Quadrantes dos Quadrinhos, 22/08/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos


 
 
O homem que juntou Dalí e Ditko
 
Em 2005 - Craig Yoe, antigo diretor de criação e vice-presidente de produção dos 'Muppets' - publicou um livro que, na nossa opinião, merece ser conhecido e noticiado o primeiro volume (de 6) de de Arf, com o título de 'Modern Arf: The Unholy Marriage of Art & Comics', que descreve a relação entre quadrinhos e as artes plásticas de 1836 até hoje, em 120 páginas de grande formato, com um belo tratamento editorial ao preço de 20 dólares. Modern Arf, publicado pela Fantagraphics,  embora tenha recebido menos referências do que merece, sempre foi apontado como uma obra com muitos méritos. Neste volume, Yoe estabelece uma relação entre Salvador Dalí (que realizou em vida o que Picasso sempre se lamentou por não ter feito: algumas obras em quadrinhos) vários mestres de quadrinhos de várias gerações e estilos, com reproduções de trabalhos de Guido Crepax, Jack Kirby - que comparece com a sua HQ mais surrealista: 'The Fourth Dimension is a Many Splattered Thing', que abriu caminho para Steve Ditko criar o Doutor Estanho), Jim Steranko, Winsor McCay e Robert Crumb, incluindo material gráfico de seu extenso acervo pessoal, e um ensaio seu.
 
O Neorama dos Quadrinhos tem a honra de publicar a primeira parte de uma e-entrevista com Craig Yoe, sobre esta obra e sobre a sua sequência. 
 
Marko Ajdarić:  Que tipo da ajuda você teve ao fazer realizar este maravilhoso 'Modern Arf'
 
Craig Yoe:  Grato por chamar o livro de maravilhoso, Marko!  Para realizar Modern Arf, eu tive a ajuda decidida de muita gente, e depois da publicação, também. nde e do muito auxílio desde sua publicação, demasiado.  Minha sócia no YOE! Studio, Clizia Gussoni*, e toda a equipe que trabalha no estúdio fizeram muita coisa para que o livro fosse publicado. Alguns dos prfissionais da minha editora, a Fantagraphics, como Gary Groth, Kim Thompson e Eric Reynolds, foram ótimos de se lidar. Historiadoores e colecionadores têm nos incentivado e ajudado a encontrar material para os próximos volumes.Gente como Bud Plant**, George Hagenauer, Alex Buchet, R. C. Harvey, Alfred Castelli e Michael Feldman têm sido particularmente fantásticos, neste aspecto. Uma espécie de conselho editorial vem se formando, unindo pessoas de vários países que amam mostrar o que quadrinhistas do passado já fizeram. Aliás, os quadrinhistas vêm sendo uma fonte de motivação diária para mim, e acrescentam muito prazer á minha vida. Acredito que em Modern Arf, o meu entusiasmo por todos os grandes artistas, incluindo os mais conhecidos e e - em particular, os menos conhecidos - fica aparente. Acredito que é disto que vem a resposta positiva que o livro vem tendo.
 
Na sequência, Craig Yoe vai nos falar da receptividade a seu trabalho, de sua visita à Argentina e da volta dos Muppets à TV.
 
*Designer italiana com quem Craig já publicou o livro ''Valentine's Day Jokes & Riddles'
**Que foi objeto de uma nota no Quadrantes dos Quadrinhos do mês passado
 
 
Este é o nosso Mauricio de Sousa
 
O mais bem sucedido autor dos quadrinhos brasileiros continua mostrando que está atento às possibilidades que os quadrinhos têm de unir encanto, boas estórias e mensagens corretas. Além de estar envolvido com o lançamento do DVD 'Cine-Gibi II', que colocará mais perto das crianças de todas as idades o 8º filme dos personagens que ele criou em torno da figura de sua filha, a Mônica, a partir de 7 de setembro, o quadrinhista teve tempo de aproveitar o belíssimo exemplo da visita de Pelé a Maradona, na estréia do programa de TV do ex-jogador argentino (que teve direito até a filme de animação bem-humorado envolvendo os dois craques), para voltar a acenar com a possibilidade de unir argentinos e brasileiros com a retomada do projeto de Dieguito, a HQ que ele tentou realizar sobre Diego Armando Maradona e que não deu certo por que.... bem a história, o próprio site do Mauricio conta, neste link. Não é a toa que Carla Camuratti, a cineasta brasileiras que merece o respeito de todos, pela determinação com que se dedicou a construir uma carreira de diretora autoral de cinema - juntamente com a produtora Carla Esmeralda - , estão dedicando ao Mauricio o III Festival Internacional de Cinema Infantil,  que elas dirigem, que irá colocar - em setembro - em cinemas de 10 cidades brasileiras filmes de realizadores da qualidade de José Márcio Nicolosi (realizador de Cine-Gibi), Jannik Hastrup (Dinamarca), Ilya Maksimov (Rússia), Paul Grimault (França), Daniel Robichaud (França), Liisa Helminen (Finlândia), Hermine Huntgeburth (Alemanha) e o maravilhoso filme 'Sonho de uma Noite de São João', de Angel de la Cruz e Manolo Gómez, sobre o qual já falamos no Quadrantes dos Quadrinhos, dando continuidade, de certa forma ao I Encontro Nacional do Cinema Infantil, realizado e julho, dentro da 4ª Mostra de Florianópolis.  
 
 
A HQ holandesa, em 6.327 links
 
Já tivemos a oportunidade de falar, recentemente, sobre a Comiclopedia, a maior referência de biografias de autores do mundo, que é realizada, mantida e atualizada pela Lambiek, uma das maiores gibiterias da Holanda e a mais antiga da Europa. Neste final de semana, os responsáveis pelo portal da Lambiek atualizaram a outra parte de sua contribuição para a história dos quadrinhos, a De Nederlandse Stripgeschiedenis (História dos Quadrinhos Holandeses), um acervo sobre a história da Nona Arte nos Países Baixos que vem organizada por períodos, a partir de 1850, e inclui, com a nova leva de suor dos colegas, nada menos do que 6.327 links, com todos os tipos de referências sobre estes 155 anos. Mesmo para quem não entenda uma palavra do que está publicado, vale a indicação para que se conheça aquele que é, até onde sabemos, o maior registro sobre a história dos quadrinhos de um só país. Para além do volume de informações,  a organização e a navegação entre as seções é uma bela amostra do que se pode fazer para este tipo de contribuição.
 
 
Dustin Nguyen, o bom de capa
 
As capas das revistas de super-heróis são cuidadosamente pensadas para que vendam mais, ao ser vistas nas gibiterias, o que é absolutamente normal, dentro de uma visão de produto. Mas a Marvel e a DC Comics tem um comportamento muito interessante, neste particular, valorizando o trabalho do capista, o que é seguido de perto pelos colegas que fazem a cobertura das duas majors americanas, com direito a entrevistas, prêmios e outras iniciativas que ressaltam este profisional tão importante. Dentre as centenas de capas de gibis que vemos por semana, uma da DC Comics nos chamou a atenção, esta semana; foi a do 11º gibi de Authority: Revolution 11, que tem tem roteiros de Ed Brubaker, e arte de Dustin Nguyen e Richard Friend, com capa do próprio Nguyen, em lançamento, este mês, que reforçou a bela fase de uma outra, ainda melhor, na nossa opinião, de Batgirl 65, lançada em junho passado, quando também saiu esta bem resolvida capa de Batman (641). Nguyen, egresso do selo WildStorm, com seus traços marcantes e uso de tons de negro, recupera uma das melhores escolas do desenho de super-heróis, e reforça o que a escolha dos colegas do portal 9th Art (um dos que produz análises mais profundas sobre quadrinhos, nos EUA), ao final de 2004, quando Nguyen foi contemplado com o prêmio 'Ninth Art Lighthouse Awards', concedido pelos críticos do site, como talento emergente do ano.  
 
 
Sexy Voice and Robo nos EUA
 
Um dos mais originais mangás publicados este ano na Europa, 'Sexy Voice and Robo' acaba de ter a sua estréia nos Estados Unidos, e por uma das gigantes do setor, a Viz, de onde, se espera, possa ganhar novas traduções. A originalidade do tema é a maior marca do mangá: sua protagonista, Nico Hayashi, é uma atriz de telefone. Isto mesmo, daquelas que fazem usuários se prolongar ao telefone por minutos a fio em linhas de sexo pago. A estória tem dois componentes gerais que denotam a aproximação do autor, Iou Koruda, sobre o tema: em primeiro lugar, Nico tem somente 14 anos, e além disso, trabalha para uma máfia japonesa. A primeira confirmação do valor da obra veio do Japão, onde recebeu o prêmio de melhor mangá do Ministério da Cultura, em 2002, dentro do Media Arts Festival Award. Bem, dito assim pode parecer uma obra de fundo psicologista e educacional, mas não é. Koruda consegue desfiar a trama a pouco e pouco, com ótimo ritmo e observações agudas,  com um desenho mais que satisfatório. Por onde tem sido publicado, o seinen (mangá adulto) tem recebido resenhas satisfatórias, e se não chega a ser uma obra-prima, enriquece a visão que se tenha dos mangás, com toda a certeza.  

 
10 anos sem Hugo Pratt e o Corriere dei Piccoli
 
Durante o final de semana, as homenagens de vários veículos da imprensa italiana - geral e especializada - pelos 10 anos do falecimento de Hugo Pratt - registrados no dia 20 -  foram inúmeras. Até jornais que nunca falam da Nona Arte resgataram material interessante e colocaram em circulação para seus leitores. Neste particular, a imprensa italiana foi muito além do que se poderia esperar. Mas, se as homenagens aos 10 anos sem o mestre foram inúmeras, não se pode dizer o mesmo sobre outra data pouco memorável para a Nona Arte italiana: foi em 15 de agosto de 1995 que deixou de circular o Corriere dei Piccoli, a primeira revista de fumetti, fundada em 1908, e que foi durante gerações o melhor ponto de encontro entre quadrinhos e outros personagens infantis na Itália, e talvez, em alguns períodos - no mundo. Pelo que pudemos perceber, a data passou praticamente em branco.
 
 
 
O maior concurso do ano
 
Uma das maiores cidades da América Latina, Bogotá, tem um prefeito novo, desde este ano, com um viés, digamos, que não estava em certas previsões. O fato de que suas realizações não 'fossem notícia' nos despertou a curiosidade, pois era possível que estivesse fazendo algo de bom. Bem, nossa hipótese não somente estava certa como nos deu a chance de encontrar o maior concurso de quadrinhos que se tem notícia para crianças, no mundo, este ano, associado à saúde pública. Para saudar e incentivar a particpação ativa das crianças na semana municipal de prevenção, a prefeitura de Bogotá lançou o ''Prevenir es mi Cuento', um concurso para criança de 7 a 12 anos, que devem realizar histórias em quadrinhos sobre os temas da prevenção  dos riscos à saúde que a falta de higiene causa. O prazo de inscrições termina em 9 de setembro, e a estimativa da prefeitura é que 120.000 crianças de toda a Colômbia participem (o concurso é federal), o que é mais que provaável, pois na fase preliminar do concurso se inscreveram 168.000 crianças de 268 colégios.

 
 
Lucky Luke, entre o bom e o pessimamente péssimo
 
Lucky Luke, série que foi iniciada pelo desenhista Morris em 1946, e continuada em parceria dele próprio com René Goscinny até  a morte deste, em 1979 continua sendo objeto de interesse de gente que se vale de sua imensa simpatia e pela riqueza ímpar de um universo em que o protagonista, muitas vezes, é um mero argumento para que sejam descritas as mais interessantes personagens que compuseram o faroeste americano, do escravo que cantava soul aos artistas e arrivistas de todo o tipo . Infelizmente, nem todos estes esforços tem base artística. Comecemos pelas boas novas do cowboy que atira mais rápido que a própria sombra: entre este mês e setembro, novas coletêneas estão sendo lançadas em Espanha, França e Alemanha, todas contendo HQs que tiveram a assinatura de Goscinny nos roteiros. A segunda notícia é que Lucky Luke será objeto de um game para celulares chamado 'Lucky Luke Outlaws', a cargo de um novo estúdio, chamado Mighty Troglodytes, que recebeu autorização da Dargaud para sua realização.Já está definido que o jogo será em apenas 2 dimensões, mas, o reducionismo é quase intolerável: pelo que foi divulgado, o joguete se  resumirá a colocar o personagem atirando em tudo o que vê... Definitavemente testado e reprovado é um pretenso filme baseado em Lucky Luke e nos geniais quatro irmãos Dalton, a hilária família de foras-da-lei, que acaba de ganhar a sua versão em português. O único comentário que temos a fazer sobre este estorvo  chamado 'Les Dalton' é que, por favor, nossos leitores se incumbam de avisar a outras pessoas que se trata da pior e mais mal dirigida fita de quadrinhos do ano, não tendo absolutamente nada que ver com a genial obra original.
 
 
Tolkien: prêmio para Terry Pratchett
 
Na semana passada, se realizou a conferência Tolkien 2005, em Birmingham, Inglaterra. Entre os muitos eventos que reuniram estudiosos de uma das obras literárias recentes mais debatidas em todo o mundo, houve a entrega dos Mythopoeic Scholarship Awards. O vencedor na categoria de melhor obra infantil foi para - Terry Pratchett, um dos mais importantes elos entre os quadrinhos e a literatura de fantasia atual - por seu livro 'A Hat Full of Sky' (a seqüência de 'The Wee Free Men'), publicado pela Harper Collins.  Para além da relação enriquecedora de Terry Pratchett ao universo dos quadrinhos, onde além de inspirar inúmeros criadores com a sua série Discworld, é co-autor de 'Belas Maldições' (em Portugal, 'Bons Augúrios'), e 'Deuses Americanos', com Neil Gaiman, e está sendo quadrinhizado na Itália pela Kappa Edizioni, entre outros pontos de conexão. O Quadrantes dos Quadrinhos pediu à escritora Martha Argel - doutora em ecologia que tem 4 livros de literatura fantástica publicados e autora de um dos melhores livros ilustrados do Brasil, em 2004, o Voando pelo Brasil - que nos fizesse um curto relato sobre a importância de Pratchett. Bem, digamos que nossa autora não tenha conseguido ser muito curta, e acabou nos brindando com um perfil bastante completo do genial escritor, que publicamos a seguir.
 
'Terry Pratchett, um inglês nascido em 1948, é atualmente considerado um dos grandes autores da literatura fantástica mundial, com cerca de 40 milhões de livros vendidos em 27 idiomas. É reconhecido também como um dos melhores escritores contemporâneos de humor e sátira.

Hilariantes, seus livros estão repletos de citações, quase sempre distorcidas de forma inesperada e divertida. Uma característica marcante da escrita de Terry Pratchett é que o humor, sempre desenfreado, não interfere na emoção da narrativa, na aventura e no suspense das histórias, graças a sua inspirada habilidade como contador de histórias.

Sua obra mais conhecida é extensa série Discworld, fantasia humorística repleta de paródias e críticas inteligentes. Discworld é um mundo em forma de disco apoiado nos ombros de quatro elefantes gigantes, que estão sobre uma imensa tartaruga que nada lentamente através do espaço. Todos os elementos dos contos de fadas, dos épicos de cavalaria, da fantasia clássica aparecem ao longo dos mais de 30 volumes que compõem a série: bruxas, nobres, demônios, disputas de poder, batalhas violentas, profecias, dragões. As tramas e cenários nos quais se inserem, porém, são os mais bizarros possíveis. Terry Pratchett é capaz de usar como fonte de inspiração praticamente qualquer aspecto da vida moderna ou da cultura mundial. Física quântica, religião, filosofia, história, política, mitologias, folclore, clássicos como Shakespeare e Homero, a cultura pop, obras de Hollywood, novelas policiais, RPG, movimentos de minorias, racismo, feminismo, economia global, corrupção, clichês da ficção científica e sabe Deus mais o quê são para ele uma fonte inesgotável de humor. O que o leitor quiser, vai encontrar em Discworld, mas não provavelmente do jeito que espera.
Terry  Pratchett publicou seu primeiro livro, The Carpet People, em 1971. Em 1983, inaugurou a série Discworld com The Colour of Magic (no Brasil, A Cor da Magia). Em 1987, tornou-se escritor em tempo integral. Além da série Discworld, publicou outros doze livros, incluindo obras infantis e um volume sobre gatos. Publicou alguns livros em parceria, e entre seus co-autores está Neil Gaiman. Também colaborou em obras sobre o universo de Discworld, tem contos em coletâneas e prefaciou livros de outros autores.

No Brasil, os livros de Terry Pratchett são publicados pela Conrad Editora, que lançou oito títulos até o momento.'


Adeus, Joe Ranft, parte 2
 
O falecimento de Joe Ranft mostrou uma bela faceta da chamada imprensa virtual de quadrinhos e de outros setores próximos à Nona Arte, que é típica de uma imprensa feita por quem quer se comunicar sobre algo que gosta, acredita e quer ver difundido. Em todos os portais deste tipo em que vimos o registro do passamento do genial criador da Pixar - a preocupação foi uma só (embora nem todos com o mesmo tempo, o que é normal): mostrar dados sobre a biografia de Joe Ranft que tornassem mais claro ao leitor a unicidade de sua vida, de sua carreira, de seu exemplo. Assim, a 'imprensa de blogs' mais uma vez mostra sua maior qualidade: aproximar o fato das pessoas, ao mostrar os fatos com seu cheiro, seu peso e sua cor únicos, e não mostrando os fatos em seus traços mínimos, como quem preenche uma fórmula pronta de contar coisas. Em nenhum artigo que vimos, a estrutura do texto foi igual ou parecida, mostrando que, para falar de um artista que nos deixa, todos se dispuseram em investir um tempo extra para pesquisar. A este esforço, juntamos a ilustração que homenageia o legado de Joe Ranft do cartunista equatoriano Vidal, pseudônimo de nosso recém entrevistado Andres Rivadeneira Toledo.  
 
ARQUIVO do Quadrantes dos Quadrinhos