Gabriel Lopes Pontes

 

 

 

 

AS GUERRAS DO SÉCULO XX

NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

 

 

 

 

 

CENTRO de INVESTIGAÇÃO

HISTÓRIA em QUADRINHOS – HISTÓRIA

 

 

 

 

 

 

 

 

Apresenta

 

AS GUERRAS do SÉCULO XX nas

HISTÓRIAS em QUADRINHOS

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO II

 

ANDRÉE E MARCELLE

 de ALGOUD E VUILLEMIN

A FRANÇA QUE COLABORA E A FRANÇA QUE RESISTE

NUM CORPO SÓ

 

 

 

 

GABRIEL LOPES PONTES

 

 

 

 

 

 

Andrée et Marcelle”, de Algoud e Vuillemin.

A França que colabora e a França que resiste num corpo só.

 

 

Gabriel LOPES PONTES

 

 

 

Personagens  insólitos  simbolizam a Colaboração e a Resistência numa HQ impudica

 

Gêmeas siamesas, as parisienses Andrée e Marcelle estão condenadas a viver para sempre unidas pelo flanco. Como elas só dispõem, para sustentar e locomover esse corpo tão bizarro, de um par de pernas – uma pra cada –  entre as quais se localiza o sexo único e este é, portanto, de propriedade questionável, somos levados a supor que elas dele desfrutam alternadamente nas lides de alcova, embora permaneça sempre difícil definir de quem são a bexiga e os uretéres que determinam a micção e quem exerce a higiene íntima ao fim desta. Constrangidas de nascença à esta vitalícia e incômoda co-habitação do mesmo esdrúxulo envólucro, elas tem, todavia, o conforto de serem donas de seus próprios troncos, braços, mãos e cabeças e, sobretudo, do que vai dentro delas que, aliás, é diametralmente oposto.

 

As  duas vivem em plena Paris ocupada[1] e uma delas – ou melhor, seu lado direito, Andrée – é uma entusiasta resistente, que logo ingressará num maquis e a outra – leia-se o lado esquerdo, Marcelle – evoluirá de um deslumbramento acéfalo pelos fortes e triunfantes, de um modo geral, e pelos invasores nazistas, em especial, para um colaboracionismo assumido, recolhendo com glamour e sem escrúpulo as benesses decorrentes desta postura e por elas pagando o alto e previsível preço quando da Liberação. São essas originais personagens – espécie de Jeckill e Hyde moderno, feminino e fortemente politizado – as duas partes antagônicas – a Colaboração e a Resistência – de um mesmo corpo – a França – condenadas a dividir o mesmo espaço até que uma termine por sobrepujar a outra. 

 

Nesta HQ de um humor que saí dos limites do ferino para chegar às raias da crueldade a dupla Albert Algoud e Vuillemin revisita a mais soturna página da História da França, aquela em que ela se viu ocupada pelo inimigo ancestral, depositário de ódios e medos perenes; teve que suportar, impotente, a desintegralização do seu território e, pior que tudo isso, assistiu à adesão de grande parte de seus filhos à causa contrária. Escolhendo esse tema e abordando-o da maneira que o abordaram, os dois artistas fizeram mais do que meramente se basearem na História para compor uma obra ficcional de um demolidor sarcasmo, para o qual é peça fundamental o traço de inconfundível virulência de Vuillemin. O que eles conseguiram foi construir, sobre a História, um discurso que propõe a seu respeito questionamentos altamente relevantes e que se recusam a se calar, apesar da distância temporal, de outras urgências e da ausência física da maioria dos que estiveram envolvidos nela.

 

Andrée e Marcelle – a dupla e dolorosa face da França”, publicada em 1986, na revista francesa l’Echo des Savanes, é, portanto, mais do que um cartoon extremamente divertido, com forte sotaque sádico e desenhado em viés fortemente expressionista. É um estudo sutil sobre o comportamento do indivíduo comum diante das avassaladoras forças da História, que o tragam e o deslumbram.

 

O pleno domínio da técnica quadrinística a serviço da construção de um  discurso sobre a História recente da França

 

Logo nas primeiras palavras com as quais, numa plaqueta horizontal, ao pé da primeira página, apresentam as duas protagonistas da sua HQ ao leitor, os autores evidenciam o choque de personalidades que atingirá sua culminância no choque ideológico, eclodido mercê da guerra. Marcelle, que teria sido “Levada desde a infância, por seu comportamento romanesco, à admirar o luxo, sonhando com um brasão e sangue azul” é, portanto, o protótipo fiel da pequeno-burguesa fútil que pasma diante dos brilhos da aristocracia e torce o nariz para os menos desfavorecidos, dos quais, paradoxalmente, está muito mais próxima – para seu profundo desagrado, diga-se de passagem. Já Andrée, entusiasta da Frente Popular, desejou ardentemente unir-se aos republicanos espanhóis, engrossando as fileiras das brigadas internacionais, projeto que a oposição de sua irmã fadou ao fracasso. ( No presente caso, não é absurdo dizer que, quando uma das duas, literalmente, finca o pé, a outra fica sem ter pra onde correr.). Esta primeira plaqueta termina com uma frase que soa como um mau presságio: “(...) A guerra, ao invés de aproximar as duas siamesas em uma união sagrada contra o Ocupante, vai dramaticamente as separar ...” Este comentário sobre uma situação que é inconcebível à luz da anatomia mais elementar é emitido com uma seriedade tão propositalmente em desacordo com seu caráter insólito que o resultado é mais ou menos aquele que teria a clássica Quinta de Beethoven num saltitante arranjo de dixieland... o suspense de fato fica no ar, mas de uma forma engraçada.

 

Mescla de elementos de diversas artes e arte em si mesma, a HQ é, fundamentalmente, uma narrativa imagético-textual cuja velocidade de informação é intimamente próxima daquela do cinema, em ambos os casos devendo os dados a respeito da trama serem administrados de maneira econômica, direta e sobre a qual não pairem dúvidas. Afinal, os filmes universalmente adotaram o padrão de cerca de 120 minutos e mesmo as mais longas HQs não chegam a ser compêndios, não dispondo, nem filmes nem HQs, das confortáveis dimensões do romance para informar, descrever e ponderar. Manifestações artísticas contemporâneas par excellence, ambas comungam com a era que as abriga na féerica necessidade de informar claro e informar rápido. Ora, a obra em questão é de curto fôlego e, portanto, fazem-se mais imperativas ainda a velocidade e a precisão na transmissão das informações que permitam de imediato identificar em que contexto espaço-temporal se processa sua ação.

 

Na primeira das seis páginas que compõem a HQ e que termina com a supracitada plaqueta fica demonstrada muito claramente a intimidade dos seus autores com os meandros de seu ofício. Empregou-se aqui o clássico recurso do “quadrinho-de-página”, comprovadamente eficaz, pelo próprio impacto da dimensão, para abrir HQs. Nele, apresentado por um ridículo colaboracionista, que informa às gêmeas que tiveram a casa requisitada, o Coronel Hermann Mengele, olhos ensombreados pela aba do quepe com a águia, cruz-de-ferro como gargantilha, braçadeira com suástica cingindo o braço e ocupando largo espaço com sua grotesca figura, ergue uma das suas descomunais mãos, fazendo a saudação hitlerista para suas anfitriãs compulsórias. A seu lado, pousada no chão deste que será doravante seu lar, uma valise crivada de adesivos nos quais se lê: “Oradour”; “Varsóvia”; “Dachau”; “Budapest” e etc. Estão presentes aí, portanto, no vestuário e no gestual do oficial, os aspectos símbólico-psicológicos do nazismo e, nos adesivos da sua valise, claras referências a alguns dos piores palcos de conflito e extermínio da História.

 

Sobretudo, convém destacar o aspecto totalmente despido de piedade com que Vuillemin define os personagens, desenhando o nazista como um brutamontes simiesco e o colaboracionista com um aspecto de gritante cretinia. Sua cara idiotada, olhos estupidamente arregalados ladeando um focinho suíno que encima um bigode caindo por cima da boca, da qual a língua sai como se ele fosse um completo demente é simplesmente emblemática. A lista de motivos que conduziram à colaboração tantos cidadãos dos países ocupados é extensa demais para as modestas dimensões deste ensaio, mas é evidente que, entre os muito tipos de colaboracionista, encontrava-se aquele que servia ao invasor não por crer na correção da sua doutrina – mesmo porque lhe faltava o mínimo de capacidade intelectual para compreendê-la – mas na ânsia de auferir as sobras do seu momentâneo poder. Esse tipo de colabô-oligó está visualmente representado à perfeição neste quadrinho de abertura como também o está aquele tipo de nazista de monolítica brutalidade na figura de Hermann, que é microcéfalo e exibe um esgar lúbrico numa caratonha de evidente demência. A reação das irmãs a este hóspede imposto também está claramente expressada. A expansão dos gestos de Marcelle, fascinada com o militar, é tão incontida que praticamente empurra Andrée, visivelmente insatisfeita com a chegada do troglodita. O próprio aspecto externo delas, aliás, reflete suas personalidades e suas posturas diante da vida e da situação. Cuidadosamente penteada, Marcelle se enfeita com colar e bracelete, usa um alinhado vestido vermelho e calça elegantes scarpins de salto alto. Andrée, desafeta da ostentação pequeno-burguesa, se veste de maneira rude, parecendo ter jogado de qualquer modo sobre o corpo o primeiro trapo que encontrou – um vestido verde com manchinhas roxas e gola fechada. Suas botinas causariam inveja aos desagasalhados combatentes alemães de Stalingrado; seu cabelo se encontra preso em duas ridículas tranças espivitadas para cima, enroladas em não menos ridículos laçarotes azuis; a fumaça do seu cigarro, ao elevar-se, encontra o coração contido no balão que traz a “fala” de Marcelle, velho clichê quadrinístico para simbolizar paixão, que até soa redundante diante da clareza da ilustração. Como se não bastasse, no canto superior direito desta página, que é, no final das contas, um grande quadrinho, um outro quadrinho menor, nele contido, mostra as duas irmãs dividindo o leito, antes da chegada do alemão, em atitudes que não deixam dúvidas quanto às suas simpatias: Marcelle pede a Andrée que troque a estação do rádio, pois a transmissão de um pronunciamento de De Gaulle desde Londres tem tanta estática que não a deixa ler as revistas Signal,  que trazem nas capas, uma a imagem de Hitler e a outra a de um troncudo S.S.. Nesta cama, representadas pelas duas irmãs, estão dois grupos de franceses, cada um com uma maneira diferente de vivenciar a Ocupação; lado a lado, as irmãs coexistem, como coexistiram naquela época duas Franças, cada uma com objetivos e sentimentos completamente opostos. As animosidades latentes entre as siamesas acabarão por explodir, da mesma inevitável forma que explodiram aquelas existentes entre os grupos que elas representam, que, aliás, eram as mesmas.

 

A HQ é um código narrativo particularíssimo, que propõe uma fusão de imagens estáticas seqüênciadas, passíveis de receberem uma gama infinda de tratamentos plásticos, com uma linguagem literária praticamente idêntica à do roteiro cinematográfico. Este código, compreendido e dominado sem senões pelos autores de Andrée e  Marcelle é por eles empregado para representar, com indiscutível e impactante clareza, a atmosfera geral do momento histórico, criada pela presença de um invasor que provoca nos invadidos, sensações e posições contrárias e contraditórias.

 

A resistente convicta e a colaboracionista deslumbrada:

 

É importante ressaltar que o que leva Andrée a ter uma expressão carregada, de cenho permanentemente franzido, é o fato de que ela é um idealista strictu sensu, que deseja um mundo melhor e a quem o nazismo agride não só pelo que pode acarretar ao seu país, mas por ir diretamente de encontro com seus ideais. E o que faz os olhos de Marcelle brilharem é o deslumbramento mero com o poderio nazista e seu vistoso aparato, enfatizado por seu caráter eminentemente ritualístico e pomposo. Em suma: Andrée é uma daquelas resistentes para quem a atuação na Resistência é coerente não só com as necessidades maiores da Pátria ocupada como também com seu ideário político, enquanto Marcelle personifica aquele tipo de colaboracionista menos interessado no conteúdo ideológico do nazismo do que fascinado com o esplendor dos que estavam dobrando o mundo ao peso de suas botas. E tanta competência no campo militar era, para as mentes simples e para muitas não tão simples assim, referendum suficiente da alegada superioridade do conquistador. O raciocínio é primário e trai uma lógica também primária, mas aparentemente inquestionável: se eles provaram mesmo serem capazes de submeter os outros povos, impulsionados pela crença na própria superioridade, então é de se supor que eles deviam de fato ter algo de superior – e o que há de melhor que se juntar aos que vencem e lucram com a vitória?

 

O tórrido romance entre Colaboração e Ocupação

 

Como a narrativa aqui é particularmente veloz, o previsível romance entre Marcelle e Hermann se desenrola, para grande asco de Andrée, em econômicas e eloqüentes imagens, que seriam de uma terrível grosseria se não fossem de uma absurda hilariedade e se essa grosseria não fosse empregada com fins bem definidos. Todos os quatro quadrinhos da segunda página – por ela distribuídos de uma forma clássica: retângulo horizontal, dois quadrados verticais, retângulo horizontal – abordam o convívio erótico do nazista com a colabô, ao tempo em que a ligação de Andrée com a Resistência vem à tona. No primeiro deles, Hermann puxa pela mão a Marcelle para lhe mostrar borboletas vermelhas com suásticas nas asas, enquanto Andrée deliberada e inultimente, tenta estragar o passeio, fincando a perna no caminho. Dividida entre contemplar a sedutora nuca do seu Adônis nórdico e convencer a irmã da fragilidade dos seus esforços diante da força física de Hermann, que deles nem toma conhecimento, Marcelle diz a Andrée que não vale a pena travar a perna. “É a minha perna!”, responde a irada resistente. Há sutilezas significativas neste quadrinho. Pra começar, a onipresença do símbolo nazista, conspurcando até símbolos  clássicos de idílio como as borboletas, ilustra bem o maciço sistema de lavagem cerebral montado por Göebbels e Speer, ao tempo em que o satiriza inteligentemente. Além disso, Hermann não passeia delicadamente, de mãos dadas, com sua namorada, como seria de  se esperar de um galante Romeu. Ele literalmente arrasta Marcelle, levando de roldão a Andrée. Esta truculência – que aqui se manifesta até no romance – não só é tipicamente nazista como tem um significado simbólico. O Ocupante, aliado à Colaboração a quem seduzira, arrasta a impotente Resistência. Note-se também que a perna de Andrée,  mais que um simples membro realmente seu num corpo que ela divide, é uma porção de um conjunto maior sobre o qual ela ainda tem alguma ingerência, que ainda está governado por sua vontade. A perna de Andrée, por assim dizer, simboliza a perseverança da Resistência, tentando travar o avanço do Ocupante e recusando-se a se deixar levar pela Colaboração,  submissa como um cão manso e que já se entregou a ele muito mais do que a ele se aliou.

 

O quadrinho seguinte tem o texto contido numa plaqueta que diz: “Humilhada por este amor politicamente pouco claro, Andrée decide se isolar” e apresenta uma cena grotesca: enquadrados de frente, os três estão sentados num banco, vendo-se ao fundo um lago no qual nadam placidamente cisnes. Em gritante contraste com este bucólico cenário, Hermann, com a língua pra fora e dominado por patente lascívia, enfia a mão por sob a vestido que as irmãs desfrutam em conjunto, metade dele sendo o vistoso modelito vermelho de Marcelle e a outra metade o horroroso farrapo de bolinhas de Andrée.  A secreção vaginal (de quem?) escorre até cair no chão enquanto Hermann aperta o seio de Marcelle com a sutileza de quem ordenha um salame e Andrée, querendo afetar indiferença, mas deitando um chocado olhar de soslaio sobre os pombinhos, lê uma revista na tentativa inútil de “se isolar”. A fina ironia da dupla começa a se evidenciar no texto, ao definir, num eufemismo tão rídiculo que chega a ser engraçado, o relacionamento de Hermann e Marcelle como “politicamente pouco claro”, o que é mais do que uma maneira bem humorada de rotular as inconseqüentes aventuras dos nazistas e suas cocotes, pois traz por trás do rótulo uma crítica. A ironia se reafirma através da imagem que contrapõe uma atmosfera pueril à uma tara aberrante. De simbólico, na cena, a impossibilidade da Resistência em se alhear, por mais que deseje fazê-lo, da intimidade entre a Colaboração e o Ocupante, que a constrange porque, mais do que ser “pouco clara” – o que vale dizer “incorreta” – é de uma obscenidade que salta aos olhos e se processa em via pública, abertamente, sem restrições, enquanto que ela, Resistência, impulsionada por razões muito mais nobres – a liberação do território ocupado, a expulsão do tirano estrangeiro, a sobrevivência nacional, o triunfo dos ideais libertários – tem que se tornar invisível, agir nas sombras, falar por códigos e, apesar do preço em nervos que este comportamento cobra, se ocultar por trás de uma máscara de indiferente tranqüilidade.

 

No terceiro quadrinho, sobre a cama das irmãs convertida em ninho de amor, o casal passa das preliminares ao ato e o grotesco se enfatiza. Perdida de paixão e deitada enlanguescida sob seu homem, Marcelle o previne, com delicadeza constrangida, que Andrée está naqueles dias, ao que o guerreiro, estóico, responde, “O sangue não me causa medo, Marcelle...” Diante de tal prova de amor e de tão másculo cavalheirismo, ela só pode suspirar um “Ohhh, Hermann!” que vem inscrito num singelo balão em forma de coração. O curioso é que quem está naqueles dias é Andrée, mas quem se entrega a Hermann é Marcelle. Esta confusão sobre a propriedade da vulva é mais do que uma piada bizarra, é um recurso para enfatizar, através da caótica e grotesca situação deste triângulo que não poderíamos chamar de amoroso, a caótica e grotesca situação em que se encontrava mergulhada a França de então. Como ênfase a tudo isso, Andrée atende uma chamada clandestina no aparelho de rádio amador que ela mantém debaixo do leito que divide com o casal, através do qual um certo Lobo Negro a chama, entre zumbidos, pelo codinome de Dália Azul. Ela pede que a procurem mais tarde, pois “não está só”. Ficamos, assim, sabendo que Andrée é um membro da Resistência. Como ela ocultava esta aparelhagem  debaixo da cama compartilhada com os dois, chegando a usá-la enquanto eles se entregavam a Eros, sem que eles sequer desconfiassem, é que ninguém explica e nem precisa explicar, pois isso é perfeitamente cabível dentro do caráter de farsa que os autores imprimem a seu trabalho, na intenção de sublinhar o absurdo da própria situação histórica enfocada.

 

A página se conclui com uma abatida Andrée tentando ouvir a precária transmissão de Londres em meio ao ruído que faz a cama sacolejante e os onipresentes gemidos teutônicos de Hermann (ach! aach! aaach!), convicto o bastante do credo nazista para ter mandado tatuar suásticas nos testículos. Aqui também o humor não é gratuito(como não o será ao longo de toda a trama). Herman [o Ocupante] possui Marcelle,[a Colaboração] e o faz com o prazeroso consentimento dela, mas o que ele ocupa é o corpo da França, que envolve ainda Andrée[a Resistência], para quem essa posse é um doloroso estupro.

 

Como age a Colaboração e como age a Resistência

 

Na terceira página, finalmente são dados os primeiros passos para o inevitável choque entre Andrée e Marcelle. A primeira diz a Hermann, nos estertores do orgasmo, que ele tem um sexo grande, o que ele afirma já saber com a tranqüilidade de quem está acostumado à essa carícia no ego machista. Quando os dois dormem, satisfeitos e saciados, Andrée, que já havia comentado consigo mesma que não contassem com ela “para lavar o rabo”, descobre um caderno com a tarja “ultra secreto” no casaco de Hermann. Arrastando uma desnuda Marcelle, que ela julga ter atendido suas recomendações para que dormisse, ela sai de bicicleta, descobrindo, no atrito com o selim, quão grande o membro de Hermann realmente era. A analogia é clara, Hermann penetrou a mesma vagina, cabendo a Marcelle desfrutar desse coito e a Andrée lamentá-lo. Um mesmo comportamento do Ocupante gera prazer para a Colaboração e dor para a Resistência.

 

Depois de dizer a senha diante de uma célula resistente, Andrée é nela admitida e pede aos companheiros que copiem correndo os documentos. Recusando insistentes convites de Lobo Negro, que parece ter uma queda por ela, para que aceite um copo, Andrée afiança-lhes que Marcelle não desconfia de nada, mas que é preciso voltar antes que ela acorde. Só que Marcelle, que já vinha estranhando tantas e tão misteriosas saídas noturnas de sua irmã, apenas fingia dormir.

 

Na página seguinte, a quarta, vemos chegar à sede do comando alemão uma carta assinada por “uma admiradora anônima” que acusa “uma certa Andrée” de se encontrar noturnamente com refratários e comunistas; escutar Londres no rádio; fazer de tudo para prejudicar as autoridades alemães e, pior, ser judia, bastando observá-la de perfil para constatar essa grave acusação. Em P.S., a denunciante informa que a tal Andrée vive com sua irmã Marcelle, esta sim uma verdadeira ariana. Com essa denúncia, Marcelle abandona de vez sua Colaboração sem outro envolvimento que o amoroso com a pessoa de um ocupante e conclui sua metamorfose em colaboracionista convicta e engajada. Destarte, ela personifica inúmeros franceses que, adotando uma postura colaboracionista sem saber muito bem por que, foram evoluindo para uma adesão completa aos ideais nazistas.

 

A bordo do carro da Gestapo que a conduz, Andrée constata horrorizada que foi Marcelle quem a denunciou, ao que a irmã contesta: “O amor não se afina com o comunismo, Andrée”. Uma plaqueta fecha a página: “... e, com estas palavras sibilinas, Marcelle vê sem remorso sua irmã  se encaminhar em direção ao seu trágico destino...” Quantos e quantos colaboracionistas não entregaram assim seus próximos aos verdugos nazis? Com humor, esta HQ espelha a História.

 

Na sede da Gestapo, Hermann tortura e xinga Andrée enquanto pede a Marcelle perdão pela linguagem. E, na mesma mesa em que repousam os dentes de Andrée e o alicate que os arrancou, está o balde de gelo com o champagne de Marcelle. Enquanto a cabeça  de Andrée é enfiada numa banheira d’água, Hermann  previne a Marcelle que ela não deveria olhar, pois não é um espetáculo para um mulher. À esta altura, no auge de sua Colaboração, não só no que ela traz de pérfido, mas também no que ela traz de brutal,  Marcelle desfruta o conforto que a traição lhe oferece e diz calmamente a Hermann – que está torturando sua irmã –  que não se torture por ela, Marcelle. Continuando nossa argumentação que o corpo de Marcelle e de Andrée é a França, o que temos aqui é a parte colaboracionista da população francesa totalmente fria em relação ao sofrimento que possa ser imposto à parcela resistente, desde que ela continue a beber o doce champagne do entreguismo.

 

Mas Andrée soma-se àqueles resistentes que a sevícia não fez falar. Mesmo repetidas violações por trás e pela frente não lhe destravam a língua. E aqui se evidencia o duplo uso que faz Hermann dessa  vulva  que as siamesas compartilham: ela se presta ao seu prazer e é violada quando lhe interessa pressionar sua cunhada resistente. Vale dizer que os alemães, representados por Hermann, souberam gozar os favores sexuais das francesas quando lhes foi conveniente e não vacilaram em usar o estupro como instrumento de tortura, coação e punição, no que aliás, foram imitados pelos Russos quando lhes coube vingar Barbarossa. O mutismo de Andrée acaba convertendo os torturadores em torturados e eles decidem enviá-la para Dachau, o que não acontece graças à intervenção salvadora de Hermann que sabe que isto significaria se separar de Marcelle. A mensagem subjacente é a de que, por mais que isso desagrade a Hermann, Colaboração e Resistência, no quadro da Ocupação, são forças complementares e indiscerníveis. E quantos e quantos resistentes não foram salvos pelos nazistas, a pedido de alguém que lhes prestava favores ? Mais uma vez, HQ espelho feliz da História.

 

Portando a Magen David que os nazis trataram de transubstanciar de símbolo de orgulho em instrumento de humilhação, Andrée começa um aviltante martírio Ela é obrigada, no luxuoso restaurante onde Hermann e Marcelle, imersos em glamouroso romance, se banqueteiam, a comer no canto da mesa cuja toalha foi levantada para receber sua vasilha d’água e seu naco de pão. Mas o III Reich, como todo império, especialmente aqueles construídos sobre bases tirânicas, estava fadado a conhecer, no curto espaço de uma dúzia de anos, ascensão, zênite e queda. Depois de se aproveitar dos momentos de glória da Ocupação, Marcelle sucumbe à voragem de seu declínio. Dos restaurantes de luxo ela passou aos bas fonds, onde a saudação hitlerista é feita para coristas nuas. Envergonhada diante de seus amigos por ter uma irmã resistente, ela prefere deixar o champagne fora do balde de gelo e usar este para se livrar da incômoda cara de resistente dela, cobrindo-a, pelo menos enquanto consome carreiras de cocaína. O membro de Hermann, outrora tão louvado por seus méritos viris, passa a repousar em sua mão, flácido como um zeppelin desinflado, fracasso que ele procura atribuir à proximidade dos americanos.

 

Aproveitando-se da guarda baixa de Hermann, Andrée pega uma faca que, assim como o aparelho de rádio amador com o qual se comunicava com a Resistência, escondia em baixo da cama, sem que haja uma explicação razoável para como ela conseguia fazê-lo. Esperar explicação razoável para este tipo de detalhe, numa HQ protagonizada por personagens completamente absurdos, que vivem uma situação mais absurda ainda, seria, no entanto, incompreender a abordagem que fazem do tema os autores, tentando – e conseguindo – traduzir, com um absurdo ficcional, um absurdo real. Ela desfere um golpe seco, que faz Hermann se despedir da vida com uma última ejaculação e coloca uma pistola – que também não se sabe nem importa saber como ela guardou – na cabeça de Marcelle, anunciando-lhe que a farsa acabou e ordenando-lhe imperiosamente que erga as mãos. A Resistência liquida o Ocupante e captura a Colaboração.

 

Triunfante, a Resistência mostra seu lado cruel

 

Embora uma plaqueta diga que “Assim como Andrée, a cidade reencontra sua dignidade”, o povo vai às ruas e promove uma sangrenta orgia de vingança, resumida com felicidade num único pequeno quadrinho, em cujo primeiro plano, um membro da Resistência – de aspecto quase tão brutal quanto o de Hermann – faz mira num colabô ajoelhado diante dele; nazis são metralhados apesar das bandeiras brancas que exibem e seus corpos despedaçados jazem em poças vermelhas enquanto a cabeça de um deles enfeita o mastro de uma Tricolor e seus antigos cúmplices são atirados pelas janelas. Algoud e Vuillemim, que não pouparam  ocupantes e colaboradores ao longo de toda a estória, não poupam tampouco os resistentes quando os apresentam no seu momento de maior júbilo. Sua visão da Resistência, portanto, foge do maniqueísmo e vê o lado podre dos seres humanos independentemente da causa pela qual combatam.

 

É envergando um autêntico traje de guerrilheiro que Andrée conduz Marcelle, totalmente nua, para o salão de cabeleireiro atulhado pelos cabelos de tantas outras que foram tosquiadas. Os pelos da polêmica vagina aparecem do lado de Marcelle, que é a próxima na fila das que serão submetidas a um sorridente barbeiro, feliz de transformar seus instrumentos de trabalho em machados de carrasco. No fundo do poço ao qual seu colaboracionismo a levou, Marcelle se consola da humilhação por carregar no ventre o fruto do seu amor condenado.

 

O último quadrinho deste soberbo trabalho nos mostra a total inversão que se processou nas duas e nas forças que elas encarnam. Assim como milhares de outros franceses, as gêmeas passaram a ter sua posição social, após a guerra, determinada por sua conduta durante ela. Agora é Andrée, com um sorriso de triunfo no rosto pela primeira vez radiante e as ridículas trancinhas com um aspecto até garboso, quem enverga um exuberante longo vermelho e bebe champagne em elegantes salões. Prestigiada por sua postura nos tempos sombrios, ela se introduziu nos meios intelectuais, passando a trabalhar como diretora literária num jornal no qual, apesar da sua renhida oposição, Marcelle conseguiu emprego como faxineira noturna. Naufragada no álcool, esta se tornou um escombro que arrasta, na sua decadência ébria, a quatro xipófagos remelentos, proferindo num melancólico sussurro que, no seu tempo, pelo menos haviam homens.

 

A HQ como fonte para o estudo da História

 

Verdadeira aula de técnica quadrinística, que não aceita que sejam impostos limites puritanos ao seu humor escatológico, Andrée e Marcelle é, seguramente, um sólido discurso imagético-textual sobre um relevante momento da história do Século XX, composto a posteriori deste, que prova, em escassos trinta e sete quadrinhos distribuídos ao longo de apenas seis páginas, que a HQ, assim como o cinema, é fonte pertinente para o historiador, embora, assim como o cinema não é nem deva ser fonte única.

 

Na conclusão cabe uma recapitulação dos fatos apresentados. O recorte se inicia na chegada do Ocupante, segue pelo empréstimo de apoio que lhe faz a Colaboração e pela oposição que lhe faz a Resistência, daí para o mergulho dos ocupantes e seus comparsas locais na decadência diante da derrota iminente, a aproximação, e , por fim, a chegada dos exércitos[2] aliados que promovem a Liberação; a punição, não totalmente despida de um viés bárbaro e seguida da exclusão social dos traidores; a honra aos heróis e o conseqüente prestígio destes. Em curtas e alucinantes páginas, vemos o fio da História se desenrolar rapidamente, sem ter sua essência em nada adulterada pelo lancinante humor, pois este, aqui, não é um fim em si mesmo, e, portanto, um empecilho na reconstituição de um quadro histórico. O humor, que aqui se apresenta com originalidade incomum, é um recurso poderoso, usado com consciência e eficácia,  para contar a História e revela-se tão válido quanto qualquer recurso tradicional. Quem disse que a ciência tem que ser chata?

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seria o mais terrível dos séculos

se não tivesse sido

o mais belo

Seria o mais belo dos séculos

se não tivesse sido

o mais terrível

 

G.L.P



[1] Não há nenhuma indicação explícita de que é Paris, mas, como também não há nenhuma em contrário, isto é presumível. Por uma questão de praticidade, vamos, então, assumir que é Paris.

[2] Embora estes não apareçam na estória, sabemos bem que, mesmo no caso das cidades que fizeram sua própria Liberação, foi a sua presença, que, quando não se fazia real, se fazia perceptível, quem de fato pôs fim à Ocupação.