Quadrantes dos Quadrinhos, 21/07/05
10 notícias com texto final de Marko Ajdarić a partir do material publicado pelo Neorama dos Quadrinhos
 

40 anos de Philémon
 
Em 22 de julho de 1965, o mundo via pela primeira vez pranchas de Philémon, criação do parisiense de origem grega Fred.Com Philémon, os quadrinhos ganharam possibilidades novas, aliadas a uma visão de mundo lírica e ao mesmo tempo, de uma profunda filosofia capaz de nos mover de nossas certezas mais profundas. Impossível ter lido as estórias com seus riquíssimos personagens como o Manu-Manu e ter certezas sobre elas. Com Philémon, Fred legou aos quadrinhos um exemplo raro de obra aberta. No que cabe em uma nota de resumo, lembramos que Fred, ao mesmo tempo, conseguiu garantir um espaço para a perfeita u-cronia (boa parte de seus 15 álbuns se dá em viagens entre letras de 'Oceano Atlântico) e criar novos usos de uma prancha inteira de quadrinhos como estaBox: no Brasil, a CEDIBRA publicou álbuns de Philémon no final dos anos 70, tendo sido uma escolha muito feliz para introduzir no país um novo tipo de bandes dessinées, facilitando a assimilação de outros quadrinhos que vieram a ser descobertos depois.
 

No Mundo Encantado da Marvel
 
Julho lembra Flórida (para quem come 3 vezes ao dia, pelo menos), não só nos EUA. Pois entre as muitas atrações da Flórida, os super-heróis da Marvel têm seu espaço temático: é a Marvel Super Hero Island, que integra o complexo da Universal Studios, em Orlando, e é composta de um loop em 360 graus 'inventado' pelo Doctor Doom, inimigo do Quarteto Fantástico, a  montanha-russa de Hulk, um brinquedo em que você gira enquanto os X-Men te convocam para lutar contra vilões como Magneto e um show com óculos 3D do Homem-Aranha. Nos espaços do Marvel Super Hero Island, você ainda encontra uma patrulha formada pelos super-heróis que passeiam e divertem a todos, mantendo a boa bagunça. Portanto, antes de programar suas férias, pense em reservar algumas horas para conhecer tudo isso, além das lojas e lanchonetes, no Stan Lee Boulevard. Nota: pelo que pesquisamos, é a primeira vez que um site sobre quadrinhos em português publica uma nota a respeito.
 

O cavaleiro da literatura em HQ
 
Milton Knight, que já foi o responsável por coligir e organizar os volumes da série Graphic Classics reunindo inúmeros artistas para ilustrar mestres da literatura americana como Ambrose Bierce, H. G. Wells, Jack London, Mark Twain e O. Henry em álbuns específicos de 144 páginas cada (com boas recomendações de crítica), agora brinda os leitores com uma coletânea intitulada 'Adventure Classics' em que 14 ilustradores adaptam contos de autores como Rudyard Kipling, O. Henry, Arthur Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, Alexandre Dumas e Zane Grey. Mais uma boa ponte entre quadrinhos e boa literatura, esperamos. O volume tem 144 páginas em preto e branco e tem um preço médio de 11 dólares. Todos os títulos desta nota têm o selo da Eureka Productions.
 

Uma surpresa no Cartoon Network
 
Nesta quarta-feira, o Cartoon Network anunciou que em 2 de outubro, a série de tiras The Boondocks, de Aaron McGruder, estréia na programação da emissora, no horário das 23 horas. Até o elenco de vozes já foi definido. The Boondocks, cujos protagonistas são dois garotos afro-descendentes, é uma das tiras mais engajadas politicamente nos Estados Unidos, atualmente, não poupando quase nada do chamado 'establishment'; em especial, o racismo.  Seu autor, Aaron McGruder, tem uma visão muito clara sobre seu papel como intérprete da comunidade negra: 'quando você é o primeiro a tornar explícito o que é senso comum, você é considerado radical'. Pela trajetória de McGruder, é de se esperar que a adaptação para TV seja fiel às tiras, já publicadas por mais de 250 jornais. Assim, esperamos que em breve mais alguns milhões de pessoas (especialmente fora dos Estados Unidos) conheçam mais de perto The Boondocks. As tiras de The Boondocks no portal Ucomics estão neste link..
 

Comicfest München 2005
 
De 1º a 4 de setembro, Munique sedia mais uma edição de seu festival bianual de quadrinhos. A 12ª Comicfest München é um bom exemplo de como agregar vários setores do mundo dos quadrinhos. A festa já conta com a divulgação ampla dos portais de editoras mais autorais a sites pessoais de mangakás. O que se explica pelo fato de que as mais diversas formas de expressão das HQs estarão representadas. O mais que alternativo Ralf König puxa a fila dos nomes anunciados, junto a Jean Claude Fournier (Spirou) e François Walthéry (Natacha). Harvey Kurtzman (da MAD) e Richard Corben (da Heavy Metal) serão objetos de mostras que se confundirão e somarão com eventos de cosplay, exibição de animês, bolsa de álbuns de Astérix. Haverá também, espaços para o Pato Donald, Buck Rogers e muito mais. Em especial, o festival vai comemorar mais um personagem alemão que faz 160 anos em 2005 (além de Max und Moritz): Struwwelpeter, o personagem criado por Heinrich Hoffmann simplesmente por que resolveu cobrir a lacuna da inexistência de obras infantis na Alemanha de seu tempo e acabou sendo traduzido em todos os idiomas ocidentais. O menino cujos versos em português mais conhecidos são 'Olha pra ele! Olha só! Cabelo e mãos de dar dó' já foi adaptado até para ópera. Struwwelpeter é também o nome escolhido por Laura Scarpa para nomear um grupo importante na história recente das HQs italianas, fundado em 1993 e já tem um título  prometido pela Fantagraphics para 2006, nos EUA, em mais uma contribuição desta bela editora para o resgate da história das HQs. Caso você não possa ir Munique para esta bela festa,  aproveite, pelo menos, para conhecer online, algumas histórias ilustradas de Struwwelpeter, em seu site oficial  (em inglês, alemão e hebraico). 
 

Montevideo Comics
 
Nos dias 6 e 7 de agosto, acontece mais uma edição do Montevideo Comics, evento que deve aglutinar inúmeras tribos uruguaias e é considerado o principal do calendário dos quadrinhos naquele país. A ampla pluralidade começa pelas conferências, onde além da alemã Isabel Kreitz, com apoio do Goethe, sobre a qual já falamos no Quadrantes dos Quadrinhos), se fará presente Carlos Trillo, em mais uma das muitas participações do artista argentino na cena internacional, juntamente com exposições da Sociedad Tolkien local, e de um grupo de HQs uruguaias de terror, entre outros. Na mostra de cinema, 'Immortel', de Enki Bilal, 'Appleseed' (baseado no mangá de Masamune Shirow) e 'Steamboy', de Katsuhiro Otomo estarão junto de fan-filmes, filmes de zumbis e até de kung-fu. No que os organizadores chamam de outras atividades, se incluem uma mostra dos vencedores do concurso anual de quadrinhos e ilustração do Montevideo Comics, oficinas para criação de fanzines com o iconoclasta e muito ativo grupo uruguaio Guacho, junto com tatuadores, cosplayers e muitos outros. Outro setor que terá muito destaque são os RPGs. Só fica difícil saber se uma diversidade tão larga acaba tendo algum saldo para os quadrinhos.
 

Um toscano na Vertigo
 
Uma notícia saída da San Diego Comic Con que mexeu com os sonhos dos jovens quadrinhistas europeus foi o anúncio feito pelo selo Vertigo, a linha de quadrinhos adulta da DC Comics, de que Riccardo Burchielli irá ilustrar algumas páginas e as capas da nova série com roteiro de Brian Wood, chamada DMZ, que tem alguns componentes que lembram a série de maior impacto de Wood: Clean Act. DMZ acontece numa Nova York de um futuro próximo em meio a uma guerra civil. Uma parte do trabalho já foi iniciada pelo próprio Wood. Riccardo Burchielli, egresso do fanzinato italiano e dono assumido de uma personalidade italianíssima, ganhou respeitabilidade a partir da série John Doe, iniciada em 2003, em que sequer desenha sozinho. Assim, a Vertigo mostra que está atenta ao que acontece pelo mundo afora ajudando a reciclar e levar novos valores para o cenário americano. Para conferir a arte de Burchielli, visite sua página oficial.  
 

60 Looney Tunes em 4 DVDs
 
No dia 25 de outubro, as lojas dos Estados Unidos começarão a vender 'The Looney Tunes Golden Collection, Vol. 3', uma caixa de 4 DVDs com 60 filmes de Pernalonga, Patolino, Gaguinho e amigos realizados entre 1938 e 1961. Tão importantes quanto a quantidade e abrangência são os cuidados com os extras. Na lista de profissionais que comparecem com comentários sonoros, temos Bill Melendez, cineasta responsável por animações da Warner, de Garfield e da turma de Charlie Brown, Jerry Beck, um dos maiores estudiosos da área no mundo, o crítico Michael Barrier, e Paul Dini, o nome mais conhecido dos apreciadores de quadrinhos, por roteirizar e adaptar para televisão personagens como Batman. A caixa ainda traz um documentário sobre Frank Tashlin, que começou sua vida como quadrinhista de tiras e depois foi um dos principais  animadores de Looney Tunes e Merrie Melodies, com passagens pela MGM e Disney. Preço de referência: 65 dólares.
 

Botchan em inglês
 
Outra bela notícia do consórcio das editoras Ponent Mon (Espanha) / Fanfare (Grã-Bretanha). Já neste mês de julho está sendo lançado o 1º volume de Botchan ('Botchan No Jidai'), com roteiros de Natsuo Sekigawa e desenhos de Jirô Taniguchi que é considerada uma obra-prima em mangás históricos, sendo um fino e prolongado retrato do Japão da segunda metade do século XIX e de suas relações crescentes com o Mundo Ocidental 'The Times of Botcham', o primeiro álbum, de 144 páginas, em preto e branco está sendo vendido por 18 dólares. Em língua portuguesa - por enquanto - só o Correio da Manhã já acenou que vai brindar seus leitores com um pouco desta obra, incluída na programação da coleção Clássicos da BD, e que deve ser publicada em 30 de outubro pelo jornal de Lisboa.
 

A mordida de Tatanka
 
Tatanka é o intrigante nome de uma série que começou a ser publicada na França pela Delcourt em junho  e que ocupou rapidamente um lugar de respeitabilidade na BD. O primeiro volume de Tatanka, com o titulo de Morsure ('Mordida'), apresenta um grupo de ativistas contra a vivissecção de animais, cujo nome é Tatanka (nome que os sioux dão ao bisonte), e que se dedica a soltar animais que estão ameaçados por esta prática. O grupo desperta a curiosidade de um jornalista, numa trama que acaba se desdobrando em mais de um personagem central e que inclui um vírus criado em laboratório. O roteiro é assinado por Joël Callède, cuja maior qualidade é exatamente tirar proveito dos mínimos detalhes que distinguem os seres humanos uns dos outros, e que constrói uma estória bem-fechada neste que é seu oitavo álbum. Tatanka marca, principalmente, a confirmação de Gaël Séjourné, que na verdade, começou a carreira (ou tentou começar) como desenhista de quadrinhos de humor. Uma boa oportunidade para conhecer o traço de Séjourné foi disponibilizada pelos colegas de BD Paradisio. Neste link, é possível ver as primeiras 7 pranchas do álbum.