeira mão - fora da França - nos veio diretamente de Gaby Scaon, etnóloga e curadora do Musée d'Art et d'Histoire de Rochefort que responde pelo cargo de conservadora do Musée de la Bande Dessinée d'Angoulême desde 2001: o próximo museu da Nona Arte deve substituir o atual até no máximo 2008 (como já estava previsto), e já tem as suas temáticas escolhidas: a história mundial dos quadrinhos, sua estética e suas técnicas, e uma antropologia da HQ. A exposição vai estar montada juntamente com salas de leitura e não vai ter apenas originais e peças impressas: vários produtos derivados da Nona Arte estarão sendo utilizados para tornar mais claras estas extensões. Enquanto os novos museus não saem do imaginário, vale indicar o álbum Musées des Bulles, publicado pela L'An 2, e assinado por Thierry  Groensteen e Gaby Scaon, que é o registro em papel destes sonhos tornados realidade.

Lá vem o 
Chávez em quadrinhos
 
Lá vem o Chávez
 
Chávez continua em evidência: No dia 22. foi divulgado um comunicado pelo qual, nos Estados Unidos, o novo DVD de 'El Chavo del 8', teria vendido 600.000 cópias. Agora, chega a informação de uma HQ 'oficial' do personagem mexicano de TV mais conhecido em todo o mundo, que já teve outras adaptações em quadrinhos. Roberto Gómez Fernández, filho do ator-protagonista de Chávez e Chapolin, Roberto Gómez Bolaños, anuncia para este ano uma revista semanal do persoangem, realizada por um coletivo de desenhistas. O anúncio pelo menos traz a certeza de que a adaptação vai reproduzir e respeitar a estrutura, os temas e os perfis da turma que, para desespero de alguns, encanta a milhões por mostrar na televisão, sem idiossincrasias, como é a vida de um bairro humilde em uma cidade mexicana. A iniciativa conta com o apoio da editora da rede mexicana de televisão que lançou Chávez. Para 2006, está prevista uma série animada de TV.

Hägar e os Bush com Blondie
 
Os 75 anos de Blondie (Belinda) continuam sendo comemorados de várias formas, nos Estados Unidos. Como fato jornalístico sobre o qual não poderíamos deixar de nos reportar - pelo peso que confere ao jubileu e mesmo por ser um raro registro em que o atual mandatário da Casa Branca se relaciona diretamente com os quadrinhos - registramos que o King Features Syndicate (empresa que distribui as tiras de Blondie) tornou público que o casal George W. Bush deve 'comparecer' em forma de desenhos para cumprimentar Belinda pela data, que transcorre em 4 de setembro.  Quem esteve hoje cumprimentando a garota interesseira que se converteu, após o casamento, numa esposa exemplar hoje foi o viking mais adorável das histórias em quadrinhos: Hägar. No site oficial é possível acompanhar, com atraso em relação ao que está saindo nos jornais americanos, as tiras especiais pela data.

 
50 países na Ilustrarte
 
930 artistas de 50 países participaram da segunda edição da Ilustrarte, Bienal Internacional de Ilustração, promovida pela autarquia (circuncisão de municípos) do Barreiro, ao sudeste de Lisboa. A seleção dos trabalhos aconteceu ao final de julho, mas o vencedor só foi anunciado neste final de semana: é o português João Vaz de Carvalho, escolhido por unanimidade. Menções honrosas foram outorgadas à realizadora flamenga Isabelle Vandenabeele, que teve direito a nota na televisão belga Focus TV pelo TV e ao português André Letria (colaborador de 'O Independente' e do 'Jornal de Letras' e das revistas 'Livros', 'Visão' e 'Ícon). O júri seleccionou 50 ilustradores de 15 países, cujos trabalhos integrarão a exposição da bienal, que estará aberta à visitação de 1º de novembro até ao final do ano. A representação por países ficou assim: Alemanha (9 artistas) França (8), Espanha (6), Itália (6) Hungria (1), Israel (1), Bélgica (mais 2), Irã (3), Polônia (2), Portugal (mais 3), Japão (2), e, com um cada, Eslovênia, Uruguai, Inglaterra e Croácia.

Planetes, de 
Makoto Yukimura
 
Um mangá estelar
 
Planetes, de Makoto Yukimura, que é publicado pela Tokyopop nos EUA, foi apontado, na última atualização do portal 9th Art, como uma das melhores HQs de ficção científica dos últimos anos. Procuramos pesquisar para chegar aos motivos centrais da afirmação, a começar pelo fato de que a ciência, efetivamente, é usada na série, que inclui os temas da solidão, amor, ambição, política e relações familiares. Na trama, Makoto Yukimura mostra a relação de 4 personagens que coletam lixo na órbita da Terra, em 2075. Um enredo que ajuda a definir Planetes como uma ficção social sobre astronautas, e que impõe um ritmo lento e intimista, que aproxima trama e personagens com mais profundidade ao leitores. Associe-se que a trama vem acompanhada de um desenho substancialmente mais refinado do que os mangás comuns, sendo constituído de traços absolutamente detalhistas, e se explica o entusiasmo de 9th Art. Tendo no total 5 tankubons, Planetes já foi lançado também no Japão (onde saiu pela Kodansha em 1999), Alemanha, França, Itália e Espanha. 8 páginas de Planetes podem ser conferidas neste link.

 
Davodeau, autobiográfico 
 
O 18º álbum assinado por Étienne Davodeau - realizador que vem se saindo muito bem tanto quanto como roteirista quanto como ilustrador - é sobre a região em que cresceu: os Mauges, no antigo condado de Anjou, de predominância católica e operária, no período que vai do pós-guerra até a Era Miterrand, muito calcado na experiência de sua própria família. Mauges é famosa pela rebeldia de seus trabalhadores desde 1793, quando o levante na região deu início à Guerra da Vendéia.  Em 'Les Mauvaises Gens' - publicado pela Delcourt-, Davodeau (nascido em 1965) mostra a participação dos trabalhadores na cena política e sindical com um traço que pouco lembra a maioria das obras do gênero. Para mais, o quadrinho-verdade de Davodeau acaba tendo sua força exatamente por se distanciar dos discursos de sindicalistas de todos os tipos, cada vez mais em descrédito, na França, especialmente depois que pegaram a direção da maior central sindical do país cometendo atos, digamos, pouco recomendáveis, este ano.  Com sua arte, Davodeau coloca em evidência os verdadeiros sonhos e motivações de gente que quer um futuro melhor para seus filhos, como ele. 5 pranchas deste álbum, lançado no dia 24, podem ser vistos na ficha oficial.
 
 
Terry Dodson: moda e games Marvel
 
Quadrinhos e moda raramente se encontram, tanto por que, para além de ser uma arte sequencial, os quadrinhos pressupõem alguma continuidade, e a moda, via de regra, da mais completa falta de sequência. Mas algumas iniciativas sempre podem aproximar os  dois mundos, especialmente, quando são bem pensadas e fruto de uma mente com boas sínteses. É o caso da última edição da revista americana Complex Magazine, que pediu ao quadrinhista Terry Dodson (responsável por desenhar vários títulos do Homem-Aranha) que criasse alguns modelos a partir de personagens da Marvel.  Pelo que foi publicado por Juanjo Palacios, um dos colegas responsáveis pelo blog espanhol Zona Negativa, consideramos que os modelos para vestir Hulk, Demolidor, o Pantera-Negra, Wolverine e o Homem-Aranha são bons pontos de partida para uma linha Marvel de moda, por que não? No número anterior da Complex, a capa foi consagrada a Jessica Alba, provando que o filme do Quarteto Fantástico acabou abrindo portas para seus atores em muitas frentes. Dodson também participa do desenvolvimento do videojogo 'Marvel Nemesis: Rise of the Imperfects' , desenvolvido em parceria com a EA, para rodar na plataforma PSP, em que Elektra, O Coisa, o Capitão América e o Homem-Aranha têm 'papéis' preponderantes. Dodson foi destacado para dar contornos aos personagens, onde além de reprisar o que vem demonstrando nos gibis, terá de se preocupar com os efeitos em LCD que estão previstos para o game, que ressaltarão cada detalhe nas telinhas dos micros. O resultado será conhecido ainda este ano.

 
Nosorog 45
 
Já está no ar o número 45 da versão virtual de Nosorog, trazendo cartuns de autores de Montenegro, Croácia, República Tcheca, Inglaterra, França, Itália, Japão, Romênia, Polônia, Suécia, Turquia, Ucrânia e Uruguai. Todos os trabalhos, com um tratamento de webdesign muito diferenciado, onde os cartuns e charges vão se sobrepondo e aparecendo em aplicações muito interessantes. A Nosorog é uma revista de humor e página eletrônica sediada em Banja Luka, na república de Bósnia e Herzegovina (cuja maioria da população é formada por sérbios). Em tempo: Nosorog quer dizer rinoceronte, em serbo-croata, e desde 2004 está no ar uma seção que foi bolada pelo cartunista brasileiro Amorim, apresentada sob a forma de um 'concurso' com prêmios hilariamente impossíveis, mas aonde ilustrações com o tema rinoceronte são muito bem vindas. Na página do 'concurso',  além do próprio Amorim, estão presentes dois absolutos expoentes da Sérbia (Aleksandar Blatnik) e da Galícia: Xosé Pereiro (nesta seção, as dicas estão em inglês).

Pacific Comics 
Club
 
Pacific Comics Club
 
Esta nota foi desenvolvida pelo nosso amigo Jean Covezzi, o incansável alimentador do Fantasma News, o blog com notícias em português sobre Fantasma e Mandrake, a partir da edição de 29 de julho do Neorama dos Quadrinhos. Nós passamos a indicação ao Jean pois sabíamos que ele iria apresentar bem as qualidades únicas de mais este sonho que cresceu sobre o mar da Califónia.
 
Um modesto (porém valiosissímo) selo de quadrinhos está alegrando fãs e saudosistas das boas e velhas comic strips. Trata-se da Pacific Comics Club, uma iniciativa do editor Tony Raiola. Este projeto surgiu em meados dos anos 1960 na Europa, mais precisamente na Itália e na França, com álbuns compilatórios de tiras clássicas, posteriormente passando para os Estados Unidos. O selo traz belas edições resgatando verdadeiras obras-primas publicadas em tiras diárias e pranchas dominicais nos jornais no século passado: Flash Gordon, Jim das Selvas, Nick Holmes (Rip Kirby), Agente Secreto X-9, Príncipe Valente, Terry e os Piratas, Ferdinando, Little Nemo e, dentre vários outros, obrigatoriamente tinham de constar o Fantasma e Mandrake nesse verdadeiro catálogo dos sonhos! Vale dizer que existe um cuidado extremo na publicação e impressão das edições no tocante à seqüência correta dos painéis e na reprodução das cores originais.

 
Oesterheld em O Cruzeiro
 
36 anos depois de publicada nas páginas de O Cruzeiro, uma matéria sobre o genial quadrinhista argentino Hector German Oesterheld, criador de El Eternauta volta a ser publicada, desta vez, virtualmente, e em espanhol. Mariano Chinelli, o maior aglutinador de pesquisadores e apreciadores da arte de Oesterheld, batalhou alguns meses para conseguir autorização para a transcrição de uma matéria de fundo assinada por Mario de Moraes para O Cruzeiro Internacional, e agora brinda os leitores com um registro que também vale para mostrar como eram feitas as matérias de uma revista brasileira que está longe de ter uma substituta à altura, não somente pela profundidade e apresentação visual, mas especialmente, por ter sido uma das referências do humor brasileiro com as suas antológicas fotofofocas. O Neorama dos Quadrinhos se orgulha de ter ajudado, como meio de comunicação, a que mais esta prova de desprendimento em favor do conhecimento da história da Nona Arte e de suas relações.
 
ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos