Quadrantes dos
Quadrinhos, 01/08/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do
material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
Dreamworks: o fim do
sonho?
Criada por Steven
Spielberg e mais dois sócios em 1994, a Dreamworks pode estar com os dias
contados. Em 11 anos, a empresa que brindou os espectadores de todo o mundo com
alguns dos melhores filmes de animação ao longo destes anos, parece não ter
conseguido se tornar economicamente viável, ou, pelo menos, segundo o anunciado,
ter o porte que seus sócios esperavam. A Dreamworks, que já valeu para os
yuppies de Wall Street 4 bilhões de dólares, agora teria um valor de
mercado de apenas 2 bilhões e meio, e a saída que já se delineia é a venda para
uma das blockbusters do chamado entretenimento, a Universal. Para além
da má notícia em si, ela é um perigoso indicador de que os espaços para a
produção independente, mesmo com talentos do porte de Spielberg, estão cada
vez mais restritos nos EUA. Para ter uma
idéia do que a Dreamworks vinha realizando apenas no setor de animação, confira
esta nota dos
colegas do Animatoons.
A Fantástica
Fábrica de Chocolate, pelo olhar dos quadrinhos
Mais uma vez, contamos
com a colaboração do quadrinhista e cineasta Ruy Jobim Netono Quadrantes
dos Quadrinhos. Desta vez, Ruy verte para o português os comentários de
um representante da criação da indústria americana de quadrinhos sobre
um dos filmes do momento, em todo o mundo. Confira:
Em sua análise
puramente artística, Paul Dini, roteirista da série de TV 'Batman - The Animated
Series e argumentista de séries da DC e Vertigo como LJA e Zatanna' não viu com
bons olhos a nova versão dirigida por Tim Burton para 'A Fantástica Fábrica de
Chocolate' (no original: 'Charlie and the Chocolate Factory'), devido a
incongruências relativas ao personagem central, o Sr. Willy Wonka, que no livro
original de Roald Dahl se trata de um homem muito mais idoso do que o ator que o
interpreta, no caso específico, Johnny Depp. Até mesmo o ator da versão
cinematográfica de 1971, Gene Wilder, é jovem demais para o papel. A crítica se
faz graças à pressão dos produtores cinematográficos pelo uso de atores jovens,
em detrimento, por exemplo, de um ator septuagenário para um personagem como
esse, o que leva a essa discrepância. Diz o roteirista, em determinado momento
de sua análise, que a lembrança que ele leva de ter visto a estátua no Museu de
Cera de Madame Tussaud, em Londres, baseada nas ilustrações da primeira edição
do livro, é que Wonka é realmente uma figura idosa. Lembrando a interpretação de
Gene Wilder, para o filme dirigido por Mel Stuart, Dini registra que o ator dá a
impressão de parecer um adulto com uma visão infantil do mundo adulto, como se
uma sabedoria brincalhona estivesse por trás de toda ação de Wonka, distribuindo
lições de vida aos meninos vencedores do tíquete de ouro (o Golden Ticket).
Assim, ele vê Wilder interpretando o personagem, fazendo de Willy Wonka um
workaholic obsessivo que via as relações humanas como um impedimento para seu
gênio criativo, onde crianças mesmo são apenas convidadas. Enfim, um mundo
solitário criado pelo trabalho infindável na produção de chocolate, chocolate e
mais chocolate, como se a ele não fosse permitido ter crianças dele próprio, ou
seja, filhos. Por fim, Paul Dini faz a crítica ao filme de Burton, esticando ao
fato de que Johnny Depp, encarnando Wonka, tem pele de bebê, aspecto de Marilyn
Manson, beira os trinta anos e se contrapõe novamente ao personagem central do
livro de Dahl, quando um jovem (e não um idoso, novamente) chega à condição de
milionário com tão pouca idade, opondo-se, assim, até mesmo ao idoso Uncle
Scrooge McDuck (Tio Patinhas) criado pelo gênio de Carl Barks para os quadrinhos
Disney, por sua vez inspirado em outro idoso, de Charles Dickens, o Sr. Scrooge
de 'Um Conto de Natal'. Enfim, o termo que o roteirista usa para
demonstrar sua ira contra ambas as versões cinematográficas de um personagem que
(principalmente no segundo filme, o atual) teima em se manter isolado de um
convívio familiar e de ter filhos, mesmo com tão pouca idade e no auge da
virilidade: 'não dá para engolir'. BOX: Indicamos a leitura,
também, de uma nota
publicada por Eloyr Pacheco, editor brasileiro de quadrinhos, sobre o livro
A Fantástica Fábrica de Chocolate, do escritor galês Roald Dahl, como
complemento a esta nota.

O 1º gibi a introduzir o
conceito de universos paralelos
O portal
brasileiro Burburinho, que traz artigos e
notícias sobre vários setores da cultura, brindou aos seus (e agora, aos
nossos) leitores, em sua última atualização (do dia 31), com um artigo de
Ricardo Bittencourt que coloca com muita
propriedade a originalidade do personagem The Flash, da DC Comics, em especial,
de seu número 123, de 1961. O artigo traz uma análise da trajetória de The
Flash, e colabora com o conhecimento da história dos comics ao
estabelecer conexões da HQ com David Hume, a história recente dos Estados Unidos,
filmes como Matrix e revela que Flash
foi contemplado também por ser o gibi a
introduzir o conceito de universos paralelos. Tudo isso, numa linguagem que
agrada aos 'iniciados' e às pessoas que se interessam, de uma forma geral, pelas
expressões da arte como processo, e não como 'fatos', em si.
Os hentais na
revista de Gabo
A revista
colombiana Cambio - adquirida em 1988 por Gabriel García Márquez - em
sua nova edição, publicada neste final de semana, colabora para uma compreensão
do fenômeno dos hentais, os mangás eróticos japoneses com um artigo de
fundo. Acreditamos que a frase-síntese do artigo é 'Toda la cultura está
hablando de sexo y los japoneses están respondiendo a una demanda del
mercado'. Para além de ser uma referência útil para tratar com
seriedade o assunto, a Cambio traz informações que ajudam a entender a relação
dos mangás - e dos hentais - com a juventude colombiana, nos informa que
a Universidad Nacional (responsável, entre outras belíssimas
iniciativas a favor da Nona Arte, pelo Museo Virtual de la
Historieta Colombiana) tem um grupo de estudos específico sobre o tema e
também mostra a relação dos mangás com a gravura japonesa do século XII.
O trailer de 'A Lenda de
Zorro'
A Sony
Pictures já disponibilizou o primeiro trailer do filme 'The
Legend of Zorro', que é protagonizado por Antonio Banderas, Catherine Zeta
Jones e Anthony Hopkins, com direção de Martin Campbell (de '007 contra Golden
Eye' e 'Limite Vertical'), que já dirigiu ''A Máscara do Zorro', em 1998, com os
mesmos protagonistas. Na nova montagem, Steven Spielberg é o produtor
executivo, O filme deve estrear em novembro, nas salas americanas,
Vale lembrar que a
retomada do personagem na cena americana também está sendo influenciada pela
volta do personagem em quadrinhos numa série da mais que autoral editora NBM,
ainda este ano, e pelo livro 'Zorro', da escritora chilena Isabel Allende,
já publicado nos EUA e em outros países, este ano.
E por falar em
NBM...
Para mostrar bem o lado
mais autoral da NBM, indicamos uma obra que tem lançamento em
setembro: 'Give it up'', constituído por 9 estórias do mais genial escritor
austríaco, Franz Kafka, numa nova edição, encadernada. O autor é Peter
Kuper, o ilustrador de 'Spy vs. Spy', da revista MAD, e o prefaciador é Jules
Feiffer, um dos nomes mais importantes dos quadrinhos de humor nos EUA, depois
dos anos 50. A obra, de 64 páginas, em preto e branco, tem preço anunciado de 9
dólares.
Clara de Noche,
em português
A nova e boa
surpresa de Portugal vem da editora especialista Vitamina BD, que passa a
publicar a série de tiras diárias Clara de Noche, do argentino Carlos Trillo e
do catalão Jordi Bernet, com o título adaptado para Clara de Noite. A aposta é
arriscada por um aspecto: para além da qualidade da obra, que já agrada público
e críticos na Argentina há 13 anos, as estórias em que a bela que exerce a mais
antiga profissão do Mundo com um sutil e raro humor é marcada pela gíria
tipicamente portenha. Esperamos que a VitaminaBD saiba contornar esta
dificuldade com sucesso. Voltamos a indicar o link onde se pode acompanhar as tiras da série no site da ótima revista diária Página
12.
2.000 pessoas
no lançamento do novo livro de El Fisgón
'La Canallada del
Desafuero para Principiantes', livro dos cartunistas El Fisgón e Hernández, foi
lançado no sábado, na Cidade do México, perante um auditório de mais de 2.000
pessoas, o que, em termos latino-americanos, deve ser o recorde no ano de 2005.
O livro conta com o selo da Grijalbo, uma das editoras que mais contribui para o
avanço das ciências humanas não só no México, mas em toda a América Latina, há
décadas. O livro, o quinto realizado em conjunto pelos 2 autores, expõe uma
das mais belas páginas de resistência e organização dos cartunistas, no presente
ano, quando os moneros mexicanos foram, em boa medida, os
principais responsáveis pela reação popular a uma tentativa de golpe branco
contra o atual prefeito da Cidade do México, candidato a presidente daquele país
em 2006. Não é de estranhar que o fato não
tenha sido noticiado por gente que se comportou 'tão bem' no episódio
dos selos de Memin Penguin.
O vencedor do
Prêmio Franco Fossati
A Fundação Franco
Fossati - instituição que é a
principal organizadora e incentivadora da Nona Arte como expressão na
Itália - entregou, no dia 23, seu principal prêmio: o
conferido à obra que considera ter sido a melhor contribuição para os
quadrinhos publicada na Itália em 2004: Magica America, com o subtítulo
de 'Hugo Pratt e non solo: l'Apporto Italiano al Fumetto Argentino del
Dopoguerra', livro publicado pela ANAFI,
(Associazione Nazionale Amici del Fumetto e dell'Illustrazione). O livro
teve tiragem limitada (700 exemplares), e dificilmente o fruto da pesquisa
cujos organizadores foram Gianni Brunoro e Roberto Reali. se poderá
encontrar mesmo nas melhores gibiterias da Itália, pois foi editado apenas para
os sócios da ANAFI. Uma pequena janela para o
trabalho pode ser conferida neste
link, onde está o prefácio assinado por Gianni Brunoro, que
mostra bem as relações entre fumetti e os quadrinhos na Argentina,
especialmente, nos últimos 60 anos.